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O “segredo” dos superidosos pode ser o crescimento de novos neurônios no cérebro.

Mulher idosa montando quebra-cabeça de peças marrons em mesa iluminada com plantas ao fundo.

Pesquisas recentes indicam que o cérebro humano não só parece continuar a gerar novos neurónios na vida adulta, como os superagers (pessoas que preservam uma memória excecional com o avanço da idade) apresentam muito mais células cerebrais em desenvolvimento do que outros idosos saudáveis.

Num estudo com 38 cérebros humanos adultos doados à ciência, os superagers mostraram aproximadamente o dobro de neurónios imaturos em comparação com pares que envelhecem de forma mais típica. Além disso, indivíduos com doença de Alzheimer exibiram uma diminuição evidente da neurogénese em relação a um padrão considerado normal.

"This is a big step forward in understanding how the human brain processes cognition, forms memories, and ages," says neuroscientist Orly Lazarov of the University of Illinois Chicago.

"Determining why some brains age more healthily than others can help researchers make therapeutics for healthy aging, cognitive resilience, and the prevention of Alzheimer's disease and related dementia."

A discussão sobre neurogénese no hipocampo ao longo da vida adulta

Há anos existe um debate contínuo sobre se adultos humanos continuam a produzir novos neurónios no hipocampo - o centro da memória no cérebro. Durante muito tempo, cientistas presumiram que o cérebro com que nascemos era, essencialmente, o mesmo que manteríamos por toda a vida.

Essa visão começou a ser questionada em 1998, quando um artigo marcante apresentou evidências de que adultos ainda poderiam produzir novos neurónios. Trabalhos publicados depois reforçaram essa possibilidade. No entanto, em 2018 surgiu outra afirmação de grande impacto: a neurogénese, segundo o neurocientista Shawn Sorrells e colegas, reduziria até praticamente parar durante a adolescência. Desde então, o tema permanece altamente controverso.

Apesar disso, outras investigações mais recentes têm apontado que a presença - ou a ausência - de neurogénese pode estar relacionada com a doença de Alzheimer.

Como o estudo comparou cérebros de superagers, idosos e pessoas com Alzheimer

Com liderança de investigadores da Universidade de Illinois em Chicago, a equipa decidiu avaliar diferentes amostras de tecido do hipocampo obtidas post-mortem. O objetivo era procurar marcadores de neurogénese e verificar se existiam diferenças relevantes entre grupos.

As amostras cerebrais vieram de cinco conjuntos de doadores:

  • Oito jovens adultos saudáveis, com idades entre 20 e 40 anos;
  • Oito idosos saudáveis, com idades entre 60 e 93 anos;
  • Seis superagers, com idades entre 86 e 100 anos;
  • Seis indivíduos com patologia pré-clínica de Alzheimer, com idades entre 80 e 94 anos;
  • 10 indivíduos com diagnóstico de Alzheimer, com idades entre 70 e 93 anos.

Primeiro, o tecido cerebral dos jovens adultos saudáveis foi examinado para mapear as vias de neurogénese no cérebro adulto. Em seguida, os investigadores analisaram 355,997 núcleos celulares individuais isolados do hipocampo, procurando sinais de três etapas distintas do desenvolvimento celular:

  • Células estaminais, capazes de se diferenciar em neurónios;
  • Neuroblastos, isto é, células estaminais já em processo de diferenciação;
  • Neurónios imaturos, quase funcionais.

Superagers e a neurogénese: o dobro de neurónios imaturos no hipocampo

Os resultados chamaram a atenção.

"Superagers had twice the neurogenesis of the other healthy older adults," Lazarov says. "Something in their brains enables them to maintain a superior memory. I believe hippocampal neurogenesis is the secret ingredient, and the data support that."

Por si só, a diferença observada entre superagers e outros idosos saudáveis já seria relevante. Ainda assim, os dados referentes aos participantes com patologia pré-clínica de Alzheimer e aos diagnosticados com Alzheimer são o ponto central do trabalho.

No grupo pré-clínico, alterações moleculares subtis sugeriram que o sistema que sustenta o crescimento de novos neurónios começava a perder eficiência. Já no grupo com Alzheimer, foi observada uma redução clara de neurónios imaturos.

Atividade genética, plasticidade e “resiliência” nas células neurais dos superagers

A equipa também realizou uma análise genética dos núcleos celulares. Esse exame indicou que as células neurais de superagers apresentam maior atividade de genes associados a:

  • ligações sinápticas mais fortes;
  • maior plasticidade;
  • fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína crucial para a sobrevivência, o crescimento e a manutenção de neurónios.

Em conjunto, esses três aspetos podem ser entendidos como um sinal de resiliência.

"We've always said that superagers show that the aging brain can be biologically active, adaptable, flexible, but we didn't know why," says neuropsychiatrist Tamar Gefen of Northwestern University in the US.

"This is biological proof that their brains are more plastic, and a real discovery that shows that neurogenesis of young neurons in the hippocampus may be a contributing factor."

O que os autores apontam como próximos passos

Segundo a equipa, estudos adicionais poderão ajudar a encontrar abordagens terapêuticas para aumentar a neurogénese e a resiliência, além de identificar fatores ambientais e de estilo de vida que possam influenciar o envelhecimento do cérebro.

"What's exciting for the public is that this study shows the aging brain is not fixed or doomed to decline," says cell biologist Ahmed Disouky of the University of Illinois Chicago, the first author of the study.

"Understanding how some people naturally maintain neurogenesis opens the door to strategies that could help more adults preserve memory and cognitive health as they age."

A pesquisa foi publicada na Nature.

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