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Barril a 200 dólares se aproxima: por que declaração de Trump pode causar crise global?

Barril de petróleo derramando óleo sobre mapa mundial em sala com telas de monitoramento ao fundo.

Uma frase do presidente dos Estados Unidos voltou a acender o pavio do mercado de petróleo.

O barril do Brent, referência global para o setor petrolífero, disparou novamente nesta segunda-feira, 30 de março, e, no momento em que este texto foi escrito, era negociado por volta de US$ 115. O movimento reflete o temor de investidores diante da possibilidade de uma intervenção terrestre dos EUA no Irã - e, desta vez, Donald Trump não fez questão de afastar essa leitura.

Segundo o Financial Times, ao ser questionado sobre o tema, Trump afirmou considerar a hipótese de “tomar o petróleo” iraniano por meio da captura do terminal petrolífero na ilha de Kharg. Na avaliação do republicano, uma operação desse tipo poderia ocorrer “com muita facilidade”.

Declarações como essas aumentam a credibilidade de um cenário que, se evoluir, tende a piorar um quadro regional já altamente instável. Citado pelo Le Monde, o analista Tamas Varga, da PVM Energy, observa que um desfecho antes visto como improvável pode deixar de ser mera especulação:

Se os Estados Unidos lançassem uma invasão terrestre do Irã, ou se Teerã intensificasse ataques de retaliação contra infraestruturas de energia ou fechasse completamente o estreito (de Ormuz, nota do editor), projeções de um barril de petróleo a US$ 200 (ou 173,61 euros) deixariam de parecer absurdas.

Essa possibilidade, aliás, vem sendo explorada há tempo pela comunicação oficial iraniana. A Euronews relembra que, no domingo, 1º de março, um porta-voz do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica advertiu que, se as “ações covardes e anti-humanas” continuassem, o mundo deveria se preparar para uma escalada expressiva dos preços, que poderia chegar a US$ 200 por barril.

Barril a US$ 200: por que o petróleo do Irã e o estreito de Ormuz podem virar uma crise económica

Mais tarde, o porta-voz do quartel-general do comando militar iraniano, Khatam al-Anbiya, reforçou o mesmo recado e deixou um aviso direto:

“Preparem-se para um aumento massivo do preço do barril de petróleo. Preparem-se para que o barril de petróleo chegue a 200 dólares, porque o preço do petróleo depende da segurança regional que vocês desestabilizaram.”

Em outras palavras, o Irã aposta deliberadamente na desestabilização da economia global, na expectativa de que o custo económico e político de uma escalada faça Donald Trump e os seus aliados cederem - e acelere o fim do conflito.

O problema é que, para a população em geral, esse caminho seria devastador. Se o mercado alcançasse esse patamar, a crise energética seria inédita e atingiria em cheio a economia mundial.

Na prática, o impacto no dia a dia poderia ser severo. Em entrevista recente à BFM Business, Guillaume Dard, presidente da gestora Montpensier Arbevel, descreveu diferentes cenários para o orçamento de uma família (um casal com dois filhos), com base na trajetória do Brent:

Se ficarmos no cenário atual de US$ 90 (Brent, nota do editor) e isso durar pouco, para um casal com dois filhos, o custo é de 50 euros. Se isso se estender por alguns meses com o petróleo em US$ 110–120, com efeito sobre os preços da energia - porque isso também puxa o gás - e sobre alimentos (fertilizantes), o impacto pode chegar a 150 euros por mês.

Na sequência, ele mencionou o pior desfecho possível:

Se tivermos o cenário catastrófico, com o fechamento do estreito de Ormuz e o petróleo a US$ 150 por barril, isso representa 400 euros por mês para essa mesma família.

É um risco que, idealmente, pode ser evitado - mas que o mercado não ignora quando o discurso político aponta para a escalada e quando gargalos logísticos estratégicos, como Ormuz, entram no radar.

No Brasil, um choque desse tipo tende a aparecer rapidamente em combustíveis (gasolina e diesel), com repasses em cadeia para fretes, transporte público, preços de alimentos e expectativas de inflação. Mesmo com particularidades locais - como a mistura obrigatória de biocombustíveis e a dinâmica de repasse ao consumidor - uma escalada do Brent geralmente pressiona custos em praticamente toda a economia.

Também vale acompanhar como fatores paralelos podem amplificar (ou amortecer) a subida: mudanças de produção entre grandes exportadores, condições de seguro e risco para navegação em rotas sensíveis, e o próprio comportamento de estoques globais. Em momentos de tensão, a volatilidade costuma crescer porque o preço passa a incorporar não só oferta e procura, mas também um “prémio de risco” associado a eventos geopolíticos.

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