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Retomada das Ilhas Malvinas: como atuou o Batalhão de Veículos Anfíbios da Infantaria da Marinha argentina

Soldados com capacetes em veículos blindados anfíbios na praia com colinas ao fundo.

A preparação e o alistamento para a recuperação das Ilhas Malvinas exigiram a montagem de uma engrenagem operacional complexa, na qual o desempenho de diferentes unidades seria decisivo para cumprir as metas estabelecidas. Como o centro de gravidade da operação estava pensado para um desembarque a partir de meios navais, tornou-se indispensável que o Batalhão de Veículos Anfíbios (BIVH) da Infantaria de Marina argentina tivesse pessoal e material no melhor estado possível.

Alistamento do Batalhão de Veículos Anfíbios (BIVH) para as Ilhas Malvinas

No início de 1982, o BIVH operava dois tipos de viaturas: os Veículos Anfíbios de Lagarta (VAO) FMV LVTP-7 e os Veículos Anfíbios de Rodas (VAR) Condec LARC V. Eram plataformas relativamente recentes, adquiridas e incorporadas à Infantaria de Marina nos primeiros anos da década de 1970. Ainda assim, apesar de modernas para o período, já apresentavam desgaste e pendências técnicas - em grande parte porque, nos anos anteriores, haviam surgido dificuldades para assegurar o fluxo regular de peças de reposição.

Foi o próprio comandante do que viria a ser a Unidade de Tarefas 40.1, o Contra-almirante (Infantaria de Marina) Carlos Büsser, quem verificou pessoalmente a situação do Batalhão. No artigo “Reflexões e Experiências sobre a Recuperação das Ilhas Malvinas”, publicado no Boletim do Centro Naval nº 816, ele registrou:

“...visitei essa unidade nos primeiros dias de janeiro. Informaram-me que 12 dos 21 veículos de lagarta com que contávamos estavam em condição ‘operativa restrita’, isto é, funcionavam, mas apresentavam alguma limitação menor. Os demais deveriam ser reparados dentro do plano anual de tarefas que ainda não havia entrado em execução. Algo semelhante ocorria com os veículos anfíbios de rodas...”

Com o objetivo de colocar a unidade em condições e eliminar as pendências antes da recuperação das Ilhas Malvinas, Büsser descreveu a orientação que transmitiu ao comando do BIVH:

“...indiquei ao comandante do Batalhão que eu queria que, até 31 de março, a totalidade dos veículos anfíbios estivesse em condição operacional, com tripulações adestradas para todos eles. O que não expliquei foi o motivo dessa ordem. Pedi que naquela tarde me apresentasse suas necessidades de créditos e reforço de pessoal - mecânicos e tripulantes - para dispor de guarnições treinadas em cada veículo. Ele cumpriu a ordem, formulando um pedido que me pareceu folgado, porém razoável, dado o modo como eu havia feito a solicitação...”

Além do esforço de manutenção e recuperação técnica, houve um componente igualmente sensível: treinar tripulações completas para cada viatura, garantindo que a disponibilidade não fosse apenas “mecânica”, mas também operacional, com condutores, comandantes de viatura e equipes habituados aos procedimentos de navegação, desembarque e progressão em terra. Em operações anfíbias, a prontidão depende tanto da confiabilidade do material quanto da disciplina de embarque, do controle de colunas e da coordenação com as frações desembarcadas.

Também pesou a realidade logística: sem uma cadeia estável de sobressalentes, tornou-se necessário priorizar intervenções, canibalizar componentes e organizar o uso dos meios de modo a reduzir falhas durante a travessia e, principalmente, no momento crítico da aproximação à praia. Esse tipo de decisão, comum em cenários de restrição de recursos, tende a influenciar diretamente o ritmo de emprego e a margem de segurança do plano.

Embarque, desembarque e ações iniciais

Concentrando-se em recuperar e preparar VAO e VAR, o efetivo do BIVH conseguiu, até 27 de março, disponibilizar duas Seções completas de LVTP-7. Essas Seções foram complementadas por um grupo de comando composto por um LVTP-7 na versão VAOC (veículo de comando) e um Veículo de Apoio.

Os meios anfíbios da Infantaria de Marina foram embarcados no Navio de Desembarque de Tanques ARA “Cabo San Antonio” (Q-41). No arranjo de estiva, os LVTP-7 ocuparam a bodega, enquanto a maior parte dos LARC V ficou acomodada no convés, junto de outros veículos.

Na manhã de 2 de abril, pouco depois das 06h00, a primeira onda de assalto do Batalhão - sob comando do TNIM Mario D. Forbice - iniciou o desembarque. Essa vanguarda era formada por quatro VAO, transportando quase uma centena de fuzileiros navais e militares do Regimento de Infantaria 25, com seu equipamento e armamento. Ao tocar terra, as viaturas anfíbias seguiram em direção ao aeroporto.

Em paralelo, a bordo do “Cabo San Antonio”, começaram as manobras para o lançamento dos VAR, que conduziam pessoal e materiais do Batalhão de Artilharia de Campanha nº 1.

No desenrolar das ações subsequentes, os VAO alcançaram o aeroporto - ponto onde o Tenente-coronel Mohamed Alí Seineldín desembarcaria com 25 homens - e então prosseguiram rumo ao povoado. Esse avanço ocorreu com incidentes: tanto as viaturas quanto os combatentes argentinos abriram fogo contra diferentes posições defensivas organizadas pelos Royal Marines britânicos.

Apesar da resistência apresentada, os defensores não conseguiram sustentar as posições diante do poder de fogo empregado pelos infantes argentinos e pelos VAO LVTP-7. Com a capitulação das autoridades britânicas, VAO e VAR avançaram para dentro da localidade, registrando as imagens mais conhecidas associadas à recuperação das Ilhas Malvinas.

Concluídas as operações, o Batalhão reembarcou no BDT ARA “Cabo San Antonio” em 3 de abril, com a percepção de ter cumprido uma missão histórica. A unidade chegou ao seu destino em 7 de abril.

Características dos veículos anfíbios do BIVH: VAO LVTP-7 e VAR LARC V

A família de veículos anfíbios LVTP-7 começou a ser projetada na década de 1960, incorporando as lições de combate dos LVTP-5. O primeiro protótipo, chamado LVTPX12, apareceu em 1967, com estrutura em alumínio 5083. A motorização era um diesel General Motors 8V53T, capaz de desenvolver 400 hp a 2.800 rpm, associado à transmissão HS-400.

Na configuração inicial, o veículo podia acomodar 24 tripulantes. A velocidade máxima em terra situava-se entre 64 e 72 km/h, e na água alcançava cerca de 15 km/h. O peso de combate era de 22.838 kg. A FMC fabricou aproximadamente 971 unidades do LVTP-7, às quais se somaram as duas variantes produzidas em série:

  • LVTC-7 (Comando): 85 unidades
  • LVTR-7 (Recuperação): 58 unidades

No fim de 1970, a Marinha adquiriu da empresa norte-americana FMC um total de 20 VAO LVTP-7.

Quanto aos VAR LARC V, a Marinha Argentina comprou 15 unidades (14 de transporte e 1 equipada com guindaste). Essas viaturas utilizavam um motor diesel Cummins V8-300, de 8 cilindros, capaz de fornecer potência máxima de 300 hp + 5 hp a 3.000 rpm. Com carga, o alcance em terra era estimado em pouco mais de 320 km; já em navegação, a autonomia caía para 56 km. Construídos em alumínio nº 5086 R32, os LARC V tinham 8,6 toneladas e podiam transportar 4.536 kg.

Resumo técnico (principais dados)

Item VAO FMV LVTP-7 VAR Condec LARC V
Tipo Lagarta Rodas
Material do casco/estrutura Alumínio 5083 Alumínio nº 5086 R32
Motor GM 8V53T (diesel) Cummins V8-300 (diesel)
Potência 400 hp a 2.800 rpm 300 hp + 5 hp a 3.000 rpm
Velocidade em terra 64–72 km/h -
Velocidade na água ~15 km/h -
Peso 22.838 kg (combate) 8,6 t
Capacidade 24 tripulantes 4.536 kg de carga
Autonomia - >320 km (terra, com carga) / 56 km (água)
Quantidade adquirida 20 15 (14 transporte + 1 com guindaste)

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