Num ano em que a Peugeot celebrou 210 anos, seria fácil imaginar um clima só de festa. Ainda assim, para quem gosta de carro de verdade - daqueles que se guiam com as mãos e com o coração - há uma notícia que inevitavelmente pesa: com o fim da produção do Peugeot 308 GTI, a sigla GTI parece ter chegado ao fim na marca francesa.
E é impossível falar disso sem recuar a 1984, quando nasceu o lendário (quase mítico) 205 GTI - para muitos, o melhor hot hatch de sempre - e que deixou uma sombra enorme sobre todos os que vieram depois. A boa notícia é que, ao contrário do que tantas vezes acontece, o último GTI da Peugeot foi um encerramento à altura do nome.
Teve uma carreira relativamente discreta, é verdade - e nem a pintura bi-tom “coupe franche” lhe deu o destaque que merecia -, mas não restem dúvidas: o 308 GTI foi um dos hot hatch mais bem afinados dos últimos anos. E não precisou de ir atrás de recordes no “inferno verde” para provar isso.
O último dos GTI na Peugeot
O Peugeot 308 GTI chamou a atenção pela sua massa contida, de apenas 1280 kg (EU), um verdadeiro peso-pluma entre os rivais - praticamente todos acima dos 1400 kg -, e por apostar num motor também “comedido”: 1,6 l com turbocompressor.
Mas menor não significa mais fraco. Este 1600 sobrealimentado, estreado no RCZ-R, foi muito bem “espremido” pela marca francesa, recebendo pistões forjados em alumínio da Mahle, um novo turbo twin scroll e um novo coletor de escape. O resultado: 270 cv às 6000 rpm (263 cv com filtro de partículas, adicionado a partir de outubro de 2018) e 330 Nm às 1900 rpm (340 Nm às 2100 rpm pós-filtro de partículas) - nada mau para um mil e seiscentos…
Sempre e apenas com caixa manual de seis velocidades, o 308 GTI anunciava 6,0s para chegar aos 100 km/h e 250 km/h de velocidade máxima - números que, mesmo em 2020 e já fora de cena, continuavam bem atuais.
Mas não foram as fichas técnicas que fizeram a crítica render-se a este hot hatch. Para lá dos atributos mecânicos, foram a dinâmica e a forma como ele envolvia o condutor que colocaram o 308 GTI num patamar acima da média.
O Peugeot 308 GTI era (e é) uma máquina essencialmente analógica - e muito bem calibrada para isso. A suspensão era passiva - 11 mm mais perto do solo, com casquilhos, amortecedores e molas específicos a garantir um acerto mais firme, mas também mais eficaz -, trazia um diferencial autoblocante Torsen - 100% mecânico -, e usava borracha mais “pegajosa” a envolver jantes de 19″.
A aderência não era problema - dava até para acelerar mais cedo à saída das curvas do que seria expectável -, mas o que realmente se destacava era a ajustabilidade do chassis quando a estrada apertava: o eixo traseiro entrava em ação, rodava o suficiente e ajudava a frente a voltar a apontar para o sítio certo - um deleite… Destaque também para os travões potentes - e grandes, com discos dianteiros de 380 mm de diâmetro -, com excelente tato e mordacidade.
Tudo o que é bom, tem um fim
Apesar de tão elogiado, o 308 GTI acabou por passar despercebido para muitos, infelizmente, com outros hot hatch a roubarem o protagonismo, como o “novo puto do bairro”, o Hyundai i30 N, ou o dominador Honda Civic Type R. São máquinas fenomenais por mérito próprio, mas acabaram por empurrar o também excelente 308 GTI para um certo esquecimento.
Agora, no entanto, fecha-se mesmo o capítulo do 308 GTI, cinco anos depois de o termos conhecido. No dia 2 de dezembro de 2020, o último dos GTI na Peugeot, o 308 GTI, saiu das instalações da marca em Sochaux.
É um exemplar branco, que já tem dono à espera, e não só é o último GTI da Peugeot, como também um dos poucos 308 GTI produzidos já com o novo i-Cockpit (painel digital) recebido na última atualização da gama 308 - a produção arrancou apenas em setembro de 2020.
E assim termina, com máscara e tudo (afinal, era 2020…), a saga GTI na Peugeot. E agora, o que vem a seguir?
PSE, desportivo à la séc. XXI
PSE (Peugeot Sport Engineered) são as iniciais que vão identificar os Peugeot mais desportivos. O primeiro que iremos conhecer será o novo 508 PSE, já revelado nas páginas da Razão Automóvel, mas existem planos para mais, incluindo um 308 PSE que sucederá ao 308 GTI.
Podemos lamentar o fim da sigla GTI na Peugeot, mas por outro lado é de saudar que a marca francesa tenha criado uma nova assinatura para os seus modelos de maior performance - até porque serão propostas bem diferentes das que conhecíamos. Os futuros PSE serão híbridos plug-in, ou seja, vão combinar motores de combustão com motores elétricos, garantindo o desempenho pretendido.
O 508 PSE abre as hostilidades com 360 cv, prevendo-se pelo menos 300 cv para o 308 PSE. Mas mais do que estes números mais generosos, o essencial é que, tal como no 308 GTI, independentemente da designação ou do caminho para lá chegar, se preserve uma dinâmica apurada e uma experiência de condução entusiasmante… ou será eletrizante?
Sobre o “O Último dos…”. A indústria automóvel atravessa o seu maior período de mudança desde que o automóvel… foi inventado. Com mudanças significativas constantemente a acontecer, com esta rubrica pretendemos não perder o “fio à meada” e registar o momento em que algo deixou de existir e passou à história para (muito provavelmente) nunca mais voltar, seja na indústria, numa marca, ou até num modelo.
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