- Por Gastón Marmonti.
Autoclásica no Hipódromo de San Isidro e a paixão pelo esporte a motor
No último mês de outubro, entre os dias 9 e 12, neste ano que já se aproxima do fim, fomos aproveitar a mostra internacionalmente reconhecida - e sempre muito aguardada - de carros e motos organizada pelo Club de Automóviles Clásicos, montada no pitoresco Hipódromo de San Isidro. Centenas de milhares de pessoas, incluindo famílias e crianças, marcaram presença na Autoclásica para admirar e vivenciar de perto uma das paixões mais argentinas: o esporte a motor.
Marcas, equipes, associações, clubes, grupos de amigos e proprietários de verdadeiras joias exclusivas se aproximam e nos permitem observar, por alguns dias, máquinas com motor com as quais muitos de nós sonhamos desde a infância. Gente de Buenos Aires, do interior e também de fora do país (Brasil, Uruguai, para citar alguns) compõe esse encontro.
Encontrar novamente um modelo parecido com o de nossos pais (no meu caso, um honrado Renault 4 - “El Correcaminos”), um carro de Fórmula 1 dos anos 90, um Turismo Carretera dos anos 50 ou dos anos 80 (ou da década que cada um preferir) nos leva direto à época da televisão em preto e branco. E faz a gente sorrir, porque acabam escapando lembranças de familiares que já não estão conosco. Isso é a Autoclásica: memória, paixão, sonhos e sorrisos… de expositores e de visitantes.
Premiação: Best of Show em Elegância e Competição
Numa Autoclásica tão especial e singular como esta, a premiação também precisava ter destaque. Pela primeira vez, foram escolhidos dois veículos de duas categorias diferentes: Elegância e Competição.
Os vencedores foram:
- Best of Show (Elegância): Rolls-Royce Phantom III
- Best of Show (Competição Internacional Biplaza): Shelby Cobra Daytona Coupé
“O reconhecimento duplo foi celebrado como uma decisão simbólica, em homenagem à história do evento e aos grandes restauradores argentinos que mantêm viva a paixão pelos carros clássicos”.
O setor de veículos militares na Autoclásica 2025
Mas eu gostaria de tirá-los, por um instante, das rotações ensurdecedoras do Torino 380 W (nº 2) dos pilotos Gastón Perkins, Jorge Cupeiro e Eduardo Rodríguez Canedo (das 84 horas de Nürburgring de 1969) para olhar um setor logo à frente: o dos veículos militares.
É um espaço especial de automóveis e veículos blindados, pintados em verde-oliva ou camuflados (verde-oliva e marrom terroso), com tração nas quatro rodas ou com lagartas (com elos). São veículos de produção em série e, em muitos casos, restaurados com esforço titânico por mecânicos experientes, para que voltem a se parecer com aqueles operados por homens do Exército.
Vários deles começaram a vida como carros ou tratores civis, foram comprados sob licença do Exército e da Infantaria de Fuzileiros Navais e adaptados ao rigor do “fora de estrada” e de “todo clima” para uso militar. Encerrado o conflito, a própria fábrica os reapresentou ao público e os ofereceu aos jovens - como aconteceu com o Jeep Willys-Overland CJ-2A (Civilian Jeep 2A).
Na Autoclásica 2025, apareceram dois Jeeps “Originais”: os Kaiser M 606 do Museo Náutico Argentino, além de cerca de vinte e três “Restaurados” da Asociación Argentina de Coleccionistas de Vehículos Militares (AACVM).
2º lugar: Ford GPA 1942 (nº de Ordem 153)
O 2º lugar ficou com o nº de Ordem 153 - um Ford GPA 1942.
Trata-se de um Jeep anfíbio, apresentado pelo senhor García Loperana por meio da AAVM. A Ford aproveitou um chassi robusto já existente e o respectivo quadro interno. Assim, era um veículo mais convencional, com construção soldada em chapas de aço, chamado de GPA (designação interna).
A empresa também cuidou para que a condução fosse muito parecida com a de um Jeep comum, apenas com algumas alavancas extras para pilotagem em navegação - desse modo, motoristas de Jeep não encontrariam dificuldades totalmente novas.
Infelizmente, ele não conseguiu passar pelas provas de ondulação típicas de um desembarque no mar. Os soldados lhe deram o apelido de “banheira”; não tinha armamento adicional, não aceitava carga extra e, por isso, era claramente menos manobrável do que um Jeep. No fim, acabou sendo pouco utilizado no front. A fabricação foi encerrada em março de 1943, após a surpreendente produção de 12.778 veículos.
Comprado pelo Exército soviético, foi convertido na versão GAZ 46, o que permitiu uso intensivo em operações que cruzavam cursos d’água, lagos etc. E, por fim, ficou conhecido como o pai do veículo BRDM-1…
Um exemplar interessante, que se sobressai amplamente pela originalidade e pelo trabalho e empenho evidenciados por seus apresentadores.
1º lugar: Dodge Brothers Touring 1917 (nº de Ordem 156)
O 1º lugar desta seleção foi para o nº de Ordem 156: o Dodge Brothers Touring 1917.
Esse automóvel, militarizado pela empresa dos irmãos Dodge, é um ícone no universo militar, já que o Exército dos EUA o utilizou pela primeira vez na campanha contra o líder mexicano Pancho Villa (seu nome era Doroteo Arango), sob o comando do Gral. Piershing. Vale lembrar que, em março de 1916, o México atacou a cidade de Columbus, no Novo México (EUA), onde ocorreram muitas vítimas civis norte-americanas.
O então Cap. Patton iniciou uma missão de perseguição a bandoleiros com três Dodge Touring, enquanto uma patrulha a cavalo complementava a busca. Poucos dias depois, os que estavam montados acabaram exaustos (cavaleiros e cavalos), ao passo que os que iam nos Dodge continuavam em ritmo pleno. Ao fim do terceiro dia, Patton mostrava ao mundo, “orgulhoso”, que a Cavalaria podia substituir seus animais de dotação pelo motor.
Começava a era da Motorização Militar - e, junto com ela, as dores de cabeça dos oficiais superiores que defendiam o emprego do cavalo[1].
O Dodge Touring foi um dos primeiros a ter carroceria completamente em aço, incluindo o próprio teto. A primeira versão, de 30-35 HP, foi projetada e colocada em produção em 1914, iniciando a concorrência direta com a Ford. Muito rústico e ágil, ele mostrou flexibilidade superior à do Ford T em estradas de terra e caminhos consolidados na maioria dos países.
Piershing e Patton, novamente enviados ao front europeu com o Exército, na Primeira Guerra Mundial (os EUA entraram em abril de 1917), não hesitaram em mandar transportar para a França (junho de 1917) cerca de 3400 Dodge. Em pouco tempo, surgiram versões com caçamba de transporte de pessoal e material, além de uma variante biplaza (Roadster).
Ele saiu da guerra e chegou ao uso civil, alcançando a impressionante marca de 124.000 unidades produzidas.
A partir de 1916, começaram a ser importados para a Argentina. A empresa Julio Fèvre (filho) firmou um acordo comercial com a casa dos irmãos Dodge para trazer ao país os modelos produzidos nos Estados Unidos.
Um anúncio na revista Caras y Caretas, de 1917, comunicava a chegada do novo modelo: “A confiança que se sente no nome Dodge Brothers e que existe em toda parte é a melhor garantia de que o carro sempre corresponderá, em tudo, aos mais altos conceitos.”
Um ano depois, em 1918, o preço de venda em Buenos Aires (rua Bermejo 940, Buenos Aires) era de 3.200 pesos moeda nacional. Como comparação com o Ford T, que também era vendido no país, ele custava 1.700 pesos (ver artigo de Mauricio Uldane).
Uma raridade única, apresentada pela CLASICOS AR., por meio da AAVM. Ela guarda uma história relevante no meio militar e representou um “momento de virada” para todos os exércitos do mundo, quando, ao mesmo tempo, começavam a rodar os primeiros tanques (motorizados) Mark I na batalha de Cambrai, em 1916. “Autoclásica 2025, conseguiu.”
Do cavalo ao motor: o fim de uma disputa que durou décadas
O cavalo de guerra e o motor seguiram competindo no período pós-Primeira Guerra. Já na Segunda Guerra Mundial - depois das campanhas da Polônia e da França e com a tática alemã bem-sucedida da Blitzkrieg (Guerra Relâmpago: combinação avião – tanque) - os cavalos[2] logo retornaram à paz. Assim como os Jeeps…
[1] Nota do autor: no nosso país, o Exército Argentino demorou a aceitar a doutrina blindada, substituindo a cavalaria montada apenas no fim dos anos 50. O comando da arma de cavalaria via a Motorização como uma ameaça à sua essência: o cavalo de guerra.
[2] Nota do autor: paradoxalmente, foi o Exército alemão que manteve a tração animal até o fim da guerra, já que não conseguiu “motorizar” por completo seus milhares de meios de transporte.
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