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Aumentos nas pensões causam revolta, pois muitos aposentados não têm acesso à internet.

Homem idoso segurando folha com a palavra aumento em agência bancária, com pessoas usando celular ao redor.

Numa manhã de terça-feira com cheiro de café requentado e piso de linóleo, a fila na agência dos Correios do bairro ia até a porta. Casacos abotoados pela metade, bengalas encostadas em cadeiras de plástico, e um burburinho baixo de “Você ficou sabendo?” pairava por cima dos balcões. Entre o riscar das canetas no papel e o bip da máquina de senhas, a notícia foi passando de pessoa para pessoa: as aposentadorias iam aumentar. De novo. No papel, soava como vitória. Na prática, ninguém naquela fila sabia ao certo o que precisava fazer para, de fato, ver esse dinheiro cair.

Um senhor tirou do bolso uma carta dobrada, com as mãos tremendo de leve. “Dizem que eu tenho que ir no site”, resmungou, como se estivesse pronunciando uma palavra estrangeira. Vários rostos se viraram. Alguns assentiram, de boca fechada. O ambiente pareceu esfriar.

É difícil comemorar um aumento que você nem consegue acessar direito.

Quando o aumento da aposentadoria parece uma porta trancada

Para muita gente aposentada, o reajuste anunciado com entusiasmo soa menos como alívio e mais como um enigma. Sites do governo exibem percentuais, as redes sociais comemoram, e apresentadores falam em “revalorização histórica”. Só que, no dia a dia - em cozinhas e apartamentos pequenos - o cenário é outro. Há quem fique diante de uma TV antiga, apertando os olhos para ler uma faixa que manda “entrar na sua conta pessoal”, como se isso fosse tão simples quanto preparar um chá.

Por trás dos comunicados oficiais, a realidade é direta: um número enorme de idosos não tem internet, não tem smartphone ou não faz ideia por onde começar. O aumento existe, sim. Só que fica logo ali, um pouco fora do alcance.

Veja o caso de Maria, 78, que mora sozinha num apartamento no quarto andar, sem elevador. O único telefone dela é um fixo com teclas grandes; a TV é do começo dos anos 2000. Quando chegou a carta sobre seus “direitos de aposentadoria atualizados”, o texto vinha cheio de fórmulas tranquilizadoras - e uma expressão única, assustadora: “consulte sua conta on-line”. Ela colocou a carta na mesa e ficou encarando o papel a tarde inteira, como se pudesse explodir.

No dia seguinte, pegou o ônibus até o posto da previdência, mas deu de cara com um aviso: “Para atendimento mais rápido, acesse on-line”. Lá dentro, um atendente exausto explicou que ela poderia “criar uma identidade digital” e “acompanhar o processo diretamente pela internet”. Ela saiu com um panfleto que não conseguia ler sem os óculos e com a sensação de ter sido, discretamente, deixada para trás.

Esse descompasso entre a narrativa oficial e a vida real alimenta uma raiva bem concreta. Muitos aposentados sentem que estão sendo empurrados a atravessar uma ponte que nunca foi construída para eles. Passaram a vida trabalhando com holerites em papel, carimbos e balcões com pessoas do outro lado. Agora, para receber alguns euros a mais por mês, precisam lidar com senhas, códigos de verificação por SMS e menus que somem se você clica no lugar errado.

A digitalização vende eficiência, mas transfere silenciosamente o peso para quem menos tem condições de carregá-lo. Autoridades chamam isso de “modernização”. Para uma grande parcela da população idosa, a sensação é de exclusão com um visual mais bonito.

O trabalho invisível para acessar o próprio dinheiro

Por trás de cada “passo simples pela internet”, existe uma coreografia inteira que quase ninguém menciona. Primeiro vem o aparelho: um smartphone que não tenha dez anos, um tablet que ainda receba atualizações, ou um computador que não trave. Depois, é preciso ter uma conexão razoável, um e-mail, uma senha memorizável, e códigos que chegam por mensagem. Cada ponto vira um pequeno muro. Somados, viram uma fortaleza.

Um gesto muito concreto já muda bastante: sentar ao lado do aposentado e conduzir uma tarefa única e específica, sem tentar “ensinar tudo”. Ajudar a fazer só uma coisa: conferir se o aumento da aposentadoria foi realmente aplicado. Uma tela, um objetivo, uma pequena vitória.

Muitas famílias caem na mesma armadilha: pegam o celular, dizem “Deixa que eu faço”, e disparam pelos formulários enquanto o idoso observa - meio aliviado, meio perdido. Resolve, sim, mas aumenta a dependência. Quase todo mundo já viveu aquele momento em que ajudar vira, sem querer, tirar o controle da outra pessoa.

Ajuda de verdade é mais lenta e bem mais bagunçada. É deixar a avó tocar no ícone errado duas vezes e voltar com paciência. É anotar a senha num papel, em letras grandes, explicar em voz alta por que o código do SMS importa, e parar quando o olhar começa a ficar distante. Autonomia digital não nasce numa única tarde na mesa da cozinha.

Existe também uma vergonha silenciosa, pouco comentada. Muita gente aposentada tem constrangimento de dizer “Eu não entendi”, especialmente quando parece que todos à volta vivem colados numa tela. Então a pessoa concorda. Faz de conta. Esconde cartas no fundo da gaveta e torce para que o dinheiro “apareça de algum jeito”.

“Eles ficam dizendo que a aposentadoria aumentou”, diz André, 82, “mas eu não sei quanto, nem quando, nem por quê. Eu só vejo o número no comprovante do banco. Eu tenho que reclamar se estiver errado, se eu nem consigo ver os detalhes?”

  • Pergunte de forma direta: “Você quer entender esta etapa, ou prefere que eu faça por você?”
  • Use um único aparelho para tudo o que envolve aposentadoria e deixe-o sempre no mesmo lugar.
  • Anote senhas e passos principais num caderno simples, com a etiqueta “Aposentadoria” ou “Internet”.
  • Limite cada sessão a uma ação só: entrar na conta, baixar um extrato ou atualizar um documento.
  • Marque uma nova visita, para que a pessoa não se sinta abandonada com uma ferramenta que a assusta.

Quando o reajuste expõe uma fratura muito mais profunda

O núcleo da indignação não é apenas dinheiro. Tem a ver com dignidade, tempo e a sensação de estar sendo apagado, aos poucos, da conversa pública. Aposentados ouvem expressões como “jornadas do usuário”, “digital como padrão”, “prioridade de suporte on-line”, e entendem uma coisa simples: o mundo está sendo projetado sem eles. Um aumento de aposentadoria que exige aplicativo, código ou um PDF para imprimir lembra um presente embrulhado num idioma que eles nunca aprenderam.

Vamos ser francos: ninguém lê todos os e-mails oficiais nem confere todos os portais todos os dias. Até quem é superconectado se perde no excesso. Para quem passou a vida sem endereço de e-mail, esse excesso não parece um fluxo - parece uma tempestade.

Quem fica mais revoltado, em geral, não está pedindo o impossível. Não quer que a internet desapareça, nem que tudo volte para papel e tinta. O pedido é por caminhos paralelos: um telefone em que alguém realmente atenda, um balcão local aberto por mais de duas horas por dia, uma carta em linguagem clara que não empurre a pessoa de volta para um link.

A indignação com o aumento das aposentadorias é, na verdade, indignação com as condições colocadas junto com ele. O reajuste vira um espelho: mostra quem é cobrado a se adaptar e quem dita as regras. Quando o acesso à própria renda depende de conseguir navegar num sistema feito para pessoas vinte, trinta, quarenta anos mais jovens, o ressentimento não é um “erro do sistema”. É uma resposta lógica.

Para famílias, vizinhos e até desconhecidos mais jovens no ônibus, quando alguém pergunta “Você pode me ajudar com esta mensagem?”, isso também vira um teste de solidariedade. Em cada situação, existe uma escolha: revirar os olhos e dizer “É fácil, é só clicar ali”, ou aceitar que, para alguns, não é fácil mesmo. O que para você é básico pode parecer atravessar uma corda bamba sem rede para outra pessoa.

Políticas públicas adoram números: percentuais de reajuste, ganhos médios, pacotes orçamentários. O que quase nunca entra na conta é o tempo não remunerado de filhas, filhos, sobrinhas, voluntários e assistentes sociais tentando tapar esse buraco digital invisível. Esse tempo custa. Essa energia também. Talvez o aumento não seja tão generoso quanto a manchete sugere quando você soma as horas gastas correndo atrás dele em sites mal desenhados e centrais de atendimento que não respondem.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Lacuna digital Muitos aposentados não têm internet, aparelhos ou habilidades para acompanhar mudanças da aposentadoria pela internet Ajuda a entender por que a raiva em torno dos aumentos de aposentadoria está crescendo
Apoio prático Apoiar uma tarefa on-line concreta por vez constrói autonomia de verdade Oferece às famílias e a quem ajuda um jeito realista de apoiar sem assumir tudo
Questão sistêmica Políticas de “on-line por padrão” excluem silenciosamente idosos do acesso aos próprios direitos Convida o leitor a questionar e cobrar como os serviços são desenhados

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1 Por que tantas mudanças na aposentadoria agora só aparecem on-line? A digitalização reduz custos administrativos e equipes, então os serviços de previdência pressionam as pessoas a usar sites e aplicativos para acessar extratos, simular direitos ou registrar reclamações, às vezes sem oferecer alternativas reais.
  • Pergunta 2 O que um aposentado pode fazer se não tem internet nenhuma? Pode solicitar extratos impressos pelo correio, pedir agendamento em unidades locais, usar pontos de acesso público como bibliotecas, ou buscar apoio de serviços sociais e ONGs que ajudam em procedimentos on-line.
  • Pergunta 3 É seguro deixar um familiar administrar contas de aposentadoria pela internet? Pode ser, desde que exista confiança e limites claros, mas é melhor manter as senhas conhecidas pelo aposentado, registrar o que foi feito e evitar dependência total de uma única pessoa.
  • Pergunta 4 Existem programas de treinamento para idosos aprenderem o básico do on-line? Sim, muitas cidades, associações e centros de convivência oferecem oficinas gratuitas ou de baixo custo focadas em usar smartphones, acessar portais oficiais e reconhecer golpes.
  • Pergunta 5 Como saber se o aumento da aposentadoria foi realmente aplicado? Dá para comparar o último comprovante de pagamento com o anterior, solicitar um extrato detalhado ao fundo de previdência, ou pedir a alguém de confiança que entre na conta on-line e informe o valor exato e a data do novo pagamento.

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