A indústria automotiva da Europa e dos Estados Unidos está sob ameaça - e, segundo John Elkann, isso não acontece por falta de aviso. Presidente do conselho e diretor-executivo interino da Stellantis, ele fez críticas duras às regras de emissões consideradas “rigorosas demais” pela União Europeia e às tarifas classificadas como “dolorosas” nos Estados Unidos.
“As indústrias automotivas americana e europeia estão sendo colocadas em risco pelo atual caminho de tarifas dolorosas e regulamentações excessivamente rígidas”, declarou Elkann durante a assembleia anual de acionistas da Stellantis, em 14 de abril. O tom da cobrança foi firme.
O executivo afirmou que o contexto atual também ajuda a acelerar a expansão da concorrência chinesa, que cresce em ritmo acelerado e pode, pela primeira vez, superar as vendas dos mercados europeu e estadunidense. “Isso seria uma tragédia, porque a indústria automotiva é uma fonte de empregos, inovação e comunidades fortes”, destacou.
Pressão da eletrificação sobre a Stellantis na Europa
Na Europa, as críticas de Elkann se concentraram principalmente na pressão ligada à eletrificação. Segundo ele, a União Europeia está impondo “um caminho irrealista para a eletrificação, desconectado das realidades do mercado”.
Entre os exemplos citados, está o encerramento repentino dos incentivos à compra de veículos elétricos em vários países, medida que provoca efeitos imediatos nas vendas. Elkann também apontou a rede europeia de recarga, que, na avaliação dele, segue “inadequada”.
Para o presidente interino da Stellantis, esse cenário dificulta e atrasa a transição energética do setor justamente num momento em que essa mudança exigiria mais coordenação do que nunca.
A discussão sobre eletrificação, porém, vai além da velocidade da mudança. Também envolve previsibilidade para montadoras, fornecedores e consumidores. Sem regras estáveis e infraestrutura suficiente, o mercado tende a avançar de forma desigual, o que aumenta o risco de queda de demanda em alguns segmentos e de atraso em investimentos estratégicos.
Tarifas nos EUA aumentam a pressão sobre fabricantes
Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, Elkann disse que as montadoras estão enfrentando uma sequência de tarifas que, somadas, superam com folga os 25% aplicados à importação de automóveis. Além disso, há cobranças extras sobre alumínio, aço e peças - um efeito acumulado que complica a produção.
Ainda assim, Elkann fez uma observação um pouco mais positiva ao mencionar declarações de Donald Trump, feitas no mesmo dia da assembleia. O presidente dos EUA afirmou que estava avaliando reduzir tarifas sobre veículos e componentes importados do México, do Canadá e de outros países.
Para as montadoras, a combinação de tarifas e custos industriais mais altos cria um ambiente de planejamento muito mais difícil, já que afeta desde a cadeia de suprimentos até a formação do preço final dos carros. Em um setor altamente integrado entre países, mudanças desse tipo podem repercutir rapidamente nas fábricas, nos fornecedores e no consumidor.
Busca por um novo diretor-presidente
Como se não bastassem esses desafios, a Stellantis ainda não resolveu a sucessão de Carlos Tavares na liderança do grupo durante este período turbulento.
John Elkann assumiu a função de diretor-executivo interino da Stellantis após a saída do executivo português no fim do ano passado, enquanto a companhia segue em busca de um novo diretor-presidente.
Embora ainda não tenha sido anunciado um nome definitivo, a escolha deve ser revelada até o fim deste primeiro semestre. Elkann informou que a lista já foi reduzida a cinco candidatos.
Dois deles são nomes internos já conhecidos: Antonio Filosa, atual responsável pela operação norte-americana do grupo, e Maxime Picat, atual chefe de compras. Os outros três concorrentes ainda não foram identificados e vêm de fora da empresa.
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