O novo passe Navigo Easy está longe de agradar todo mundo. Vendido como um avanço para quem usa o transporte público, ele acaba sendo, na prática, bem mais interessante para os caixas da RATP. E a irritação dos passageiros só aumenta.
Enquanto outras grandes metrópoles europeias oferecem soluções integradas e fáceis de entender, deslocar-se de ônibus ou metrô em Paris continua preso a um emaranhado tarifário e técnico que gera revolta e perplexidade.
Passe Navigo Easy em Paris: promessa de simplificação, efeito contrário
No papel, o passe Navigo Easy parecia ideal para tornar a vida do usuário mais simples: um cartão único no lugar do bilhete de papel, recarregável com tíquetes e válido tanto no ônibus quanto no metrô. Só que a experiência real tem mostrado outra coisa.
Diferentemente do que acontece em outras cidades - onde um único suporte basta, recarrega-se em qualquer lugar, inclusive em todas as estações - a migração para esse modelo em Paris obriga primeiro a comprar um cartão físico (e, claro, pago) e só depois colocar tíquetes nele. No fim, isso cria custos extras e torna o processo mais trabalhoso para quem viaja.
Outra fonte de frustração é o sumiço gradual dos bilhetes de cartão vendidos dentro dos ônibus. Agora, é obrigatório usar um terminal de pagamento por aproximação a bordo ou recorrer ao celular para comprar via SMS.
E há mais um problema: os tíquetes adquiridos no ônibus não têm os benefícios tarifários tradicionais nem permitem integrações gratuitas com outras linhas. Resultado: quem usa o sistema de forma ocasional - e principalmente turistas - precisa se adaptar (e pagar mais). Até motoristas reclamam do novo arranjo. “A ferramenta não funciona e alguns acabam em infração sem querer”, relata um deles à France 3 Paris-Île de France.
Os relatos seguem na mesma linha. “Antes, eu conseguia pegar o ônibus e o metrô com um mesmo ticket T+. Agora, preciso comprar tíquetes de novo para o metrô”, protesta uma passageira parisiense. “Como é possível que o Navigo Easy conte dois tíquetes entre a estação de Ébly, passando pela Gare de l’Est, e o metrô 7? Na prática, isso representa um tíquete”, reclama outro.
Paris é trágica? Comparação com outras cidades europeias
Em diversas cidades europeias, há sistemas em que o cartão é fácil de encontrar, em que comprar ou recarregar um título em qualquer estação é simples e em que todos os modais já são compatíveis e intercambiáveis. Por isso, turistas ficam ainda mais perdidos. “Na minha cidade, usamos um único cartão para todos os trajetos. E dá para comprar o título em todas as estações. Não como aqui”, diz uma visitante estrangeira em Paris.
O efeito direto desse novo sistema é um sentimento de injustiça e exclusão. Quem viaja com passe mensal não sente o impacto, mas aqueles que se deslocam pontualmente enfrentam um pior acesso à rede. Isso alimenta a incompreensão e um descontentamento crescente.
Além disso, a comunicação sobre o Navigo Easy parece ter sido insuficiente. Ao longo das semanas, usuários vão descobrindo as consequências do cambio - muitas vezes, no prejuízo. Um “belo caos” que pode manchar a reputação do transporte parisiense. A Île-de-France Mobilités reconhece “alguns problemas de logística” e promete melhorias, sem detalhar quais.
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