A Terra já vai ficando para trás para a tripulação da Artemis 2: fazia 53 anos que aguardávamos este momento. A viagem de ida e volta num grande sobrevoo da Lua terá 10 dias.
Na quarta-feira, 1º de abril, enquanto o sol se punha na Flórida (00h35 na França; 19h35 em Brasília), o Space Launch System (SLS) rasgou o céu e colocou a Artemis 2 a caminho da Lua. A plataforma 39B do Centro Espacial Kennedy tremeu com cerca de 3.900 toneladas de empuxo quando o público acompanhou o lançamento ao vivo. Para a NASA, foi também um alívio: os contratempos técnicos durante os ensaios gerais (o Wet Dress Rehearsal) haviam empurrado a decolagem por semanas.
Mais de meio século após o encerramento do programa Apollo, a narrativa lunar ganha um novo capítulo. Dentro da cápsula Orion, três norte-americanos e um canadense simbolizam esta retomada: o comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas de missão Christina Koch e Jeremy Hansen. Aperte o cinto e relembre o desfecho da contagem regressiva - o instante em que os quatro motores RS-25 ganharam vida e arrancaram o SLS da gravidade do nosso planeta.
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Artemis 2: o despertar do gigante americano
O SLS é um gigante de metal, com altura equivalente a um prédio de 32 andares. Quando deixou o “berço” de concreto, levantou um dilúvio de poeira, fragmentos do revestimento ablativo e fumaça carregada de compostos clorados vinda dos boosters de combustível sólido - um rastro acinzentado e denso que varreu a área da plataforma.
Planejada para durar cerca de dez dias, a missão funciona como um teste de resistência extremo para todo o hardware da Lockheed Martin e da Boeing. Além de verificar a robustez dos sistemas, a tripulação precisa comprovar, na prática, a manobrabilidade da Orion e a precisão dos seus recursos de navegação óptica.
Artemis 2 e a cápsula Orion: manobras, navegação e controle manual
Uma etapa central do voo envolve manobras de proximidade com o estágio superior do SLS, o ICPS, para avaliar o pilotagem manual e a resposta dos propulsores de controle de atitude. O objetivo é direto: garantir que, se necessário, os astronautas consigam assumir o comando no lugar do computador de bordo - seja para uma correção urgente de trajetória, seja para uma operação crítica de acoplamento no futuro.
Também é nessa janela que a missão coloca em evidência algo que o público raramente vê: a rotina de validação de sistemas em tempo real. Checklists, telemetria, testes de redundância e tomada de decisão sob pressão fazem parte do “trabalho invisível” que define se a arquitetura do programa Artemis está pronta para dar passos maiores.
Passagem pela Lua e retorno “na fronda” gravitacional
No dia 6 de abril, após passar próximo da face oculta da Lua a uma distância entre 6.400 km e 9.700 km (dependendo do perfil de trajetória definido pela NASA), a Orion apontará de volta para a Terra usando a gravidade lunar como uma fronda. Essa técnica aumenta a segurança: mesmo que o motor da cápsula apresente falha mecânica, ela ainda consegue entrar numa trajetória que favorece o retorno da tripulação ao nosso planeta.
Reentrada em alta velocidade e amerissagem no Pacífico
Se o plano de voo correr sem imprevistos, a tripulação iniciará a reentrada atmosférica em 11 de abril de 2026. A Orion deve amerissar no Oceano Pacífico, ao largo da costa da Califórnia, depois de atravessar as camadas mais densas do ar a aproximadamente 40.000 km/h. O escudo térmico será levado ao limite, suportando temperaturas próximas de 2.800 °C - algo como metade da temperatura da superfície do Sol.
Além do calor, a reentrada é um teste de engenharia e de fisiologia: desaceleração intensa, aquecimento assimétrico e a necessidade de manter comunicações e controle até os momentos finais. Para missões futuras mais longas, esses dados ajudam a calibrar margens de segurança e procedimentos de contingência.
Declarações da NASA e acompanhamento em tempo real
De acordo com a Reuters, Jared Isaacman, administrador da NASA, afirmou que “este lançamento constitui a primeira fase das missões futuras, com o objetivo de criar uma base lunar destinada a tornar permanente a nossa presença por lá”.
A diretora de voo, Charlie Blackwell-Thompson, falou com a tripulação antes de eles deixarem a atmosfera: “Reid, Victor, Christina e Jeremy, vocês levam nesta missão histórica o coração de toda a equipe Artemis, a ousadia do povo norte-americano e de nossos parceiros globais, além das esperanças e sonhos de uma nova geração. Boa sorte e bons ventos, Artemis II. Vamos nessa.”
Pouco antes da ignição, o canadense Jeremy Hansen também se comunicou com o centro de controle em Houston: “Aqui é o Jeremy, estamos indo por toda a humanidade”.
Quem quiser acompanhar a cápsula Orion ao vivo e ver sua posição pode acessar o site da NASA, que reúne tudo em um só lugar: visualização em 3D da cápsula, posição relativa à Terra, telemetria, trajetória do voo e outros dados. No momento em que este texto foi escrito, ela já estava a mais de 60.000 km de distância do chão firme e seguindo a mais de 5.400 km/h. Que a Orion atravesse a escuridão do espaço com a mesma confiança que marcou seus ancestrais do Apollo.
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