No norte da Espanha, um parque nacional conquistou um prêmio com que outros destinos dos sonhos só podem sonhar: uma revista conceituada de lazer e viagens o colocou no topo de uma lista com os 51 lugares mais impressionantes do planeta. Muita gente na Alemanha mal conhece essa região - e, no entanto, ali existem enormes montanhas de calcário, florestas antiquíssimas e vales onde ainda circulam ursos-pardos.
Qual lugar foi eleito o número 1 do mundo?
Em março, a revista Time Out divulgou uma lista com os lugares mais espetaculares do nosso planeta. O primeiro colocado não foi uma praia do Pacífico Sul, nem uma grande metrópole, tampouco uma floresta tropical - e sim um maciço montanhoso no norte da Espanha: o Parque Nacional Picos de Europa, muitas vezes descrito em português como o “parque nacional dos picos da Europa”.
O reconhecimento chama atenção porque, nas posições seguintes, aparecem nomes de peso como o Parque Nacional de Komodo, na Indonésia, ou a famosa Morgan Library & Museum, em Nova York. Ainda assim, o parque espanhol superou todos eles - e, com isso, entrou de vez na lista de desejos de muitos apaixonados por natureza.
"Um parque montanhoso relativamente pouco conhecido supera destinos mundialmente famosos e é declarado pela Time Out como o lugar mais impressionante do planeta."
Para viajantes saindo da Alemanha, a área premiada fica a uma distância conveniente: bastam algumas horas de voo e um trecho de carro para sair da Europa Central e chegar a uma paisagem frequentemente comparada às Dolomitas - só que com um clima bem mais tranquilo e rústico.
Onde exatamente fica o Parque Nacional Picos de Europa?
O parque se estende por três comunidades autônomas no norte da Espanha: Astúrias, Cantábria e Castela e Leão. Juntas, elas formam um mosaico de paredões rochosos ásperos, pastos de montanha verdejantes e vales profundamente talhados. Com cerca de 65.000 hectares, a área está entre os espaços de proteção mais importantes da Península Ibérica.
O ponto mais alto, o Torre de Cerredo, chega a 2.648 metros. A partir do maciço, paredes íngremes despencam em gargantas que geleiras e cursos d’água esculpiram no calcário ao longo de milênios. Quem sobe de carro pelas estradas sinuosas rumo às alturas percebe rapidamente: aqui não é a Espanha das praias - é montanha de verdade.
Proteção da UNESCO e fauna rara nos Picos de Europa
A Espanha transformou a área em parque nacional em 1995; em 2003, veio o selo de Reserva da Biosfera da UNESCO. Não se trata apenas de prestígio: esse status protege habitats concretos. Nas florestas e nos ambientes rochosos vivem espécies que, em outras partes da Europa, quase desapareceram.
- Camurça cantábrica: uma subespécie de camurça adaptada a terrenos muito íngremes, capaz de se arriscar por bordas de rocha.
- Galo-lira: ave florestal arisca, dependente de coníferas e matas mistas antigas, pouco perturbadas.
- Urso-pardo: na Cordilheira Cantábrica existe uma das últimas populações estáveis de ursos do oeste europeu.
Além disso, há águia-real, abutres, cervos, raposas e inúmeras espécies de insetos e plantas que se beneficiam do regime de proteção. Para um turismo de natureza que respeite o ambiente, essa diversidade é um grande atrativo.
Quais atrações esperam no coração dos Picos de Europa?
O parque nacional é formado por três setores montanhosos, cada um com personalidade própria. Em conjunto, eles criam um cenário que prende a atenção de muitos visitantes logo de cara.
Lagos glaciais Enol e Ercina
Os dois lagos de montanha Enol e Ercina são as estrelas mais conhecidas. Eles ficam acima do santuário de peregrinação de Covadonga, em uma paisagem marcada por campos verdes e vacas. Em dias de céu limpo, os picos se refletem na água, formando uma cena quase “bonita demais para ser verdade”.
Dá para chegar pela estrada de montanha e, na alta temporada, o trânsito é controlado por um sistema de transporte tipo shuttle. As caminhadas em volta dos lagos são adequadas também para quem tem menos experiência, inclusive famílias.
Naranjo de Bulnes: um mito para escaladores
Outro símbolo do parque é a agulha rochosa Naranjo de Bulnes. A sua parede oeste, íngreme e quase vertical, é considerada uma das rotas de escalada mais lendárias da Península Ibérica. Mesmo quem não escala sente a atmosfera especial ao redor: pequenos vilarejos de pedra, hospedagens simples, vacas pastando diante de paredões cinzentos.
Ruta del Cares: trilha espetacular esculpida na rocha
Muitos vão ao parque por causa de uma trilha específica: a Ruta del Cares. O caminho estreito foi aberto na rocha para permitir, no passado, trabalhos de manutenção em um canal de água. Hoje, o percurso de cerca de 12 km é visto como uma das caminhadas mais impressionantes da Espanha.
Em boa parte do trajeto, a trilha segue no alto de um desfiladeiro profundo. De um lado, a parede vertical; do outro, o vazio. Entre os dois, uma passagem que, em alguns trechos, mal comporta duas pessoas lado a lado. Não é um lugar para quem tem medo de altura - em compensação, o visual entrega panoramas dramáticos.
"Na Ruta del Cares, caminhantes avançam como se estivessem em uma varanda por dentro de uma gargantua rochosa gigantesca - trilha segura, impacto enorme."
Subindo sem esforço: teleférico de Fuente Dé
Quem quer ver as áreas mais altas sem encarar uma subida puxada pode usar o teleférico em Fuente Dé. Em poucos minutos, a cabine vence quase 800 metros de desnível. No topo, a aproximadamente 1.823 metros, abre-se uma vista de platôs rochosos e vales que lembra os panoramas clássicos dos Alpes - só que com um toque bem cantábrico.
Da estação superior partem trilhas fáceis até mirantes; já os montanhistas mais experientes usam o ponto como início de roteiros mais longos.
O que torna o Parque Nacional Picos de Europa tão especial para viajantes?
Em comparação com muitas regiões alpinas famosas, os Picos de Europa costumam ser menos lotados. É verdade que os pontos mais conhecidos ficam movimentados na alta temporada, mas basta sair poucos quilômetros do circuito principal para o silêncio voltar. O cenário é definido por vilas de montanha com casas de pedra, gado pastando e pequenas queijarias artesanais.
| Aspecto | Picos de Europa |
|---|---|
| Paisagem | Montanhas íngremes de calcário, desfiladeiros profundos, vales verdes |
| Pico mais alto | Torre de Cerredo, 2.648 metros |
| Destaques | Lagos glaciais Enol e Ercina, Ruta del Cares, Naranjo de Bulnes, teleférico de Fuente Dé |
| Status de proteção | Parque nacional desde 1995, Reserva da Biosfera da UNESCO desde 2003 |
Para quem busca férias ativas, as opções são muitas: de passeios tranquilos a travessias de vários dias, além de escalada e aventuras de canyoning. Somam-se a isso rotas de ciclismo, trilhas de mountain bike e expedições a cavernas no terreno cárstico.
Dicas para uma viagem aos Picos de Europa
Quem quiser conhecer de perto o recém-coroado primeiro lugar do ranking deve considerar alguns pontos. O clima na Cordilheira Cantábrica muda rapidamente: sol, neblina, vento e chuva podem se alternar com poucas horas de diferença.
- Leve botas de trilha com sola aderente e capa de chuva.
- Na alta temporada, reserve hospedagem nas vilas com antecedência.
- Em roteiros de maior altitude, acompanhe a previsão do tempo atualizada.
- Escolha trilhas compatíveis com o seu nível de condicionamento físico.
- Respeite as regras do parque nacional, como uso de guia/coleira para cães e permanência nas trilhas autorizadas.
A chegada costuma ser feita pelas cidades de Oviedo, Santander ou León. A partir delas, estradas levam aos vales ao redor de Cangas de Onís, Potes ou Arenas de Cabrales. Muitos visitantes juntam alguns dias nas montanhas com uma passagem pela próxima costa atlântica, onde falésias e praias também atraem.
Mais do que paisagem: cultura, gastronomia e riscos
O parque nacional não é apenas um espaço natural: é também território de vida para as comunidades locais. A paisagem é moldada por práticas tradicionais, como a criação de gado e ovelhas em regime semi-extensivo. Um símbolo dessa cultura é o queijo azul Cabrales, maturado em cavernas - e com sabor intenso, resultado das condições específicas das montanhas.
Quem percorre a região percebe rapidamente como cultura e natureza estão entrelaçadas: capelas antigas, pequenos cemitérios nas encostas, estalagens rústicas onde chegam à mesa ensopados e pratos de carne bem substanciosos. Muitos negócios vêm se adaptando a um turismo mais sustentável, oferecendo caminhadas guiadas e produtos locais.
Visitar alta montanha nunca é totalmente livre de riscos. Queda de pedras, trilhas escorregadias após a chuva e neblina repentina exigem respeito. Algumas regras básicas ajudam: não começar tarde demais, carregar água e comida suficientes, permanecer em caminhos sinalizados e, se necessário, abortar a rota quando as condições piorarem.
Justamente por ainda estar relativamente fora do turismo de massa, o comportamento responsável faz diferença. Quem recolhe o próprio lixo, evita barulho e mantém distância dos animais silvestres ajuda a garantir que o novo líder do ranking mundial preserve sua autenticidade - e continue merecendo, nos próximos anos, o título de “lugar mais bonito”.
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