O Renault Emblème está longe de ser só mais um protótipo com visual futurista e ideias diferentes. Ele funciona, acima de tudo, como uma mensagem clara da marca francesa, que se recusa a “jogar a toalha”.
É verdade que a indústria automotiva está “condenada” à eletrificação total - hoje quase não sobram dúvidas sobre isso. Mas o percurso até esse destino não precisa ser único. Por esse motivo, mesmo já oferecendo uma gama ampla de elétricos a bateria, a Renault continua buscando alternativas para o que vem pela frente.
Dentro dessa lógica, o Emblème se destaca: é um híbrido que combina eletricidade e hidrogênio para entregar cerca de 1000 km de autonomia, sem nenhuma emissão pelo escapamento.
A fabricante francesa leva esse projeto tão a sério que não se limitou a montar um show car. Esse “laboratório sobre rodas” existe no mundo real - e está pronto para rodar.
Tanto que, recentemente, pegamos carona com o protótipo em um dos muitos centros de testes que a Renault mantém ao redor do mundo. Ainda não foi desta vez que conseguimos sentar ao volante, mas seguimos no segundo melhor lugar possível: o “banco do passageiro”.
Renault Emblème: bateria ou fuel cell a hidrogênio? As duas
Antes de contar como foi rodar pela primeira vez no Renault Emblème, vale entender o conjunto mecânico que sustenta o conceito - afinal, esse é um de seus trunfos centrais.
Na prática, o Emblème é essencialmente um carro elétrico. Ele traz um motor traseiro com 160 kW, ou 218 cv. Pela potência, tudo indica que seja o mesmo conjunto usado, por exemplo, no Renault Scenic E-Tech e no Megane E-Tech.
A diferença é que, em vez de depender apenas de uma bateria - aqui, com química NMC e 40 kWh -, esse motor elétrico também pode ser “alimentado” por uma pilha de combustível de 30 kW, apoiada por um tanque de hidrogênio com 2,8 kg de capacidade.
Essa não é a primeira vez que a Renault coloca esse tipo de ideia na rua. Em 2022, a marca revelou o Scenic Vision, que já adotava uma cadeia cinemática muito parecida.
Como era de se esperar, o Scenic acabou chegando à produção sem essa solução, tornando-se 100% elétrico e exclusivamente a bateria. Ainda assim, a Renault não abandonou o conceito - e decidiu reaproveitá-lo no Emblème.
O motivo, segundo a visão da marca, é simples: combinar as duas abordagens ajuda a aliviar um dos maiores problemas dos elétricos atuais, o peso. Para obter grande autonomia, são necessárias baterias maiores - e isso significa mais massa e mais tempo de recarga.
Com essa tecnologia, o Emblème consegue percorrer algumas centenas de quilômetros com uma bateria menor, enquanto a pilha de combustível a hidrogênio adiciona cerca de 350 km de autonomia, com reabastecimento em menos de cinco minutos.
De volta ao futuro
Infelizmente, neste primeiro contato com o Emblème, o protótipo estava rodando apenas com a bateria de 40 kWh - ou seja, na prática, comportava-se como um elétrico convencional. Por isso, não dá para medir, na vida real, o que essa arquitetura híbrida pode entregar.
Por outro lado, dá para descrever a sensação de estar em um protótipo que parece ter saído direto de um filme de ficção científica. E a experiência começa antes mesmo de entrar: a carroceria é grande e imponente, com 4,80 m de comprimento.
O formato de shooting brake chama atenção de imediato, com sinais claros de preocupação aerodinâmica. Limpadores de para-brisa ocultos, câmeras no lugar dos retrovisores e maçanetas embutidas deixam isso evidente. As rodas quase totalmente fechadas também seguem a mesma lógica.
Ao abrir a porta, além do contraste entre materiais reciclados e superfícies minimalistas, fica claro que o pacote tecnológico faz muitos Renault atuais parecerem de outra geração.
Além da já esperada tela central - posicionada como se estivesse sobre uma superfície transparente -, o destaque é um painel panorâmico curvo com resolução 8K e 1,20 m de largura, atravessando todo o painel. É um interior difícil de ignorar, que privilegia interações por voz e gestos.
Uma boa surpresa ao rodar
Mesmo sem ter dirigido o Emblème e com este primeiro contato limitado a “meia dúzia” de quilômetros, em ambiente controlado no Centro Técnico da Renault em Aubevoye, nos arredores de Paris, as impressões iniciais foram animadoras.
Para um protótipo, surpreendeu a suavidade de funcionamento do Emblème, assim como a sensação de robustez, o bom isolamento acústico e o nível de refinamento do conjunto. É claro que alguns acabamentos ainda estão bem crus e certos materiais parecem provisórios, mas, em termos de conforto ao rodar, a base deste concept já se mostrou muito sólida.
Como eu disse no começo, este protótipo foi construído para ser testado no mundo real - e isso fica evidente assim que ele começa a andar.
Todos os detalhes contam
Mais do que as sensações em movimento e os “truques” da cadeia cinemática, o Emblème deixa claro que existe outra forma de pensar o automóvel: mais eficiente, mais sustentável e com menor impacto sobre o planeta.
Um dos pontos mais relevantes está nos materiais. O Renault Emblème adota componentes reciclados e recicláveis, escolhidos não apenas pela durabilidade, mas também pelo baixo impacto ambiental.
A própria forma de construção segue uma lógica de produção mais limpa, apoiada em economia circular. Um exemplo é o poliéster reciclado aplicado nos bancos e no revestimento do piso. Outro caso está nos faróis, que usam lentes Fresnel e, por isso, exigem menos 80% de material em comparação com faróis convencionais.
E não para por aí. Quase todos os comandos tradicionais da cabine foram substituídos por botões escondidos sob a superfície (inclusive os controles para abrir e fechar os vidros). Já o painel de instrumentos é estofado com linho, eliminando a necessidade de materiais que geram resíduos.
As rodas, com 16,5 kg cada, são feitas de alumínio com 70% de origem na economia circular. Enquanto isso, o limpador de para-brisa, desenvolvido pela Valeo, traz um sistema inovador sem escovas e com diversos componentes produzidos por impressão 3D, permitindo uma redução de CO2 (nesse componente) na casa de 60%.
O que esperar?
No fim das contas, as preocupações do Emblème vão muito além do que se encontra em um carro convencional. O protótipo permite que a Renault siga acumulando aprendizados sobre um sistema motriz que, pelo menos no papel, parece promissor - e, ao mesmo tempo, ajuda a empurrar os limites de diversos componentes que fazem parte de um automóvel.
Neste momento, ainda é difícil cravar quais soluções ou tecnologias do Emblème chegarão à produção. Mas é quase certo que muitas ideias daqui vão influenciar os Renault do futuro. Disso não tenho dúvidas.
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