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Ninguém Gosta do Seu Cocô: Como Lidar com o Nº 2 na Natureza de Forma Responsável

Jovem com mochila escavando buraco na natureza com kit de higiene ao lado para acampar de forma sustentável.

Se você faz parte dos 63 milhões de norte-americanos que fizeram trilhas no ano passado, é bem provável que, em algum momento, tenha sentido a urgência de ir ao banheiro sem encontrar nenhum sanitário por perto.

Além do desconforto pessoal, por que isso importa tanto?

A contaminação por fezes humanas em áreas naturais é uma questão de saúde pública. Microrganismos patogénicos presentes nas fezes podem continuar ativos por muito tempo - mais de um ano em ambientes ao ar livre - o que significa que o resíduo deixado hoje pode provocar doenças gastrointestinais graves e outros problemas de saúde em visitantes futuros.

Depois de chuvas fortes ou do degelo, esse material pode ser arrastado para córregos e rios, piorando a qualidade da água. E há ainda o impacto social: encontrar fezes e papel higiénico usado na natureza pode ser revoltante - ou, no mínimo, extremamente desagradável.

Como investigadores e doutorandos que estudam os impactos humanos em parques e áreas protegidas, temos pensado bastante sobre o tema e sobre maneiras de as pessoas reduzirem a sua pegada no ambiente.

O nosso ponto de partida é o Não Deixe Rastros, um quadro de educação ambiental criado por uma organização com esse mesmo nome, que orienta visitantes a adotarem práticas de mínimo impacto em ambientes naturais.

Fezes humanas estão a criar problemas em parques e áreas protegidas

Da Trilha dos Apalaches e do Monte Everest - conhecido no Nepal como Sagarmatha - a parques nacionais na Noruega e na Aotearoa (nome maori para a Nova Zelândia), investigadores têm registado os efeitos negativos que os resíduos corporais vêm causando em ecossistemas sensíveis, justamente onde procuramos lazer, descanso e recuperação.

No Colorado, a situação chegou a tal ponto que gestores de áreas naturais decidiram intervir. No Distrito Águia–Santa Cruz, dentro da Floresta Nacional do Rio Branco, por exemplo, o Serviço Florestal dos Estados Unidos passou a exigir que visitantes levem de volta consigo os próprios dejetos humanos.

Boas práticas do Não Deixe Rastros para lidar com o cocó ao ar livre

Um de nós - Derrick Taff - atua como consultor científico do Não Deixe Rastros, organização que há mais de 30 anos orienta praticantes de atividades ao ar livre sobre este tema e oferece recomendações objetivas com base em investigação científica.

A regra geral mais eficaz é simples: evitar a possibilidade de contaminação não deixando resíduos em áreas naturais. Estruturas sanitárias são consideradas a forma mais eficiente de reduzir o descarte de fezes em áreas remotas. Se houver um banheiro no início da trilha, use-o antes de partir.

A investigação que estamos a realizar no Parque Nacional Grand Teton, em Wyoming, e na Floresta Nacional San Isabel, no Colorado, confirma que caminhantes preferem usar os sanitários do início da trilha quando eles estão disponíveis.

Ainda assim, quem frequenta ambientes naturais sabe que áreas afastadas nem sempre oferecem essa infraestrutura. O custo e a dificuldade de acesso para manutenção e remoção de resíduos são obstáculos reais para gestores que consideram instalar banheiros em locais remotos.

E há um fator prático inevitável: mesmo quando existe banheiro no início da trilha, a necessidade pode surgir quando você já está longe. Numa investigação nossa (ainda não publicada), entrevistámos caminhantes no Monte Elbert, no Colorado. Até 70% das pessoas que precisaram evacuar acabaram fazendo isso em áreas remotas, apesar de haver um banheiro no início da trilha.

Planeamento e higiene: o que muita gente esquece de levar

Além de escolher o método correto de descarte, vale preparar um pequeno kit: álcool em gel, saco vedável para resíduos, uma pá pequena (ou ferramenta equivalente) e, se necessário, luvas descartáveis. Lavar ou higienizar as mãos depois do procedimento é decisivo para evitar a transmissão de doenças - principalmente antes de comer ou de manusear garrafas e utensílios.

Também ajuda planear o percurso pensando em pontos de apoio (banheiros, refúgios e áreas de camping). Em grupos, combinar previamente as regras e os materiais reduz situações em que alguém improvisa - e improvisos são uma das principais origens de descarte inadequado.

Os problemas persistem porque caminhantes não chegam preparados

Parte da dificuldade é que muita gente nem sequer conhece as regras atuais. Num estudo nosso, prestes a ser publicado, com visitantes em áreas remotas do Parque Nacional Grand Teton, 66% relataram não ter recebido qualquer informação sobre como descartar fezes humanas no parque.

Outros motivos para o descumprimento são perceções de que as regras são exigentes demais ou pouco relevantes.

A investigação mostra, porém, que mensagens claras e práticas - combinadas com apelos ambientais e morais pertinentes - ajudam a mudar comportamentos ao ar livre. Mesmo que uma decisão individual pareça pequena, o efeito acumulado de muitas escolhas semelhantes gera impactos grandes.

Como evacuar em áreas remotas quando não há banheiro

Então, o que fazer quando realmente não existe sanitário? O Não Deixe Rastros recomenda duas alternativas principais.

Opção 1: usar um buraco sanitário (cova pequena) e cobrir

A primeira opção é abrir uma pequena cova no solo (um “buraco sanitário”), evacuar dentro dela e, ao terminar, cobrir bem. Se for difícil acertar diretamente no buraco, não há problema: evacue ao lado e, depois, coloque o material dentro da cova.

Esse método é indicado quando é possível cavar aproximadamente a profundidade do comprimento da sua mão, quando o solo húmido sugere que o material enterrado vai decompor-se e quando cavar não tende a danificar ambientes frágeis.

Para reduzir o risco de contaminação da água e diminuir a chance de outra pessoa encontrar os resíduos, mantenha uma distância de cerca de 60 metros de qualquer curso de água, trilha ou acampamento.

Em geral, o papel higiénico pode ser deixado dentro do buraco sanitário, mas confirme a regra local; se não for permitido, leve-o consigo num saco vedável. Nunca abandone lenços humedecidos: eles não se biodegradam.

Hoje, empresas de equipamentos outdoor fabricam pás leves específicas para abrir buracos sanitários. Mesmo assim, há locais em que cavar é difícil - ou praticamente impossível - por causa de neve, solo congelado, camada de terra muito rasa ou rocha exposta, além de áreas em que não se recomenda deixar resíduos humanos por razões ambientais.

Esses cenários incluem, normalmente, zonas de alta montanha acima da linha das árvores, ambientes alpinos com flora delicada e de crescimento lento, e desertos e outras regiões áridas com baixa humidade no solo.

Opção 2: levar tudo de volta (fezes e papel) para descarte adequado

Em lugares como esses, o melhor é retirar totalmente as fezes e o papel higiénico e descartá-los num local apropriado, como uma lixeira no início da trilha ou até mesmo em casa. Antes de reagir com nojo, vale lembrar: tutores de cães fazem isso rotineiramente quando passeiam com os animais.

Para esse fim, existem kits de sacos de recolha com gel (sacos com agente gelificante e desodorizante) feitos para transportar dejetos. Em geral, incluem um saco interno e outro externo, além de um material que ajuda a reduzir odor e a evitar vazamentos.

A nossa investigação atual, assim como um estudo recente com utilizadores de parques na Noruega, mostrou que as pessoas estão dispostas a usar esses kits.

No nosso estudo, entre quem evacuou durante a caminhada até o cume do Monte Elbert, 30% usaram um saco de recolha com gel para retirar os dejetos da montanha, e 87% afirmaram que estariam dispostos a usar um numa próxima viagem.

Esses resultados indicam que, com as ferramentas certas e informação clara, muitas pessoas aceitam fazer o que é correto - e que é viável ensinar, de forma eficaz, como cuidar melhor dos nossos espaços naturais.

Shari Edelson, doutoranda em Gestão de Recreação, Parques e Turismo, Universidade Estadual da Pensilvânia; e B. Derrick Taff, professor associado de Gestão de Recreação, Parques e Turismo, Universidade Estadual da Pensilvânia.

Este artigo foi republicado de uma publicação jornalística sob uma licença Commons Criativa. Leia o artigo original.

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