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Valeo e Hero MotoCorp desenvolvem ARAS para motos e scooters e miram mercado de €3,3 bilhões até 2035

Motociclistas urbanos trafegam em rua movimentada com carros e riquixás ao fundo em dia ensolarado.

À medida que as ruas das cidades ficam cada vez mais saturadas de bicicletas e patinetes, um peso-pesado francês de tecnologia e uma gigante indiana de duas rodas avançam de forma discreta num projeto ambicioso: uma rede de segurança digital para motociclistas, com a intenção de transformar um nicho historicamente negligenciado num mercado de vários bilhões de euros até 2035.

Um acordo fechado em janeiro, pensado para milhões de motociclistas

Em 8 de janeiro de 2026, a fornecedora francesa Valeo e a fabricante indiana Hero MotoCorp assinaram um memorando de entendimento com potencial para mudar a experiência diária de pilotagem em algumas das cidades mais movimentadas do mundo. A meta é desenvolver em conjunto ARAS – Sistemas Avançados de Assistência ao Motociclista – voltados especificamente para veículos de duas rodas motorizados.

Diferentemente de muitas tentativas anteriores, não se trata de pegar tecnologias de carros e “encaixar” numa moto no fim do projeto. A proposta é criar soluções do zero para motocicletas e scooters - que inclinam, vibram, frenam com força e praticamente não oferecem espaço livre para eletrônica.

No mundo todo, as duas rodas motorizadas respondem por uma parte enorme dos deslocamentos urbanos. Na Índia, em cidades como Délhi ou Nashik, entre 48% e 80% das viagens de 1 a 20 km são feitas em duas rodas. São baratas, rápidas e, muitas vezes, a única alternativa viável para se locomover.

Ao mesmo tempo, elas aparecem de forma desproporcional nas estatísticas de acidentes graves, sobretudo em tráfego denso e caótico - onde pontos cegos surgem a todo instante e o piloto quase não tem proteção.

"Veículos de duas rodas representam uma pequena fatia do tráfego, mas uma parcela enorme de feridos graves e mortes - um ponto cego estrutural da segurança viária."

Números chocantes por trás da corrida por ARAS

Embora motocicletas e scooters representem aproximadamente 2% do tráfego rodoviário em muitos mercados, seus condutores correspondem a cerca de 43% dos usuários gravemente feridos e 22% das mortes no trânsito. O descompasso é evidente e teima em persistir.

O setor automotivo dá um indicativo claro do que pode melhorar esse quadro. No Reino Unido, a adoção gradual de sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS) em automóveis ajudou a reduzir as taxas de colisão em torno de 20–30%, segundo diversos estudos. Melhor detecção, alertas mais precoces e intervenções automatizadas se traduzem diretamente em menos batidas.

Nas duas rodas, esse conjunto de recursos ainda é limitado. O ABS (sistema de freios antitravamento), obrigatório desde 2017 em motocicletas e scooters acima de 125 cm³ na União Europeia e em algumas outras regiões, já reduz a quantidade de quedas por perda de controle durante frenagens de emergência.

A ambição do ARAS, porém, vai bem além: sair da assistência básica de frenagem e chegar a uma consciência situacional completa para o piloto.

Quem contribui com o quê: Hero encontra a Valeo

Hero MotoCorp: especialista no “trabalho do dia a dia”

A Hero MotoCorp é a maior fabricante de motocicletas e scooters do mundo em volume. Vende mais de 5 milhões de veículos de duas rodas por ano, sobretudo na Índia, mas também em países da Ásia, África e América Latina.

A empresa tem cerca de 9.000 funcionários e opera oito fábricas de grande porte. Seu faturamento anual supera €4,5 bilhões. A Hero construiu sua trajetória com máquinas robustas e acessíveis, capazes de rodar dezenas de milhares de quilômetros em condições difíceis - de vias urbanas superlotadas a estradas rurais.

Em muitos mercados emergentes, uma moto da Hero não é um item de lazer: é uma ferramenta de trabalho. Serve a entregadores, pessoas que fazem deslocamento diário, agricultores, estudantes. Parar o veículo significa perder renda. Isso influencia as escolhas de engenharia: soluções simples, duráveis e fáceis de consertar.

Com a marca VIDA, a Hero agora acelera a entrada em scooters elétricas e mobilidade urbana de baixo carbono, buscando elevar os níveis de segurança ativa em volumes de produção muito altos.

Valeo: potência tecnológica “invisível”

A Valeo, por sua vez, é mais conhecida por quem atua dentro da indústria. A fornecedora francesa emprega cerca de 110.000 pessoas, mantém mais de 180 unidades industriais em 33 países e registra aproximadamente €22 bilhões em vendas anuais.

Seus componentes trabalham nos bastidores de milhões de veículos: radares, câmeras, unidades de controle e softwares que sustentam assistentes de permanência em faixa, frenagem automática de emergência e auxílios de estacionamento.

Mais de 20.000 engenheiros atuam na rede global de P&D da Valeo, apoiada por um orçamento anual acima de €2 bilhões. Na última década, o grupo ampliou seu alcance além do hardware automotivo tradicional, avançando para software, percepção com base em IA e trens de força elétricos.

Levar esse portfólio às duas rodas não é um exercício de copiar e colar. Motos se comportam de outro modo, oferecem pouco espaço para sensores e vivem sob restrições severas de custo. Para a Valeo, isso é ao mesmo tempo um desafio técnico e a porta de entrada para um mercado medido em centenas de milhões de veículos.

Um “copiloto digital” para a selva urbana

O plano Valeo–Hero gira em torno de uma arquitetura eletrônica completa que funcione como um “copiloto digital”. A intenção é criar uma bolha de segurança de 360 graus ao redor da moto ou da scooter.

Os principais blocos incluem:

  • Radares de curto e médio alcance para acompanhar veículos à frente e atrás, mesmo sob chuva ou com pouca luz.
  • Câmeras inteligentes para identificar pedestres, marcações de faixa, placas de trânsito e obstáculos repentinos.
  • Softwares de alerta e assistência que avisam o piloto ou ajustam de forma sutil frenagem e aceleração.

Em ambientes urbanos densos, onde ônibus, carros, scooters, ciclistas e pedestres dividem espaço a centímetros de distância, essa “visão” ampliada pode ser decisiva. O sistema não pilota no lugar da pessoa, mas oferece suporte justamente nos momentos em que reação e percepção humanas têm maior chance de falhar.

"Um conjunto de ARAS bem calibrado se comporta menos como um piloto automático e mais como um segundo par de olhos e mãos, observando continuamente o que pode dar errado."

Do conceito ao mundo real: vitrine em Las Vegas

Os primeiros demonstradores dessas tecnologias apareceram na CES 2026, em Las Vegas. Em destaque: conceitos baseados em scooters elétricas de nova geração, um dos segmentos que mais crescem em megacidades - de Mumbai a Paris.

Esses protótipos mostram cenários como uma scooter alertando sobre um carro que se aproxima rápido por trás, ou o sistema sinalizando um pedestre que pisa no meio-fio e entra na via, segundos antes do que o piloto normalmente perceberia.

Por enquanto, são demonstrações. Ainda assim, a escala da Hero significa que qualquer solução validada pode ser aplicada a milhões de unidades em relativamente pouco tempo, inclusive em modelos de entrada em mercados sensíveis a preço.

Quando segurança vira padrão, e não opcional

Historicamente, recursos de segurança ativa demoraram anos para descer dos carros de luxo para veículos mais acessíveis. Motos de turismo de alto padrão ou modelos aventureiros premium só recentemente passaram a receber controle de cruzeiro baseado em radar e ABS com atuação em curvas.

A parceria Valeo–Hero tenta inverter essa lógica: projetar primeiro para máquinas de grande volume, e depois refinar para o topo da linha. Se der certo, pode estabelecer uma nova referência, em que uma scooter urbana barata já saia com ao menos um ARAS básico - do mesmo modo que o ABS virou inegociável em muitos mercados.

Para a Hero, é uma forma de se diferenciar num segmento extremamente competitivo. Para a Valeo, é a oportunidade de fixar sua tecnologia em regiões nas quais as duas rodas são o principal meio de mobilidade.

Um mercado em forte expansão, estimado em €3,3 bilhões até 2035

O potencial comercial por trás desse movimento de segurança está longe de ser pequeno. O mercado global de sistemas de segurança para motocicletas e scooters foi estimado em cerca de €1,9 bilhões em 2025.

Analistas projetam avanço para aproximadamente €3,3 bilhões até 2035, impulsionado por três vetores:

  • Busca por motos mais seguras por parte de quem se desloca diariamente e de famílias.
  • Crescimento das duas rodas elétricas, que já trazem eletrônica moderna como padrão.
  • Expansão de usos profissionais como frotas de entrega e mototáxis, que precisam controlar risco e custos de seguro.

Atualmente, sensores e ABS ainda dominam as vendas, mas funções mais avançadas de segurança ativa vêm se espalhando dos modelos topo de linha para os intermediários. Também há oportunidades relevantes de retrofit e mercado de reposição, já que milhões de motos antigas podem receber módulos mais simples de detecção ou alerta.

A região Ásia-Pacífico - e a Índia, em particular - concentra grande parte desse crescimento. Por isso, a aliança entre uma fornecedora francesa de tecnologia e uma campeã indiana em volume faz sentido estratégico.

Ano Tamanho estimado do mercado de sistemas de segurança para duas rodas
2025 €1.9 bilhões
2035 (projeção) €3.3 bilhões

O que o ARAS realmente faz numa moto

Para quem pilota, “ARAS” pode soar abstrato. Na prática, sistemas futuros podem trazer funções como:

  • Alerta de colisão frontal: avisos visuais ou sonoros quando a moto se aproxima rápido demais de um veículo ou obstáculo.
  • Alertas de tráfego cruzado traseiro e ponto cego: notificações quando um carro vem rápido por trás ou fica numa posição difícil de enxergar.
  • Iluminação adaptativa: facho que se ajusta ao ângulo de inclinação e à velocidade para melhorar a visibilidade noturna.
  • Suporte eletrônico de estabilidade: intervenções limitadas em freios ou potência para estabilizar a moto durante reações de pânico.

Mais adiante, reguladores podem incentivar - ou até exigir - algumas dessas funções em modelos novos, como ocorreu com o ABS. Seguradoras também podem oferecer descontos para motos equipadas com ARAS, especialmente em operações de frota.

Benefícios, riscos e situações do mundo real

Na prática, o maior ganho aparece em quase-acidentes corriqueiros. Imagine um entregador costurando o trânsito no começo da noite em Bengaluru. Um carro muda de faixa sem dar seta. Um radar traseiro e sensores laterais detectam o movimento uma fração antes do piloto, disparando um alerta forte. Essa margem de meio segundo pode bastar para frear ou desviar com segurança.

Outro caso frequente: o piloto freia forte num piso molhado e com pintura numa interseção. O ABS evita o travamento das rodas, enquanto o ARAS antecipa o risco a partir de estimativas de velocidade e aderência, modulando levemente a força de frenagem para manter a moto em pé.

Há riscos também. A dependência excessiva de eletrônica pode levar algumas pessoas a pilotar de forma mais agressiva, acreditando que “a moto vai me salvar”. Sensores mal calibrados podem gerar alertas falsos, irritando até que o usuário desligue as funções. Ambientes severos - poeira, calor, buracos - colocam em xeque a durabilidade e o alinhamento dos sensores.

Por isso, a colaboração Valeo–Hero destaca desde o primeiro dia o projeto voltado para condições reais da Índia e de mercados emergentes, em vez de cenários ideais de estradas europeias. Robustez, manutenção simples e retorno claro ao piloto passam a ser tão importantes quanto algoritmos sofisticados.

Conceitos-chave que pilotos e leitores precisam conhecer

Alguns termos aparecem repetidamente nessa discussão:

  • Segurança ativa: sistemas que buscam prevenir ou reduzir acidentes (radares, alertas, ABS), em contraste com airbags ou capacetes, que atuam após a colisão.
  • Sistemas Avançados de Assistência ao Motociclista (ARAS): o equivalente, nas duas rodas, ao ADAS dos carros, adaptado a ângulos de inclinação, pneus estreitos e a pilotos muito expostos.
  • Retrofit no mercado de reposição: kits vendidos separadamente para modernizar motos antigas, potencialmente uma alavanca enorme em países com frotas já existentes.

Se a aliança franco-indiana conseguir combinar os três - segurança ativa inteligente, ARAS focado no piloto e opções amplas de retrofit - o efeito pode ir muito além da estratégia corporativa. Pode mudar o risco diário de milhões de pessoas que dependem da moto não como hobby, mas como linha de sobrevivência.


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