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Uma “guerra civil” acaba de começar no mundo animal: ataques mortais estão se tornando cada vez mais frequentes.

Grupo de chimpanzés com gravetos em floresta iluminada pelo sol.

Os primatas - sobretudo os grandes símios - não são estranhos a tensões e disputas. Ainda assim, pela primeira vez foi possível acompanhar, em detalhes, um caso em que uma comunidade se partiu por dentro e, depois disso, mergulhou em confrontos letais. A revista Science publicou um estudo baseado em anos de observação sistemática que descreve essa escalada.

No Parque Nacional de Kibale, no oeste de Uganda, vive a maior comunidade de chimpanzés (Pan troglodytes) já registrada em vida livre: o grupo de Ngogo, com cerca de 200 indivíduos, incluindo aproximadamente 30 machos adultos. Para primatólogos, esse tamanho excepcional pode ter funcionado como um gatilho importante para a guerra fratricida que se desenrolou ali.

Em 1995, os Ngogo formavam um conjunto coeso, ocupando o mesmo território e compartilhando as mesmas fontes de recursos. Esse padrão é comum entre chimpanzés, primatas sociais que normalmente recorrem à cooperação como estratégia de manutenção do grupo. Porém, em junho de 2015 - 25 anos depois - a comunidade havia se dividido em duas facções incompatíveis, os Ngogo do Oeste e os do Leste. O vínculo se rompeu a ponto de, por seis semanas, os dois subgrupos evitarem contato, e os acasalamentos pararem.

O trabalho, publicado em 9 de abril na Science, compila mais de 30 anos de dados coletados em campo. Liderada por Aaron Sandel, antropólogo evolucionista da Universidade do Texas em Austin, a pesquisa documenta, pela primeira vez, uma cisão interna seguida de um conflito prolongado entre dois subgrupos oriundos de uma mesma comunidade de chimpanzés. O que torna o caso ainda mais raro é a duração do acompanhamento: um cisma entre grandes símios jamais havia sido observado por um período tão longo.

Um ponto que ajuda a entender a força dessas conclusões é a forma de monitoramento. Como cada indivíduo é reconhecido ao longo do tempo, os pesquisadores conseguem reconstruir deslocamentos, ausências e mudanças sociais com precisão - algo indispensável para separar desaparecimentos “normais” (doença, acidentes) de eventos possivelmente violentos.

Também vale notar que uma divisão territorial desse tipo tem implicações diretas para conservação. Em áreas protegidas como Kibale, facções rivais disputando o mesmo espaço podem aumentar o stress do grupo, alterar rotas de forrageamento e elevar riscos para filhotes, o que afeta a dinâmica populacional mesmo quando o habitat permanece relativamente preservado.

Dos aliados aos adversários: o colapso da comunidade de chimpanzés de Ngogo

Há um aspecto cientificamente marcante: não houve uma “declaração formal” de guerra dentro do grupo, e os pesquisadores ainda tentam compreender plenamente como a estrutura social pôde se desagregar dessa maneira. Com o passar do tempo, o quadro se deteriorou até 2017, ano em que o conflito realmente explodiu.

Mesmo sendo menor, o grupo do Oeste foi o primeiro a atacar, ferindo gravemente o macho alfa do grupo do Leste. Já em 2018, apenas um ano depois, ficou evidente que as duas bandas não dividiam mais nada - e isso se refletiu, sobretudo, no acesso a recursos alimentares. Entre chimpanzés, compartilhar a mesma fonte de comida é um sinal social fortíssimo: indica que o laço permanece inteiro e que ainda existe confiança mútua.

Antes habituadas a se alimentar nos mesmos figueiros, as fêmeas dos dois lados não voltaram mais a se encontrar nesses pontos - um indício de que a coesão que mantinha os Ngogo unidos desde a década de 1990 se desfez de forma definitiva.

A partir de 2021, os ataques passaram a mirar nascidos e filhotes: os pesquisadores registraram indivíduos do Oeste roubando e matando 14 pequenos do outro grupo.

Entre 2018 e 2024, o Oeste eliminou, em média, um macho adulto e dois filhotes por ano. Esse nível de letalidade excede com folga o que costuma ser medido em confrontos entre duas comunidades diferentes. E há uma diferença crucial: ao contrário de grupos que podem migrar, as facções de Ngogo brigam pelo mesmo território, que nenhuma delas aceita abandonar.

Em paralelo às agressões, cerca de uma dúzia de machos do Leste simplesmente desapareceu - um dado especialmente intrigante neste contexto. Como essa comunidade vem sendo acompanhada indivíduo por indivíduotrês décadas, os cientistas conhecem seus padrões de deslocamento e, quando ocorre uma morte natural, o corpo costuma ser localizado. Como isso não aconteceu nesses 12 casos, a explicação considerada mais plausível é direta: eles foram mortos fora do território e seus cadáveres nunca foram recuperados.

O vazio semântico no campo de batalha de Ngogo

As dinâmicas relacionais talvez desempenhem um papel causal mais importante nos conflitos humanos do que geralmente se admite”, conclui Sandel. Vindo de um antropólogo - e não de um primatólogo -, o comentário soa provocador porque recoloca em pauta o modo como o ser humano se relaciona com a guerra.

Até que ponto as nossas próprias disputas, que muitas vezes atribuímos a causas políticas, estruturais, ideológicas ou étnicas, não nascem primeiro do enfraquecimento do vínculo entre pessoas dentro de uma mesma sociedade? Os casus belli frequentemente ganham bandeiras e justificativas construídas depois, como se fossem um revestimento civilizacional ou dogmático - algo que, em termos de dinâmica social, lembra muito a fratura observada no grupo Ngogo.

A ideia não é cravar que eles agiram como humanos, nem que nós continuamos, em certos momentos, a agir como chimpanzés (ainda que). O ponto é outro: a capacidade de organizar a violência parece ser uma competência compartilhada entre as duas espécies. Se primatas sem construções conceituais elaboradas e sem escrita são capazes de ações tão próximas das nossas em intenção e efeito, o que isso revela, afinal, sobre o peso real das nossas ideologias?

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