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Como a Gozney e a Roccbox levaram 400 pessoas a largar o emprego por pizza

Jovem apresenta projeto para grupo em sala moderna com pizza sobre a mesa e laptops abertos.

O que parece uma ideia simpática de hobby no quintal virou um negócio internacional de milhões - e, para centenas de pessoas, a porta de saída do emprego antigo. No centro de tudo estão um homem, um combustível (o fogo) e um produto que, com o tempo, passou a abrir caminho para uma vida profissional completamente diferente.

Como um forno “feio” salvou uma vida

Tom Gozney ainda tinha pouco mais de 20 anos quando tudo saiu do controle. Álcool, drogas, festa - uma queda previsível. Aos 21, ele entrou numa clínica de reabilitação. Segundo o próprio Gozney, foi lá que ele “nasceu de novo”. Ao voltar para a rotina, precisava de algo que desse direção. E encontrou justamente em algo que muita gente trata como diversão de fim de semana: assar pizza no quintal.

O primeiro forno a lenha ele construiu com as próprias mãos. Visualmente, como ele mesmo conta, aquilo era um desastre. Do ponto de vista técnico, não era perfeito - mas funcionava. Amigos começaram a aparecer; eles assavam pizza, conversavam, riam. E aquela roda em volta do fogo acabou virando o ponto de apoio que ele precisava.

“Fogo, massa, amigos - dessa mistura simples nasceu o ponto de partida de uma empresa internacional e a base da sua recuperação pessoal.”

A partir daí, Gozney mergulhou em livros técnicos e em temas como condutividade térmica de cimento e argila. Aos poucos, ficou claro para ele que havia algo além do passatempo: havia um produto - e talvez até um modelo de negócio.

Da garagem a uma marca global de pizza

Ele decidiu começar com um empréstimo de 5.000 libras da mãe. Metade desse valor foi para uma forma de fibra de vidro, que serviria para moldar os fornos. O resultado foi um domo compacto de concreto, em peça única - o primeiro produto realmente “de prateleira”.

O forno de entrada, chamado “Primo”, era vendido por 499 libras. Ao mesmo tempo, Gozney deu entrada num pedido de patente: um forno que podia ser instalado muito mais rápido e por menos dinheiro do que os tradicionais fornos de alvenaria. Donos e donas de restaurantes adoraram a proposta. O modelo com aparência de terracota, em particular, virou sucesso principalmente no uso profissional.

Em 2011, ele ainda montava o site da empresa com as próprias mãos e percorria feiras agrícolas para apresentar o produto. Alguns anos depois, já como “Stone Bake Oven Company”, ele fornecia para redes conhecidas como Franco Manca e Pizza Pilgrims. Mais adiante, reuniu as operações sob a marca Gozney e transformou tudo numa marca de estilo de vida centrada em fogo, pizza e comida compartilhada.

Um marco importante: a Gozney foi a primeira empresa no Reino Unido a receber da Defra uma dispensa de determinadas regras de emissão de fumaça. Com isso, os fornos passaram a ser permitidos também em zonas ambientais mais rígidas - e ficaram muito mais atraentes para profissionais.

O divisor de águas: um forno de pizza portátil para todo mundo

O verdadeiro “turbo” veio em 2016 com um produto que hoje aparece em muitos quintais, varandas e food trucks: o Roccbox. Um forno de pizza leve e portátil, com base de pedra - supostamente o primeiro desse tipo no mundo.

Quando Gozney lançou oficialmente o Roccbox para o público final, o impacto foi imediato. No primeiro mês após o lançamento, a empresa faturou cerca de 900.000 libras com o produto. Desde então, o forno pequeno virou uma espécie de cartão de visitas da marca.

“O Roccbox não é só um brinquedo para cozinheiros amadores, mas para muita gente a ferramenta central do seu novo trabalho.”

Boom na pandemia: quando a pizza vira vencedora da crise

A pandemia transformou a pizza ao ar livre de nicho em fenômeno de massa. Com restaurantes fechados e pessoas presas em casa, explodiu o número de estruturas caseiras para fazer pizza em quintais e entradas de garagem. Para a Gozney, esse período acabou funcionando como motor de crescimento.

O faturamento saltou de 5,2 milhões de libras em 2019 para 72 milhões de libras em 2024. O que era um fabricante pequeno de Bournemouth virou um player global, com cerca de 120 funcionários distribuídos entre China, Austrália, Europa e EUA. O boom também deixou evidente que, além do visual bem resolvido, existe desempenho de verdade - e um modelo de negócio viável para operadores menores.

400 pessoas pedem demissão por causa de pizza

O detalhe mais surpreendente da trajetória da Gozney não é o faturamento, e sim o efeito sobre outras pessoas. De acordo com a empresa, aproximadamente 400 compradores e compradoras de um forno Gozney deixaram o emprego anterior para passar a vender pizza profissionalmente - em alguns casos com food trucks, operações pop-up, lojas pequenas ou catering.

Internamente, a Gozney chama esse grupo de “Gozney Collective”: uma comunidade de pessoas que optou, de forma consciente, por uma vida girando em torno de massa e fogo.

“Para cerca de 400 pessoas, o forno portátil virou o trampolim que tirou do trabalho de escritório e levou à vida de autônomo.”

Por que isso dá certo? O ponto-chave é que os fornos não chamam atenção apenas pela estética: segundo a Gozney, eles também “aguentam em ambiente profissional”. Um Roccbox alcança temperaturas que, normalmente, só fornos grandes de alvenaria entregam. Assim, até quem está começando consegue servir em poucos minutos uma pizza crocante com padrão de restaurante.

O que atrai autônomos para o negócio de pizza

Quem decide dar esse passo costuma enxergar vantagens como estas:

  • Barreira de entrada baixa: um forno, um kit básico e um ponto para operar - muitas vezes isso já permite começar.
  • Alta demanda: pizza funciona em feiras, festivais, eventos corporativos e bairros residenciais.
  • Cálculo simples: massa, molho de tomate, queijo e cobertura são itens previsíveis - a margem pode ser interessante.
  • Flexibilidade: muita gente toca o negócio primeiro como renda extra antes de migrar de vez.
  • Storytelling: “pizza napolitana no forno a lenha” vende melhor do que pizza congelada no forno doméstico.

Há também o lado emocional. Ver a reação do cliente de perto, no momento em que prova a primeira fatia ainda fumegante, gera um retorno mais direto do que no trabalho de escritório. Muita gente relata que essa experiência imediata é justamente o que dá energia para continuar.

O que explica o hype da pizza ao ar livre

A onda da pizza outdoor se encaixa em várias mudanças ao mesmo tempo: mais tempo em casa, mais investimento em quintal ou varanda e maior valorização de cozinhar junto. Um forno compacto amarra tudo isso com um certo fator “uau”.

Além disso, existe o empurrão das redes sociais. Tirar uma pizza perfeitamente assada, com aquelas manchas “leopardadas”, de um forno bonito quase sempre vira conteúdo para Instagram e TikTok. Isso alimenta a demanda tanto entre amadores quanto entre quem quer monetizar.

Fator Papel no sucesso
Design Atrai compradores de lifestyle e se diferencia dos fornos tradicionais de alvenaria
Portabilidade Facilita formatos móveis como food trucks e operações pop-up
Desempenho O calor alto entrega pizza como a de um restaurante italiano
Comunidade Usuários se inspiram, trocam receitas e dicas de negócio
Timing Pandemia e entretenimento em casa deram impulso ao movimento

O que fundadoras e fundadores podem aprender com essa história

A trajetória da Gozney traz pontos relevantes para quem pensa em empreender - com pizza, hambúrguer, café ou qualquer outra coisa.

Do problema ao produto

Gozney não começou com um slide de plano de negócios, e sim com uma dor concreta: queria um forno que assasse bem, fosse acessível e tivesse aparência melhor do que os modelos pesados do mercado. Da frustração pessoal nasceu o primeiro produto. Esse padrão - resolver um problema próprio e transformá-lo em oferta para outras pessoas - aparece com frequência em histórias de empresas que dão certo.

Design como motor de crescimento subestimado

Muitos negócios de gastronomia focam apenas em sabor e custo. Gozney, desde o início, colocou atenção em forma, material e sensação ao toque. A ideia era que o forno ficasse bem em fotos e, na varanda, parecesse um objeto de design. Essa exigência, hoje, rende alcance nas redes sociais e faz com que os fornos apareçam em portais de lifestyle - e não apenas em catálogos do setor.

Riscos que quem abre uma pizzaria móvel precisa considerar

Por mais inspirador que pareça ver 400 novas pessoas trabalhando com pizza, independência não acontece automaticamente. Quem inicia um negócio móvel de pizza precisa levar em conta vários pontos:

  • Abertura da empresa e exigências sanitárias
  • Busca por locais: feiras, festivais, clientes corporativos, festas particulares
  • Seguros de responsabilidade civil e para o equipamento
  • Precificação com folga para dias fracos e sazonalidade
  • Logística: preparo da massa, refrigeração, transporte, fornecimento de energia elétrica ou gás

Ignorar isso pode fazer a empolgação inicial virar estresse e problema financeiro. Operações que se sustentam no longo prazo costumam ter processos bem definidos, boas ferramentas de controle e uma separação rigorosa entre finanças pessoais e as da empresa.

Pizza como terapia, negócio e comunidade

A camada mais forte dessa história é a pessoal. Para Tom Gozney, o forno a lenha no quintal não foi apenas um equipamento: virou uma forma de terapia. Ele encontrou estrutura no trabalho manual, propósito no produto e pertencimento nas pessoas que se reuniam ao redor do fogo. Anos depois, ele repassa essa sensação de um jeito pouco comum.

Para ele, cada forno que vai parar nas mãos de um pequeno negócio de pizza funciona como confirmação de que uma crise privada pode virar um movimento coletivo. Por trás de cada uma dessas 400 demissões existe uma narrativa própria: o funcionário de escritório cansado que sonha com um food truck, a cozinheira que abre o primeiro ponto na feira de bairro, o casal que cria um segundo ganho ao redor do forno.

Para muita gente, o produto da Gozney deixa de ser “só” mais um utensílio de cozinha e vira símbolo: o desejo de estar com outras pessoas, trabalhar com as mãos e ter mais controle sobre a própria vida - mesmo que isso aconteça com massa, molho de tomate e um forno realmente quente.


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