A chegada recente do primeiro lote de veículos de combate M1126 Stryker representa um marco para o Exército Argentino, por ser o movimento inicial rumo à concretização da Brigada Mecanizada sobre Rodas - um projeto antigo que foi sendo adiado ao longo dos anos diante da falta de decisão de diferentes administrações quanto a modernizar e incorporar novas capacidades à Força.
Com a entrega do segundo lote de veículos de combate blindados sobre rodas (VCBR) 8×8 M1126 Stryker, somando 8 exemplares, o Exército Argentino encerrará a etapa preliminar que dará forma ao seu “núcleo de modernidade” e permitirá lançar as bases para avançar na constituição da Brigada Mecanizada sobre Rodas.
Esse núcleo de modernidade Stryker busca cumprir vários objetivos: desde a adoção e o ajuste da doutrina em vigor - que, muito provavelmente, será alterada à medida que se acumule experiência com a plataforma 8×8 - até a consolidação de aspectos ligados à operação, ao suporte e à manutenção dos novos veículos de combate.
Grande parte desse trabalho ficará a cargo do Regimento de Infantaria Mecanizado 6 “Gen. Viamonte”, uma das três unidades de Infantaria que integram a 10ª Brigada Mecanizada, grande unidade que, no futuro, deverá se tornar a primeira Brigada Mecanizada sobre Rodas do Exército Argentino.
A razão de ser de uma Brigada Mecanizada sobre Rodas
A Brigada Mecanizada sobre Rodas é entendida como uma alternativa intermediária entre unidades leves e pesadas, já que responde à necessidade de reunir atributos típicos de ambas: flexibilidade e velocidade de emprego, além de proteção e poder de fogo. Nesse contexto, os VCBR são escolhidos como a plataforma ideal para equipá-la, tanto pela menor “assinatura” logística quanto pela mobilidade estratégica superior e pela capacidade de prontidão mais rápida.
Diante da demanda local, o projeto do Exército (BAPIN 107740) descreve que “...o conceito de uma brigada média blindada sobre rodas (sic) implica dispor de uma unidade capaz de operar como um sistema de armas combinadas, com alta mobilidade..., interoperabilidade conjunta e combinada, aptidão para desdobrar-se por seus próprios meios, operar em ambientes urbanos, sob condições meteorológicas adversas, com visibilidade reduzida e até mesmo diante de ameaças químicas ou biológicas limitadas...”. Por isso, o programa prevê toda uma família de VCBR, como a que o Stryker oferece, com o objetivo de manter uma força homogênea.
Além disso, segundo a doutrina atual do Exército, a Brigada Mecanizada sobre Rodas deverá ter aptidão para cobrir longas distâncias, com alta velocidade em estrada, pouco tempo de preparação e mínimo apoio logístico, “...fundamentada na capacidade de mobilidade tática que possuem os veículos blindados sobre rodas...”. É justamente nesse ponto que veículos como o Stryker se destacam em relação aos meios sobre lagartas, que seguem superiores quando o deslocamento tático é em terreno aberto com obstáculos (fora de estrada).
Em um país de grande extensão como a Argentina, onde a malha ferroviária é cada vez mais limitada e os meios de transporte (carretas/pranchas) são insuficientes, a possibilidade de percorrer grandes distâncias por rodovias com menor carga logística (em comparação a meios sobre lagartas) torna os blindados sobre rodas uma alternativa mais do que válida.
Do ponto de vista do comando e controle, estabelece-se que a Brigada Mecanizada sobre Rodas deve estar “...organizada, equipada e adestrada para ser empregada em amplos espaços com pouca compartimentação, empregando a manobra e o fogo, em operações de características rápidas e violentas, que permitem concentrar de forma repentina grande poder de combate, provocando uma importante degradação ao inimigo e destruindo-o antes que possa reagir de forma efetiva...”.
Esse será um dos papéis da futura Brigada Mecanizada sobre Rodas no âmbito da Força de Desdobramento Rápido (FDR) do Exército Argentino. Hoje, pelo poder de combate, a 10ª Brigada Mecanizada é o elemento mais robusto da FDR, conferindo a capacidade de conquistar, ocupar e manter objetivos por conta própria ou em sincronia com elementos leves que compõem a 4ª Brigada Aerotransportada.
Assim, uma das justificativas centrais para a Brigada Mecanizada sobre Rodas é oferecer ao Exército Argentino um elemento de combate flexível e modular, com capacidade de desdobramento rápido e com poder de fogo e proteção consideráveis quando comparados aos meios atualmente em serviço.
Projeto de aquisição de uma família de VCBR
No âmbito do projeto “Incorporação de 209 veículos blindados sobre rodas para equipar uma brigada média mecanizada sobre rodas”, o Exército Argentino analisou requisitos operacionais e materiais com a finalidade de transformar uma de suas grandes unidades de combate. Ao fim desse processo, foi escolhido o VCBR 8×8 Stryker, que oferece uma ampla gama de versões para equipar os diferentes componentes que formarão a Brigada.
Convém lembrar que o projeto define as seguintes quantidades e variantes de veículos a serem incorporados em lotes ao longo de 8 anos:
VCBR Transporte de Pessoal: 120 unidades. Destinadas ao transporte protegido de tropas até e a partir da zona de combate, com estação de armamento operada por controle remoto. Essa função será cumprida pelo M1126 Stryker ICV, semelhante aos recentemente incorporados.
VCBR Infantaria com Canhão: 27 unidades. Versão com canhão automático para apoio de fogo direto em operações ofensivas e defensivas. O papel pode ser desempenhado pelo M1296 Dragoon ou pelo novo M1304 ICVVA1-30mm.
VCBR Carro de Combate (Tanque): 14 unidades. Variante armada com canhão de maior calibre, “utilizado para proporcionar superioridade de fogo no campo de batalha, apoiar a infantaria e enfrentar outros blindados inimigos”. Trata-se de uma categoria que levanta uma dúvida, já que o Exército dos EUA retirou de serviço a versão M1128 MGS (Mobile Gun System), equipada com um canhão M68A2 de 105mm, em razão de problemas técnicos e logísticos. Essa necessidade poderia ser atendida com o aumento da quantidade de VCBR Infantaria com Canhão.
VCBR Morteiro: 12 unidades. Voltadas ao apoio de fogo indireto, tendo o M1129 como solução.
VCBR Posto de Comando: 9 unidades. Versão concebida como centro de comando móvel, com disponibilidade do modelo M1130.
VCBR Ambulância: 9 unidades. O Stryker dispõe do M1133 MEV (Medical Evacuation Vehicle).
VCBR Recuperador: 8 unidades. Não há variante Stryker específica; assim, a função poderia ser executada por caminhões FMTV (já em uso no Exército) ou HEMTT.
VCBR Lança-Pontes: 6 unidades. Também sem variante dedicada do Stryker; o papel poderia ser cumprido por caminhões HEMTT.
VCBR Engenharia: 4 unidades. Há disponibilidade da versão M1134 ESQ (Engineer Squad Vehicle).
Suporte Logístico Integrado: composto por ferramentas de manutenção de 1º, 2º e 3º escalões e por sobressalentes de maior porte.
Simulador de familiarização e treinamento: 1 unidade.
O projeto ainda prevê o reequipamento de sete unidades táticas da 10ª Brigada Mecanizada, com o objetivo de constituir uma grande unidade de combate homogênea, com o devido equilíbrio de poder de fogo, proteção e mobilidade. São elas:
- Regimento de Infantaria Mecanizado 3 “General Belgrano”
- Regimento de Infantaria Mecanizado 6 “General Viamonte”
- Regimento de Infantaria Mecanizado 12 “General Arenales”
- Regimento de Cavalaria de Tanques 13 “Tenente-General Juan Esteban Pedernera”
- Companhia de Engenharia Mecanizada 10
- Companhia de Comunicações Mecanizada 10
- Base de Apoio Logístico Pigüé
Cabe destacar que o único elemento que não receberia material da família Stryker é o Grupo de Artilharia 10 “Tenente-General Bartolomé Mitre”, que também deveria ser incluído no esforço de modernização e receber meios compatíveis com as novas capacidades da Brigada Mecanizada sobre Rodas. Isso pode envolver peças rebocadas de 155mm mais leves e flexíveis do que o material atual, ou um veículo de combate de artilharia sobre rodas.
GDLS Stryker, o VCBR 8×8 escolhido pelo Exército Argentino
Há anos entre os principais candidatos do programa, a venda do VCBR Stryker foi considerada pelos EUA pela primeira vez em julho de 2020, quando se notificou a possível venda via FMS (Foreign Military Sales) de 27 unidades do M1126 Stryker ICV, diante do requerimento argentino. A compra não avançaria após a mudança de administração, que voltou sua atenção ao VCBR Iveco Guaraní do Brasil.
Embora não seja o objetivo aqui entrar em detalhes históricos e técnicos do Stryker - algo que será tratado em outra matéria -, cabe um breve panorama do blindado sobre rodas do Exército dos EUA. Selecionado em novembro de 2020 para equipar as então Interim Combat Brigade Combat Team, o Stryker é uma variante do Mowag Piranha III desenvolvida sob requisitos norte-americanos, à qual foi incorporada uma rede avançada de Comando e Controle, em conjunto com considerável poder de fogo e proteção.
Considerando que o Exército Argentino baseou parte relevante de seus regulamentos na experiência norte-americana com as Stryker Brigade Combat Team, a seleção de um VCBR 8×8 não causa surpresa. Ainda assim, os pontos fortes dessa grande unidade de combate do Exército dos EUA não se explicam apenas pela elevada disponibilidade de recursos típica das Forças Armadas norte-americanas, mas também por como o veículo é complementado para ser empregado no máximo do seu potencial.
O Stryker não se limita à plataforma 8×8: ele integra sistemas associados, como uma Rede Tática Integrada, o sistema de gestão de batalha FBCB2 e meios de comunicação que viabilizam a rápida disseminação de informações e ordens entre subunidades e elementos. No que diz respeito ao poder de fogo, ele não é representado apenas por sistemas operados remotamente - como a estação Protector da série M151 ou CROWS-J, as torres MCT-30 (Dragoon) e MCWS (M1304), ou o lançador de mísseis MITAS ECP (TOW da variante M1134) -, mas também pelo armamento antitanque disponível à infantaria mecanizada.
Entre as ferramentas mais relevantes das unidades Stryker está o sistema antitanque FGM-148 Javelin, empregado contra blindados e posições fortificadas. Ele é complementado por lançadores de foguetes AT-4 do tipo descartável.
Por isso, o VCBR Stryker não deve ser analisado isoladamente, e sim como parte de um ecossistema no qual é reforçado e potencializado por outros sistemas e elementos de combate, permitindo explorar capacidades e mitigar limitações. Dessa forma, sua incorporação ao Exército Argentino precisa considerar todo o conjunto de soluções associadas, com o propósito de estabelecer, consolidar e ampliar as aptidões da futura Brigada Mecanizada sobre Rodas.
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