Pular para o conteúdo

Paraíso tropical prestes a se tornar nação: esta ilha do Pacífico será um novo país em breve.

Garota em penhasco segurando tecido colorido com baía, coqueiros e vulcão ao fundo ao entardecer.

Quem viaja hoje para Bougainville chega a um lugar onde vulcões soltam fumaça, recifes de coral ainda parecem intocados e a ideia de ter um passaporte próprio deixou de ser fantasia. Essa região autónoma no leste de Papua-Nova Guiné pretende declarar independência em pouco mais de um ano - e, com isso, tornar-se o país mais jovem do planeta.

Onde fica Bougainville - e por que quase ninguém ouviu falar

Bougainville está mais ou menos a meio caminho entre Papua-Nova Guiné e as Ilhas Salomão. O território reúne uma ilha principal grande, várias ilhas menores e a ilha de Buka, ao norte. Ali vivem cerca de 300.000 pessoas, espalhadas por vilas costeiras, vales tropicais e áreas montanhosas cobertas por floresta húmida.

Em sites e guias de turismo, Bougainville praticamente não aparece. Uma década de guerra civil violenta nos anos 1990 afastou visitantes internacionais. Depois, o grande boom global das viagens migrou para outros nomes - Bali, Fiji, Ilhas Cook. Bougainville permaneceu como um vazio no mapa turístico.

"Bougainville é uma das últimas grandes “lacunas” do Pacífico - politicamente muito instigante, com paisagens espetaculares e, até agora, quase sem turismo de massa."

O arquipélago ainda carrega o nome do navegador francês Louis-Antoine de Bougainville, que fez uma breve escala ali no século XVIII e seguiu viagem. Desde então, a história mundial passou ao largo quase o tempo todo - até que os próprios habitantes decidiram mudar o rumo.

Bougainville: de região autónoma ao 194.º Estado do mundo

No plano político, Bougainville ainda integra Papua-Nova Guiné, embora tenha poderes de autonomia amplos. Por muitos anos, o governo central e a população local entraram em choque por recursos naturais, autodeterminação e pelo peso de uma enorme mina de cobre que, no coração da selva, alimentou conflitos durante décadas.

A virada veio em 2019: num referendo vinculativo, 97,7 por cento dos eleitores votaram pela separação de Papua-Nova Guiné. Desde então, segue um processo difícil entre Port Moresby e o governo regional em Bougainville, com acompanhamento de vizinhos do Pacífico e parceiros internacionais.

Em março de 2025, Bougainville decidiu forçar o calendário: o governo fixou unilateralmente 1. setembro 2027 como data para a independência. Mesmo que as negociações continuem arrastadas, é nesse dia que o arquipélago pretende anunciar a própria soberania.

  • Referendo: 2019, aprovação quase unânime da independência
  • Data planeada para a independência: 1. setembro 2027
  • População: cerca de 300.000 pessoas
  • Situação atual: região autónoma dentro de Papua-Nova Guiné
  • Objetivo: reconhecimento como, muito provavelmente, o 194. Estado da comunidade internacional

Para tornar isso viável, os bougainvilenses já preparam as bases: uma constituição própria foi redigida, estruturas administrativas estão a ser montadas e símbolos de Estado já circulam. Uma bandeira com elementos pretos, vermelhos e turquesa já tremula hoje em frente a prédios públicos e escolas.

"Quem viajar para Bougainville nos próximos anos não vai ver só praias de sonho, mas também, ao vivo, como nasce um Estado - algo que na Europa quase não acontece há gerações."

Vulcões, lagoas e floresta húmida: a paisagem de um futuro país

O gigante inquieto: o vulcão Bagana

No interior da ilha principal ergue-se o Bagana, com cerca de 1.750 metros de altitude. Ele é considerado um dos vulcões mais ativos da Melanésia. Desde o ano 2000, solta fumaça praticamente sem parar, lança nuvens de enxofre no céu e, repetidas vezes, faz a lava escorrer encosta abaixo. A fase mais recente de atividade chegou até 2023, quando nuvens de cinza e fluxos de lama obrigaram aldeias a recorrerem a água da chuva e cocos como fonte de bebida.

As encostas são vistas como tão instáveis que até especialistas evitam a subida. Por isso, o Bagana costuma ser observado a distância, muitas vezes a partir de colinas ou vales de rios, de onde se abre uma vista ampla para o cone quase perfeito.

Lago de cratera turquesa na floresta

Não muito longe fica o monte Billy Mitchell, um vizinho bem mais tranquilo. Dentro da sua cratera há um lago de cor turquesa, a mais de 1.000 metros de altitude. Para chegar lá, o caminho atravessa floresta primária densa e húmida. Quem faz a caminhada avança por raízes e trilhas escorregadias, cruza pequenos cursos de água e escuta cantos de aves vindos de todos os lados.

Em muitos trechos, a impressão é de um lugar onde máquinas nunca chegaram. A região central da ilha não é toda cortada por estradas; rotas asfaltadas são raras. Para o futuro Estado, fica a questão: quanto de infraestrutura construir sem alterar a natureza de forma irreversível.

Corais, coqueiros e praias vazias

Vários dos pontos mais impressionantes de Bougainville ficam no litoral. Ao sul, as praias de Arovo Island brilham com areia branca e fina. Logo adiante, água morna e transparente e uma faixa de recifes de coral com cores preservadas. Snorkel e mergulho, em essência, dispensam escola: uma máscara simples basta para, a partir de uma canoa com estabilizador, flutuar sobre recifes cheios de cor.

Em alguns lugares, a água é tão límpida que peixes em tons neon podem ser vistos com facilidade até do casco do barco. Turismo de massa praticamente não existe; faltam centros de mergulho e bares de praia. Quem chega normalmente fica em hospedagens simples, muitas vezes com clima de casa de família e energia de gerador apenas à noite.

A pequena capital Buka, na ilha homónima ao norte da ilha principal, funciona como o núcleo mais movimentado. No mercado coberto, amontoam-se raízes de taro, chuchus e cocos; vendedoras passam nozes de bétele por cima das bancas e negociam preços em Tok Pisin, língua franca muito usada em Papua-Nova Guiné. Redes internacionais de hotéis não aparecem por ali - e é justamente isso que muitos moradores veem como oportunidade.

Um paraíso para quem observa aves

Ornitólogos também não começaram ontem a olhar para Bougainville. Levantamentos atuais apontam 98 espécies de aves terrestres nas ilhas, e doze existem apenas ali. A estrela mais chamativa é o martim-pescador “barbudo”, reconhecível por uma faixa azul-violeta larga que vai do bico e atravessa toda a nuca. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza, restam apenas algumas centenas de indivíduos.

Além dele, várias espécies endémicas dividem as copas: um nectarívoro, um tipo particular de corvo e um pássaro canoro característico com uma “touca” escura na cabeça. Ao entardecer, grandes morcegos-voadores - animais silvestres importantes para a vida local - cruzam em bandos as plantações de coqueiros em busca de alimento.

Para um país independente, essa riqueza natural pode pesar a favor. Ecoturismo de baixo impacto, projetos de pesquisa e áreas protegidas podem gerar renda sem transformar tudo em betão. Ao mesmo tempo, se o crescimento for rápido, aumentam os riscos de desmatamento e caça ilegal - um equilíbrio delicado com o qual Estados jovens muitas vezes se confrontam.

Viajar para o que parece ser o fim do mundo

Quem sai da Europa precisa de tempo e paciência. O primeiro passo é chegar a Port Moresby, a capital de Papua-Nova Guiné. De lá, partem voos domésticos para Buka, vista como a porta de entrada de Bougainville. Há rotas alternativas via Austrália ou Ilhas Salomão, mais trabalhosas, mas tentadoras para aventureiros.

No destino, a deslocação costuma ser feita em micro-ônibus, picapes e barcos. O estreito braço de mar entre Buka e a ilha principal, conhecido como Buka Passage, é atravessado em pequenas lanchas - no uso local, “banana boat”. O pagamento é em kina, a moeda de Papua-Nova Guiné; como isso vai funcionar no futuro, com uma possível moeda própria, ainda depende das decisões políticas.

As acomodações, em sua maioria, são lodges e casas de hóspedes simples. Ventilador em vez de ar-condicionado, mosquiteiro no lugar de piscina infinita. Em troca, há o pôr do sol sobre uma lagoa onde os corais ainda nunca viram uma action cam. À noite, hóspedes frequentemente sentam com os anfitriões para conversar sobre família, política e, claro, o futuro como país independente.

O que a independência pode mudar para a população e para quem visita

A soberania traz oportunidades e também incertezas. Bougainville tem recursos minerais, solos férteis e bons estoques de peixe. Isso pode ajudar a sustentar as contas públicas - desde que a receita seja distribuída de forma justa. Ao mesmo tempo, muitos moradores alertam contra a retomada de mineração em larga escala sem regras rígidas que protejam o meio ambiente e as estruturas sociais.

Para viajantes, o novo estatuto pode significar novidades: regras próprias de visto, uma companhia aérea nacional, talvez novas ligações de balsa e parques nacionais com regulamentação clara. O governo regional já debate como gerir o número de visitantes para não sobrecarregar natureza e cultura. O turismo de massa, no modelo de algumas ilhas do Pacífico, é frequentemente citado como exemplo a evitar.

Entre o dia a dia do coco e a fundação de um Estado em Bougainville

Na rotina, os grandes planos aparecem mais pelas bordas. Agricultores levam a colheita de taro ao mercado; jovens passam o dedo por feeds de redes sociais no celular; crianças ensaiam danças e cantos tradicionais dos seus clãs. Em festas maiores, homens e mulheres usam adornos de cabeça trançados com grande cuidado - cada pena e cada desenho contam histórias de linhagens ancestrais e alianças.

Enquanto isso, a preparação para a criação do país avança dentro de edifícios administrativos: juristas ajustam leis, servidores testam sistemas eleitorais, diplomatas abrem contactos. A tensão é perceptível - discreta, mas constante. Muitos esperam que um Estado próprio represente não apenas uma nova bandeira, mas escolas melhores, postos de saúde e vias de transporte mais seguras.

Quem visitar Bougainville nos próximos anos vai encontrar uma ilha que ainda passa a sensação de “fim do mundo” e, ao mesmo tempo, vive um recomeço político. Entre vulcões fumegantes, praias silenciosas e mercados cheios de vida, um país vai tomando forma pouco a pouco - e dificilmente continuará a ser ignorado nos mapas do futuro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário