Pular para o conteúdo

Chatbots de IA como “muleta cognitiva”: estudo aponta queda na retenção de informações com o uso do ChatGPT

Pessoa estudando com livro e computador aberto em mesa, com modelo de cérebro ao fundo.

Ferramentas de conversa baseadas em chatbots de IA podem funcionar como uma espécie de “muleta cognitiva” e, com isso, diminuir a nossa capacidade de reter informação ao longo do tempo, segundo um estudo recente.

O experimento com estudantes da UFRJ

A pesquisa foi conduzida pelo especialista em IA André Barcaui, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio de um experimento com 120 estudantes universitários. Todos receberam uma tarefa sobre inteligência artificial (IA), mas com uma diferença importante:

  • Metade pôde usar o ChatGPT para ajudar a elaborar a atividade.
  • A outra metade precisou seguir métodos tradicionais de estudo, sem recorrer a ferramentas de IA.

Os participantes tiveram cerca de duas semanas para aprender sobre o tema e, ao final, precisaram apresentar uma exposição oral de 10 minutos. No grupo com IA, o ChatGPT podia ser usado para buscar informação na internet e também para sintetizar, explicar e organizar conteúdo, além de sugerir exemplos. Já o grupo sem IA ficou limitado a formas convencionais de pesquisa.

Para reduzir vieses, os dois grupos também foram divididos de maneira equilibrada conforme o nível de experiência prévia com chatbots de IA como o ChatGPT. Não havia iniciantes absolutos nem especialistas, e mais da metade se descreveu como usuária frequente de IA.

O teste surpresa após 45 dias e a diferença nas notas

O ponto central do estudo veio depois: 45 dias após a entrega da atividade, os estudantes foram submetidos a um teste surpresa.

  • Quem usou o ChatGPT obteve, em média, 5,75 de 10.
  • Quem estudou pelo caminho tradicional alcançou, em média, 6,85 de 10.

A diferença é relevante. Embora seja um estudo com amostra e período relativamente limitados, ele se alinha a outros trabalhos que indicam que, quando usamos IA para obter informações, tendemos a absorver menos o conteúdo.

No artigo publicado, Barcaui afirma que isso sugere que o uso irrestrito do ChatGPT pode ter prejudicado a retenção de longo prazo, provavelmente por reduzir o esforço mental que sustenta uma memória mais duradoura.

Desempenho mais consistente sem IA - e mais rápido com IA

Além de alcançar uma pontuação 11% maior (uma diferença que pode equivaler a um nível inteiro de nota em avaliações padronizadas), o grupo que usou métodos tradicionais apresentou notas mais concentradas no topo. Já entre os estudantes que utilizaram o ChatGPT, os resultados ficaram mais dispersos, indicando maior variabilidade no aprendizado.

Por outro lado, aprender com IA foi claramente mais rápido:

  • Grupo com ChatGPT: 3,2 horas, em média, para concluir a tarefa.
  • Grupo sem IA: 5,8 horas, em média.

Em outras palavras, a assistência da IA pode reduzir tempo e atrito no curto prazo, mas o estudo sugere um custo potencial na consolidação do conteúdo.

Descarregamento cognitivo, “amnésia digital” e as “dificuldades desejáveis”

A ideia de descarregamento cognitivo (ou “transferir” parte do trabalho mental para ferramentas externas) não é nova. Antes, isso podia envolver calculadoras, livros e outras ajudas. O que muda agora é a abrangência: assistentes de IA conseguem assumir uma parcela muito maior do processamento que antes era feito pela pessoa.

Em 2011, uma equipe liderada pela psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade Columbia, descreveu um fenômeno que mais tarde seria chamado de “amnésia digital”: o impacto de mecanismos de busca (como o Google) sobre a capacidade de lembrar informações.

Com assistentes de IA assumindo grande parte da carga mental, estudos sugerem que eles podem estar alterando a maneira como pensamos, percebemos, focamos e lembramos - e isso nem sempre seria positivo. Barcaui relaciona os resultados tanto à teoria do descarregamento cognitivo quanto ao princípio das “dificuldades desejáveis”: embora a ajuda da IA facilite o aprendizado inicial, ela pode enfraquecer processos esforçados que são essenciais para um aprendizado sólido e durável.

O alcance do ChatGPT e os riscos de informação imprecisa

Basta abrir o ChatGPT (ou ferramenta semelhante) para obter um resumo sobre praticamente qualquer assunto - de DNA a filmes da década de 1950, história romana ou rotinas de treino para pessoas com mais de 50 anos. O conteúdo gerado se apoia em uma grande quantidade de dados de treinamento coletados da web aberta e de outras fontes - e, com frequência, pode trazer erros.

Esse ponto é crucial no contexto educacional: quando a ferramenta entrega respostas prontas (mesmo que bem escritas), o usuário pode aceitar explicações sem verificação e sem construir o entendimento passo a passo, o que tende a reduzir o esforço cognitivo associado à aprendizagem profunda.

Consequências além da sala de aula

Vários estudos vêm sugerindo que o uso de aplicativos como o ChatGPT pode estar tirando do cérebro um tipo de “exercício” importante - e isso tem efeitos. E isso sem contar duas questões adicionais:

  • as exigências de recursos naturais associadas ao funcionamento de sistemas de IA;
  • os equívocos que essas ferramentas frequentemente cometem.

Ainda assim, Barcaui adota uma visão construtiva: ele vê a IA como uma ferramenta promissora para pesquisa e educação, desde que seja usada com cuidado. No experimento com estudantes, o ChatGPT acabou associado a prejuízos tanto na capacidade de absorver adequadamente as informações quanto na habilidade de recordá-las depois.

Como aproveitar a IA sem perder engajamento cognitivo (propostas práticas)

Uma estratégia pedagógica possível é transformar o ChatGPT em um apoio que provoca o estudante, em vez de substituir o estudo. Por exemplo, em vez de pedir um resumo final, pode-se solicitar que a ferramenta gere perguntas, testes curtos, lacunas para completar e roteiros de explicação que obriguem o aluno a praticar recordação ativa.

Outra medida importante é orientar o uso com regras de verificação: exigir referências, comparar respostas com materiais confiáveis e pedir que o estudante explique, com suas próprias palavras, por que aquela resposta faz sentido. Esse tipo de “atrito produtivo” preserva o esforço que sustenta a memória, mantendo as dificuldades desejáveis dentro do processo.

O que o estudo recomenda para o futuro do ensino

Para Barcaui, as estratégias de ensino deveriam buscar um equilíbrio: aproveitar benefícios da IA (agilidade, organização, exemplos e estrutura) sem abrir mão do engajamento mental e da “luta produtiva” necessários para um aprendizado durável. Em síntese, na era da IA, princípios fundamentais da aprendizagem humana não ficaram ultrapassados - eles se tornam ainda mais importantes de preservar.

A pesquisa foi publicada na revista Ciências Sociais e Humanidades - Acesso Aberto.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário