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Tradicional zoológico na Inglaterra fecha repentinamente para sempre.

Mulher segurando foto antiga ao lado de câmera e documentos, em frente a portão de ferro aberto.

Desde quase cinco décadas, um pequeno zoológico no condado inglês de Oxfordshire virou endereço certo para passeios em família e excursões escolares. Agora, a decisão está tomada: no fim de março, a história termina e os portões se fecham para sempre. O que poderia soar como nota de rodapé mexe com muita gente no Reino Unido - e levanta dúvidas sobre o destino dos animais, dos empregos e de um pedaço muito particular da cultura do cotidiano.

Um nome de lugar que aparece em muitos álbuns de família

O Heythrop Zoological Gardens, perto de Chipping Norton, nunca foi uma vitrine barulhenta do turismo britânico. Não era parque temático gigante, nem dependia de campanhas publicitárias agressivas. Muita gente chegava ao zoo por acaso: uma dica da creche, uma recomendação no portão da escola, ou aquela busca rápida por algo para fazer em dia de chuva.

Foi justamente dessa descoberta “despretensiosa” que, ao longo dos anos, nasceu um vínculo incomum. Visitas pontuais viraram tradição: excursões escolares na primavera, passeios de idosos de casas de repouso no outono, aniversários infantis com contato com animais. Crianças que viram ali a primeira girafa ou a primeira ave de rapina voltaram depois de adultas - agora segurando a mão dos próprios filhos.

A experiência não se apoiava em efeitos chamativos. Em vez de show permanente e som alto o tempo todo, o foco era a proximidade e as histórias por trás de cada encontro. Muitos visitantes lembram menos da “foto perfeita” atrás de um vidro e mais do instante em que um treinador, com calma, explicava quanto preparo, paciência e responsabilidade existem por trás de cada demonstração.

"Heythrop era, para muitos, um segredo bem guardado - discreto na divulgação, mas profundamente gravado na memória das famílias."

Heythrop Zoological Gardens: quase 50 anos de 1977 a março de 2026

O Heythrop Zoological Gardens foi fundado em 1977. Numa época em que zoológicos eram vistos principalmente como lazer, a instituição já puxava a conversa para educação e interações controladas. Em vez de depender de grandes multidões diárias, apostava em grupos organizados, dias abertos e experiências com animais mediante agendamento.

Essa fase chega ao fim no final de março de 2026. Em um comunicado público, a equipe confirmou o encerramento e agradeceu a visitantes, apoiadores e funcionários. A direção não apontou um motivo único e definitivo. Pessoas do setor mencionam uma combinação de custos em alta, regras mais rígidas, falta de profissionais e um cenário geral mais duro para parques menores.

  • Fundação: 1977 em Chipping Norton, Oxfordshire
  • Tempo de funcionamento: quase 50 anos
  • Perfil: combinação de zoológico, centro de treinamento e fornecimento de animais para produções de cinema e TV
  • Público: principalmente turmas escolares, famílias, casas de repouso e experiências com animais agendadas
  • Fechamento: fim de março de 2026

Com o encerramento, não desaparece apenas uma atração regional. Somem também rotinas que faziam parte da vida local: o passeio anual da escola, o projeto de “animais em sala de aula”, a visita de moradores de instituições de cuidado que iam rever “seus” bichos favoritos.

Mais do que um zoológico: um nome forte (e discreto) no audiovisual

O que diferenciava Heythrop de muitos outros parques acontecia longe dos dias de visitação. O espaço estava entre os maiores treinadores e fornecedores de animais para filmagens no Reino Unido. Animais dali apareceram em inúmeras produções - de séries de TV e comerciais a filmes internacionais.

Para quem visitava, isso criava um charme extra. Caminhar pelo parque não era só olhar recintos: era espiar um universo que geralmente fica restrito à tela. Nos bastidores, treinadores profissionais preparavam cenas para gravações, repetiam sinais, movimentos e sequências de ação.

Para muitas crianças, foi ali que ficou claro que “trabalhar com animais” pode ir além de veterinária ou vida no campo. Em visitas guiadas e encontros programados, a rotina de treinadores, tratadores, especialistas em comportamento e veterinários se tornava concreta.

"Heythrop era set e escola - não apenas para animais, mas também para pessoas que encontraram ali uma profissão ao lado deles."

Como funcionava uma visita ao Heythrop Zoological Gardens

Ao contrário de grandes zoológicos com horários regulares e grande fluxo diário, em Heythrop o acesso costumava acontecer por meio de:

  • dias abertos especiais com limite de visitantes
  • encontros com animais e visitas guiadas com reserva
  • programas para escolas e instituições de ensino
  • eventos como dias de fotografia ou tours temáticos

Os animais estavam acostumados a interações planejadas, o que aumentava o controle e a segurança - algo particularmente importante no contexto de produções audiovisuais. Para o público, isso deixava o ambiente mais tranquilo, mais próximo e, muitas vezes, mais pessoal do que uma passagem rápida por um mega-zoológico.

O que deve acontecer com os animais agora

Depois do anúncio, a pergunta mais urgente é sobre o futuro dos animais. Oficialmente, a equipe ainda não detalhou destinos específicos. Mesmo assim, quando um zoológico encerra atividades, existem procedimentos e padrões bem estabelecidos no setor.

Em geral, várias etapas correm ao mesmo tempo:

  • Levantamento do plantel: quais espécies estão no local, idade e condição de saúde
  • Realocação: busca por zoológicos licenciados, parques de vida selvagem ou centros especializados com condições adequadas de manejo
  • Planejamento de transporte: deslocamentos cuidadosos e apropriados, com veterinários e transportadoras experientes
  • Acompanhamento: adaptação a novos grupos, ajustes de alimentação e de ambiente

No Reino Unido, o órgão responsável fiscaliza o cumprimento das exigências da licença de zoológico. Os animais não podem simplesmente “sumir” nem ser colocados, de forma improvisada, em qualquer lugar. Para certas espécies - como grandes felinos, primatas ou aves sob proteção rigorosa - há autorizações adicionais.

Alguns animais bem treinados também podem ser encaminhados a centros especializados que seguem trabalhando com equipes de filmagem. Outros, ao que tudo indica, passarão a viver como residentes de zoológicos ou parques de conservação, inclusive em outros países europeus, desde que contratos e documentação permitam.

Choque entre fãs: um lugar familiar sai de cena

Nas redes sociais, ex-visitantes reagem com uma mistura de tristeza e saudade. Muita gente publica fotos das crianças em frente aos recintos, memórias de dias de projeto e relatos do animal tímido que, de repente, se aproximou da grade.

Para localidades menores como Chipping Norton, o fim de um espaço assim vai além da perda econômica. Some um ponto de encontro entre gerações. Professores precisam buscar novos destinos para excursões; associações e casas de repouso terão de encontrar outros parceiros para atividades semelhantes à terapia assistida por animais.

Além disso, existe um problema estrutural: zoológicos pequenos e médios, com proposta específica, vivem no “meio do caminho”. São grandes demais para funcionar como hobby, mas pequenos demais para disputar atenção com marcas gigantes de entretenimento. Aumento de energia, falta de mão de obra especializada, encarecimento de ração, investimentos obrigatórios em recintos e padrões de segurança empurram muitos até o limite.

Por que lugares assim deixam um vazio difícil de preencher

Grandes zoológicos em metrópoles atraem milhões de visitantes. Ainda assim, muitas vezes são as estruturas mais escondidas que marcam mais profundamente. Elas têm tempo para responder perguntas uma a uma, tratadores conversam com crianças, e alguns animais acabam “cruzando o caminho” do visitante mais de uma vez porque o espaço é mais compacto.

Esses lugares costumam ensinar, na prática:

  • o quanto a manutenção adequada de animais é exigente e cara
  • por que o treinamento com reforço positivo funciona
  • por que nem todo animal se adapta a qualquer tipo de apresentação
  • quais profissões existem por trás de um passeio que parece “simples”

Para crianças e adolescentes, isso pode mudar a forma de enxergar os animais por muito tempo. Quem vê quanto preparo sustenta uma aparição de dois minutos de um animal em um filme passa a assistir a blockbusters e séries com outro olhar. Os bichos deixam de parecer “enfeite” e passam a ser percebidos como seres vivos com necessidades - e, naquele contexto, como parte de um trabalho cuidadoso.

O que leitores brasileiros podem levar dessa história

Na Alemanha e em outras regiões de língua alemã, muitos zoológicos menores, parques de vida selvagem e fazendinhas educativas enfrentam desafios parecidos com os de Heythrop. Quem valoriza esse tipo de trabalho pode ajudar de modo concreto: visitando fora das férias, aderindo a apadrinhamentos, comprando passes anuais ou participando de visitas especiais. Até uma excursão escolar escolhida com intenção - indo a um espaço assim, e não a um shopping - já faz diferença.

Também vale olhar com atenção para o tema “animais de filme”. Muitas produções têm recorrido cada vez mais a efeitos digitais para evitar sofrimento animal. Quando animais vivos participam, regras rígidas e a exigência de trabalhar apenas com animais bem treinados e saudáveis ficam no centro. Lugares como Heythrop ajudaram a moldar essa evolução - e mostram como o equilíbrio entre espetáculo, viabilidade econômica e bem-estar animal continua sendo delicado.

A despedida em Oxfordshire deixa claro como lugares familiares podem desaparecer rapidamente. Para muitas famílias britânicas, Heythrop seguirá como parte da própria história. Para quem acompanha de fora, o fechamento serve de alerta para reavaliar o valor desses parques “escondidos” - antes que outra instituição, em silêncio, anuncie que no fim do mês o portão vai se fechar pela última vez.

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