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“Elas inventam de tudo: por que há cada vez mais fake news sobre benefícios sociais?”

Mulher preocupada olhando celular com contas e calculadora sobre mesa na cozinha.

As mentiras sobre auxílios sociais acharam um filão lucrativo: “o RSA é só para quem está sem emprego”, “a Seguridade Social reembolsa a galette des rois”, “nova ajuda caiu do céu”… Enquanto isso, os órgãos responsáveis tentam reagir - mas ainda sem conseguir frear o ritmo.

Basta uma busca rápida: palavras-chave bem escolhidas, títulos chamativos e vídeos curtos pensados para TikTok, YouTube e Facebook. Resultado: as fake news sobre auxílios sociais se espalham em grande escala - e com alcance gigantesco.

Segundo Damien Ranger-Martinez, diretor de comunicação da Caisse nationale d’allocations familiales (Cnaf), o volume de desinformação vem crescendo de forma constante há cerca de dois anos, com aceleração desde a primavera do ano passado.

O mesmo diagnóstico aparece no Agir-Arens (regime de previdência complementar dos empregados do setor privado) e na Cnav. Sandrine Toscanelli, diretora de informação e da marca na CNAV, relata que houve uma explosão de conteúdos falsos em abril de 2025. A lógica, diz ela, é simples: publicar qualquer coisa para gerar cliques e vender espaço publicitário.

Um modelo de negócios bem azeitado

Em muitos casos, o objetivo de quem cria “conteúdos falsos” é puramente comercial. São pessoas e grupos que compram domínios, montam páginas e exploram técnicas de tráfego com palavras-chave para atrair audiência. Quanto mais você clica para ver um vídeo ou abrir uma matéria, mais eles ganham.

E o “insumo” é fácil. Frequentemente, a mentira funciona porque parte de um elemento real - como uma reforma em discussão ou a atualização de um benefício - e distorce o contexto para prender a atenção. No TikTok, onde o consumo é rápido e a checagem é rara, essa mistura de verdade com exagero tende a parecer plausível.

O caso da “galette des rois”: o boato engole a correção

Um exemplo recente ganhou força no início do ano, quando Laurent Wauquiez, líder dos deputados do partido Les Républicains (LR), protestou publicamente contra o suposto reembolso, pela Seguridade Social, de uma galette des rois sem glúten.

Na realidade, a regra citada é bem mais restrita: apenas pessoas com doença celíaca podem solicitar a cobertura de alguns produtos sem glúten, com teto de 45 euros por mês. Mesmo assim, os vídeos virais deslocaram toda a conversa para o “bolo” - e o buzz acabou abafando, de longe, o esclarecimento.

Quando as fake news sobre auxílios sociais viram combustível social

Os efeitos podem ser pesados. A Cnaf alerta que esse tipo de desinformação alimenta tensões, contribui para estigmatizar determinados grupos e pode transformar, em poucos compartilhamentos, um procedimento administrativo que existe há anos em um suposto “escândalo fiscal”.

O impacto também é prático: cresce a desconfiança no sistema de redistribuição e aumenta a sensação de que existe “algo escondido” sobre direitos e regras - mesmo quando a informação correta está disponível.

Uma consequência indireta, mas recorrente, é o desgaste do atendimento ao público. Quando boatos chegam com a força de “verdade pronta”, o tempo de triagem aumenta, as filas se alongam e parte do esforço das equipes passa a ser dedicado a desfazer rumores, e não a orientar sobre os caminhos oficiais para solicitar benefícios.

IA: acelerador do caos na desinformação

O fenômeno não é novo, mas mudou de patamar. Produzir uma peça convincente - inclusive em vídeo - ficou muito mais rápido. Para o Agir-Arens, a inteligência artificial coloca um efeito multiplicador nessa engrenagem.

Além disso, há o papel da distribuição: mecanismos de busca podem ranquear bem páginas que repetem informações sem verificar, levando ao topo resultados que parecem “notícia”, mas são apenas cópias e iscas de clique.

A hipótese de ingerência estrangeira

Há ainda uma camada mais sensível: a possibilidade de interferência externa. Na Cnaf, relatos internos mencionam cliques em vídeos virais que terminavam em fóruns conspiratórios e até em páginas ligadas a ecossistemas de desinformação russos. É difícil comprovar, mas também difícil ignorar.

Na avaliação de uma fonte ouvida pelo jornal Le Parisien, o ponto “certo” é que a Rússia é muito eficiente em disseminar desinformação para dividir, mesmo quando não é a origem do conteúdo.

O governo, segundo a reportagem, teria previsto um orçamento de 1 bilhão de dólares para enfrentar essa guerra informacional, com apoio de empresas especializadas capazes de criar avatares críveis, infiltrar discussões e montar sites.

Resposta dos órgãos: denúncias, remoções e alertas - com alcance limitado

No dia a dia, os danos já são bem visíveis. As fake news sobre auxílios sociais lotam centrais de atendimento e agências. No Agir-Arens, há queixa de queda de confiança nos atores públicos: beneficiários chegam convencidos de que não estão sendo informados integralmente sobre seus direitos.

Para reagir, os órgãos têm intensificado ações como: - comunicações formais ao Ministério Público; - queixas por uso indevido de marca e identidade institucional; - pedidos de remoção a plataformas como Facebook e YouTube; - criação de páginas específicas para alertar sobre as fake news mais recentes.

Ainda assim, os recursos são finitos - e a velocidade de produção e replicação dos boatos continua maior do que a capacidade de contenção.

Como reduzir o efeito das mentiras (e proteger quem precisa dos auxílios sociais)

Uma frente complementar é fortalecer a verificação antes do compartilhamento. Em termos práticos, isso significa buscar sempre a origem da informação (órgão público, página institucional, canal verificado) e desconfiar de chamadas com promessa de “novo benefício”, “pagamento escondido” ou “direito secreto”.

Também ajuda observar sinais comuns de isca de clique: ausência de data, falta de documento oficial, textos vagos que não indicam regra, público-alvo e fonte, além de páginas que imitam nome e identidade visual de instituições. Quanto menos essas peças circularem, menor o incentivo econômico para manter o “negócio” funcionando.

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