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Exame de sangue com p-tau217 pode sinalizar risco de demência até 25 anos antes dos sintomas

Mulher recebendo injeção no braço em consulta médica com ilustração de cérebro no fundo.

Os testes de diagnóstico têm avançado na detecção dos sinais mais precoces de demência - e um novo estudo indica que uma simples amostra de sangue pode ajudar a reconhecer quem tem maior probabilidade de desenvolver o problema, cerca de 25 anos antes do aparecimento dos sintomas.

Em doenças como a demência, receber um alerta antecipado é essencial. Isso abre espaço para implementar estratégias preventivas, organizar suporte e cuidados com antecedência e também permite que cientistas investiguem, com mais tempo, os processos biológicos envolvidos.

Como o estudo foi feito com o biomarcador p-tau217 para demência

Na pesquisa, conduzida por uma equipa de instituições dos Estados Unidos, foram examinadas amostras de sangue de 2.766 mulheres com idades entre 65 e 79 anos. Quando o sangue foi colhido, na década de 1990, todas as participantes estavam cognitivamente saudáveis. Depois disso, as capacidades cognitivas delas foram acompanhadas ao longo do tempo, por até 25 anos.

O foco dos investigadores foi uma proteína medida no sangue chamada tau fosforilada 217 no plasma (p-tau217). Concentrações mais elevadas desses fragmentos já foram associadas a emaranhados da proteína tau no cérebro - uma marca característica da doença de Alzheimer e de outras formas de demência.

“Biomarcadores medidos no sangue, como a p-tau217, são especialmente promissores porque são muito menos invasivos e potencialmente mais acessíveis do que exames de imagem cerebral ou testes do líquido da espinha”, afirma a neurocientista Linda McEvoy, do Kaiser Permanente Washington Health Research Institute.

“Isso é importante para acelerar a investigação sobre os fatores que influenciam o risco de demência e para avaliar estratégias que possam reduzir esse risco.”

O que os níveis de p-tau217 indicaram ao longo de 25 anos

Os cientistas identificaram uma associação forte entre níveis mais altos de p-tau217 no sangue e uma maior probabilidade de desenvolver tanto comprometimento cognitivo leve (CCL) quanto demência. Isso não significa que a pessoa inevitavelmente terá demência, mas a p-tau217 parece funcionar como um biomarcador útil.

O exame de sangue com p-tau217 não é novidade e já apareceu em vários estudos anteriores. O diferencial desta investigação foi o tempo de acompanhamento incomum (até 25 anos) e a apresentação dos resultados com recortes por raça e por uso - ou não - de terapia hormonal.

Terapia hormonal (estrogénio/estrogênio e progestina) e p-tau217

Entre as participantes que usaram terapia hormonal, os resultados não foram uniformes. A p-tau217 elevada previu demência de forma clara nas mulheres que tomaram estrogênio e progestina, mas não naquelas que usaram apenas estrogênio. Já para o CCL, não surgiu uma relação nítida entre p-tau217 e o uso de terapia hormonal.

Diferenças por raça nos resultados de p-tau217, CCL e demência

Ao observar raça, a ligação entre p-tau217 alta e demência apareceu tanto em mulheres brancas quanto em mulheres negras. Porém, entre as mulheres negras, não foi encontrada associação entre níveis elevados de p-tau217 e CCL. Os autores levantam a hipótese de que isso possa ocorrer por erro de diagnóstico ou porque, em mulheres negras, a demência pode ter fatores contribuintes diferentes.

“Também é possível que diferenças raciais nessas associações surjam de diferenças em demografia, comorbidades e outras características entre mulheres negras e brancas que não conseguimos controlar completamente e do menor tamanho de amostra em mulheres negras em comparação com mulheres brancas”, escrevem os investigadores no artigo publicado.

Idade, gene APOE ε4 e força da associação

Os autores também verificaram que a relação entre p-tau217 elevada e demência foi mais forte em mulheres com mais de 70 anos e naquelas que carregavam o gene APOE ε4, já associado anteriormente à doença de Alzheimer.

Ainda não é um teste de rastreio, mas ajuda a entender o início da doença

Embora o exame sanguíneo de p-tau217 ainda não esteja pronto para rastrear a população em geral - serão necessários mais estudos antes disso -, os resultados desta investigação representam mais um avanço para compreender como a doença de Alzheimer e a demência, de modo geral, começam e como podem vir a ser interrompidas.

“Esses resultados reforçam ainda mais as evidências crescentes de que medir p-tau 217 no sangue pode ser uma forma importante de rastrear pessoas com maior risco de demência, anos antes de um diagnóstico ser feito”, diz o neurologista Masud Husain, da Universidade de Oxford, que não participou do estudo.

Como os dados mostram, níveis altos de p-tau217 nem sempre evoluem para demência, mesmo quando mudanças cerebrais ligadas à tau provavelmente já se iniciaram. Entender por que isso acontece pode ser um dos caminhos para pesquisas futuras.

“O nosso estudo sugere que podemos identificar mulheres com risco elevado de demência décadas antes de os sintomas surgirem”, afirma o epidemiologista Aladdin Shadyab, da Universidade da Califórnia, em San Diego.

“Esse longo tempo de antecedência abre espaço para estratégias preventivas mais cedo e para um acompanhamento mais direcionado, em vez de esperar até que problemas de memória já estejam a afetar a vida diária.”

A pesquisa foi publicada na JAMA Network Open.

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