No fim dos anos 1980, em pleno auge da Guerra Fria, um submarino soviético afunda em grande profundidade, longe de qualquer costa. Décadas depois, fica claro que o reator a bordo nunca “adormeceu” por completo. Pesquisadores noruegueses agora descrevem liberações radioativas recorrentes - e alertam que, com o passar do tempo, o risco pode aumentar, mesmo que hoje a situação pareça administrável.
Um drama submarino de 1989 que ainda ecoa
Em abril de 1989, um incêndio se inicia no submarino soviético K-278 “Komsomolez”. O protótipo de submarino nuclear, avançado para a época e oficialmente projetado para operar em grandes profundidades, sai do controle. A tripulação enfrenta fumaça, chamas e a entrada de água no casco. Ao final, a embarcação afunda na casa de 1.680 metros de profundidade, no Mar da Noruega.
A explicação oficial para o acidente aponta um fogo na área de máquinas que se espalhou, derrubou sistemas vitais e deixou o submarino sem capacidade de manobra. No interior havia um reator nuclear que fornecia propulsão - e também torpedos. Alguns deles, ao que se suspeita, poderiam estar equipados com ogivas nucleares, ampliando o potencial de perigo.
Logo após o desastre, países ocidentais passaram a levantar dúvidas incômodas: e se o reator falhar, se o vaso de pressão corroer ou se ogivas forem danificadas? À época, especialistas buscavam tranquilizar: os mares do norte são vastos, e correntes fortes tenderiam a diluir rapidamente eventuais vazamentos.
Estudo novo indica: o reator não está vedado
Uma pesquisa norueguesa publicada em março de 2026, em uma revista científica de prestígio, reacende essas preocupações. Os autores analisam amostras coletadas no entorno do naufrágio e revisitam medições registradas desde a década de 1990. O retrato que emerge é mais inquietante do que simples - e cheio de nuances.
"O reator do K-278 se degrada lentamente e, em intervalos, libera substâncias radioativas no Mar da Noruega - há mais de 30 anos."
De acordo com o estudo, a radioatividade tem origem em pontos específicos de fragilidade do casco: principalmente uma linha de ventilação e a zona ao redor do compartimento do reator. Nessas áreas, a água do mar consegue penetrar, interage com materiais internos e acaba carregando radionuclídeos para fora.
Não é um vazamento constante, e sim liberações em pulsos
A liberação não segue um ritmo uniforme. As medições indicam períodos com valores muito elevados, intercalados com fases mais calmas. Os cientistas descrevem o padrão como “liberações esporádicas”. Entre as possíveis causas estão fraturas de material, desprendimento de depósitos acumulados ou pequenas mudanças na posição do naufrágio - provocadas, por exemplo, por correntes marítimas ou microdeslizamentos no fundo do mar.
Em amostras de água coletadas perto do casco, as equipes detectaram concentrações acima do normal de diferentes substâncias radioativas:
- Isótopos de estrôncio
- Isótopos de césio
- Urânio
- Plutônio
O dado que mais chama atenção: nas proximidades imediatas do naufrágio, as concentrações de estrôncio e césio chegam a ficar até 400.000 e 800.000 vezes acima, respectivamente, dos valores típicos de fundo do Mar da Noruega. O número parece catastrófico à primeira vista - mas perde parte do impacto quando se considera a escala espacial do fenômeno.
Por que, ainda assim, os pesquisadores pedem cautela
Na área bem próxima ao submarino, os níveis realmente sobem de forma clara. Porém, ao se afastar desse núcleo, as concentrações caem rapidamente. Por isso, o estudo norueguês avalia que, no momento, o vazamento não configura um desastre imediato para todo o ecossistema do Mar da Noruega.
As correntes marítimas espalham os radionuclídeos liberados por uma área ampla. Com a diluição, a concentração diminui a ponto de, a distâncias maiores, ser difícil distinguir o que vem do naufrágio da radioatividade de fundo natural - e daquela já existente por conta de testes nucleares históricos.
"A radiação elevada permanece, até agora, concentrada no entorno imediato do naufrágio e é fortemente diluída no mar aberto."
A equipe também analisou esponjas, corais e anêmonas-do-mar diretamente sobre o naufrágio: nesses organismos, há césio radioativo mensuravelmente mais alto do que em espécies comparáveis da região. Ainda assim, os pesquisadores não observaram até agora danos visíveis, malformações nem colapso de populações. Sedimentos ao redor do local exibem apenas contaminação levemente acima do normal.
“Ainda” não é um risco - e o grande ponto de interrogação
Os autores classificam o risco para a fauna marinha atual como baixo a muito baixo. O “ainda”, porém, fica subentendido de forma marcante. O motivo é simples: o naufrágio continua envelhecendo. O aço sofre corrosão, vedações se soltam e soldas perdem resistência. A cada década, cresce a chance de surgirem novos pontos de vazamento - ou de os existentes se ampliarem.
O núcleo do reator é visto como o principal foco potencial: se, em algum momento, ele ficar mais exposto, uma quantidade maior de radionuclídeos poderia ser liberada em pouco tempo. O impacto de um pulso desse tipo sobre cadeias alimentares, estoques de peixes e o balanço regional de radiação é difícil de projetar com precisão.
Como e por que o K-278 “Komsomolez” é monitorado de perto
Autoridades e instituições de pesquisa da Noruega acompanham o K-278 desde os anos 1990. Com frequência, enviam navios científicos à área, descem veículos subaquáticos operados remotamente, coletam amostras de água e de fundo e examinam organismos marinhos.
Em linhas gerais, esse trabalho busca três objetivos:
- Controle contínuo dos níveis de radiação nas imediações do submarino
- Detecção precoce de vazamentos súbitos ou mudanças relevantes
- Avaliação de possível acúmulo de substâncias radioativas na cadeia alimentar
Os dados são compartilhados com organismos internacionais voltados à segurança nuclear e à proteção do ambiente marinho. E não se trata de um tema restrito à Noruega: o Mar da Noruega se conecta, por sistemas de correntes, ao Atlântico Norte e ao Ártico. No longo prazo, traços podem ser transportados tanto para o oeste quanto para o norte.
Por que simplesmente resgatar o naufrágio não é uma solução fácil
À primeira vista, a ideia parece óbvia: içar o submarino, isolar o reator e encerrar o problema. Na prática, a equação é bem mais complicada. O K-278 está a quase 1.700 metros de profundidade. Qualquer operação de resgate seria tecnicamente complexa, arriscada e de custo astronômico.
Além disso, há incertezas importantes:
- O estado do casco é desconhecido - uma tentativa de içamento poderia romper a estrutura.
- Possíveis torpedos com ogivas nucleares poderiam ser danificados por manuseio inadequado.
- Existe o risco de que o levantamento libere, de forma repentina, muito mais radioatividade.
Por isso, muitos especialistas defendem a estratégia de manter o naufrágio onde está, sob vigilância permanente. Se o cenário se deteriorar de maneira significativa, será necessário reavaliar se algum tipo de contenção técnica ou proteção parcial é viável e responsável.
O que a radioatividade no mar causa - e o que ela não causa
Radionuclídeos no oceano costumam evocar imagens imediatas de peixes “contaminados” e áreas mortas. Só que, na maioria das vezes, o quadro real é mais intricado. O efeito depende fortemente do tipo e da quantidade de nuclídeos, de sua meia-vida e da forma química em que se encontram.
O césio, por exemplo, se dispersa relativamente bem na água e pode ser incorporado por organismos, mas também pode ser eliminado. O estrôncio tende a se comportar no organismo de modo semelhante ao cálcio e pode se depositar em ossos. Já urânio e plutônio apresentam maior tendência a se ligar a partículas de sedimento.
Os mares do norte já carregam uma carga de fundo decorrente de testes de armas nucleares e acidentes com reatores. O impacto do K-278, por ora, é sobretudo local. Com os dados atuais, não se identificam riscos adicionais mensuráveis para a pesca costeira, para consumidores de produtos de pescado ou para banhistas em praias norueguesas.
Herança da Guerra Fria: quantos naufrágios ainda estão por aí
O K-278 não é um caso isolado. Em diferentes regiões marítimas, existem submarinos afundados, partes de mísseis, cargas contendo resíduos nucleares ou munições das guerras mundiais. Em pontos do Mar Báltico e do Atlântico Norte, há verdadeiros “cemitérios” de armamentos antigos.
Para os países banhados por esses mares, a questão é decidir quais riscos são toleráveis e onde é necessário intervir. Qualquer resgate traz perigos próprios - mas deixar tudo como está também. Na Noruega, o K-278 acabou se tornando uma espécie de sistema de alerta: ele permite observar como envelhece um naufrágio com componente nuclear e como vazamentos podem se comportar ao longo de décadas.
Os resultados mais recentes, assim, indicam duas coisas ao mesmo tempo: a ameaça imediata segue limitada, mas a Guerra Fria, debaixo d’água, está longe de ter terminado. Para proteger os mares, é preciso conhecer esse legado, medi-lo e reavaliá-lo repetidamente.
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