É isso mesmo. As peças que, há 28 anos, deram forma ao Mercedes-Benz Classe E (geração W 210) seguem firmes e fortes do “outro lado” do Atlântico.
Elas continuam em uso no quase “imortal” Chrysler 300C, um modelo lançado em 2004 e que, mesmo depois de quase duas (!) décadas, ainda permanece em produção - com uma grande atualização feita em 2011.
No caminho, ele conseguiu um feito ainda mais raro para os dias atuais: atravessou praticamente ileso a revolução que vem transformando a indústria automotiva.
A marca americana já se desligou há muito tempo da Mercedes-Benz, mas o DNA alemão segue presente nas “entranhas” desse sedã.
E, para quem presta atenção, ele não é exatamente um desconhecido. Talvez você se lembre de que esse carro já foi vendido na Europa. Nesse período, ele até trocou de identidade e foi comercializado como Lancia - sim, é isso mesmo - e agora, para 2023, vai receber a configuração mais forte de toda a sua história.
"Recapitulando: é um modelo americano, com genes alemães e que algures durante a sua vida transformou-se num modelo italiano na Europa. Obrigado globalização!"
Confuso, não é?
Para entender esse coquetel de componentes e soluções, vale voltar ao fim do século passado.
Em 1998, a Daimler - hoje Mercedes-Benz Group - teve a (infeliz) ideia de comprar a Chrysler Corporation, que naquele momento controlava as marcas Chrysler, Jeep e Dodge.
Digo “infeliz” porque, apesar das intenções positivas, as diferenças culturais entre as empresas falaram mais alto. Alemães e americanos, no fim das contas, não combinaram.
Já no começo deste século, a montadora norte-americana trabalhava na nova geração de seus modelos maiores e precisava com urgência de componentes mais modernos. A Mercedes-Benz acabou virando sua “tábua de salvação”.
Foi assim que, em 2004, nasceu um verdadeiro “Frankenstein” - numa referência ao personagem do romance de Mary Shelley - chamado Chrysler 300C: um carro que misturava partes do antigo Mercedes-Benz Classe E (W 210) e de outros modelos da estrela numa nova base criada pela Chrysler, a plataforma LX.
Componentes do Mercedes-Benz Classe E (W 210) no Chrysler 300C
Do W 210 e de outros Mercedes vieram itens fundamentais, aproveitados diretamente no 300C: a suspensão traseira multilink, o câmbio automático de cinco marchas e o diferencial traseiro, a coluna de direção, a eletrônica (ESP, controle de tração) e outros componentes menos aparentes.
Mesmo sem ser exatamente um catálogo de alta tecnologia, o primeiro 300C emplacou uma trajetória comercial bem-sucedida nos EUA e, por um curto período, também teve alguma relevância na Europa - muito por conta do V6 Diesel da, como você já imaginou, Mercedes. E ajudou bastante o desenho do carro, bastante elogiado na época.
Ainda assim, no panorama geral, a parceria Daimler-Chrysler nunca trouxe bons resultados. Depois de muitos milhões de dólares envolvidos (só em 2006, o prejuízo chegou a 1500 milhões de euros), os alemães se cansaram dos americanos e de queimar dinheiro - não sabemos do que é que se fartaram primeiro… - e, em 2008, anunciaram a venda da Chrysler.
Adeus Daimler, olá FIAT
Quem acompanhou de perto essas movimentações foi Sérgio Marchionne (1952-2018). O executivo que tirou a FIAT de uma quase inevitável bancarrota olhou para a Chrysler e enxergou potencial onde quase ninguém mais via.
Com a mudança de controle, o Chrysler 300C também passou por ajustes. Ele deixou de usar componentes da Mercedes-Benz? Não. Em 2011, chegou a segunda geração, ainda baseada na LX (que também evoluiu) e, deste lado do Atlântico, passou a ter outro nome: Lancia Thema.
Como era de se esperar, a Lancia não conseguiu decolar - quem diria… - do jeito que a direção da então Fiat Chrysler Automobiles (FCA) planejava. A ordem veio de cima: encerrar a marca Lancia e, por consequência, o Thema.
A Lancia reduziu sua atuação e sua gama a apenas um mercado e um modelo - Itália e Ypsilon, respectivamente -, mas o Chrysler 300C seguiu em linha, contrariando as previsões, sustentado pelo mercado norte-americano, onde o padrão de exigência tradicionalmente é menor do que o europeu.
Em 2021, os franceses do Grupo PSA (Peugeot Citroën), comandado pelo gestor português Carlos Tavares, fecharam uma fusão com a FCA, criando a “gigante” Stellantis.
Ou seja, desde sua estreia em 2004, o Chrysler 300C já atravessou três administrações: Daimler (Mercedes-Benz), FCA (Fiat) e Stellantis.
2023. O fim de linha para Chrysler 300C?
Se uma barata fosse um automóvel, talvez fosse um Chrysler 300C - aparentemente, o único ser vivo capaz de sobreviver a um holocausto nuclear. Uma resistência muito parecida com a desse modelo americano.
Ou talvez ele seja mais como uma borboleta: um inseto que nasce larva e, após uma rápida metamorfose, se transforma por completo em sua melhor versão. Essa comparação pode ser ainda mais precisa porque, em 2023 - muito provavelmente o último ano do 300C - vamos conhecer seu auge.
Para se despedir do modelo, a marca norte-americana - certamente com a aprovação de Carlos Tavares - prepara o 300C mais potente e mais radical de todos.
Essa edição final vem equipada com um motor HEMI V8 naturalmente aspirado de 6,4 l, entregando 492 cv (485 hp). E o 0-100 km/h? Apenas quatro segundos.
No acerto dinâmico, o eixo traseiro ganhou um diferencial autoblocante, e o sistema de freios recebeu um upgrade importante assinado pela Brembo. A produção será limitada a 2200 unidades.
"É por isso que nós sabemos que Carlos Tavares foi consultado. Se dependesse dos americanos, produziam mais 60 mil unidades."
Nesse momento de despedida, a Chrysler também presta homenagem ao primeiro 300C, lançado em 1955. Ele usava um motor V8 de 5,4 l e entregava 300 cv - era um dos carros mais rápidos de sua época.
De todo modo, impressiona a trajetória desse modelo: mesmo com tantas contrariedades e contra todas as expectativas, ele não apenas sobreviveu como chega ao seu “ato final” na melhor forma. E pouco importa que, sob a carroceria, ainda existam fragmentos do que um dia foi um Mercedes-Benz Classe E W 210.
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