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Perigo nuclear esquecido no Mar do Norte: naufrágio de submarino libera radiação há décadas.

Homem com roupa laranja usa rádio e laptop perto de equipamento submerso e mala em barco ao pôr do sol.

A cerca de 1.700 metros de profundidade, um submarino nuclear repousa no fundo do Mar da Noruega desde 1989. Durante décadas, o casco foi visto mais como uma relíquia histórica. Agora, um estudo norueguês recente mostra outra realidade: o reator antigo continua ativo - não em sentido técnico, mas como uma fonte constante de substâncias radioativas que escapam para o ambiente.

Um drama de submarino da Guerra Fria

Em abril de 1989, o submarino soviético K-278 “Komsomolets” pegou fogo em alto-mar. A bordo estavam um reator nuclear e torpedos, alguns deles equipados com ogivas nucleares. O incêndio se espalhou por várias seções, e a tripulação lutou durante horas, em vão, contra chamas, fumaça e gases tóxicos.

No fim, o gigante de aço afundou até 1.680 metros de profundidade no Mar da Noruega. Dezenas de marinheiros morreram, e apenas parte da tripulação conseguiu sobreviver. O acidente entrou para a lista das piores tragédias da Marinha soviética no encerramento da Guerra Fria.

Pouco depois do naufrágio, especialistas já entendiam que esse casco poderia virar um problema ambiental de longo prazo. Dentro dele havia um reator nuclear projetado para grandes profundidades e alta velocidade - mas não para permanecer décadas no leito oceânico.

Há mais de 30 anos, substâncias radioativas vêm escapando do submarino afundado para o Mar da Noruega.

Estudo recente mostra que o reator do submarino Komsomolets libera material radioativo

Órgãos noruegueses e instituições de pesquisa acompanham o casco de forma regular desde a década de 1990. O estudo publicado agora, divulgado em 2026 na revista científica PNAS, reúne medições acumuladas ao longo de décadas e chega a uma conclusão direta: o reator e partes do casco estão liberando material radioativo.

Os pesquisadores não descrevem um vazamento contínuo e uniforme, mas sim um padrão irregular. O reator e certos dutos parecem “abrir” e depois voltar a se “acalmar”.

Os cientistas falam em “pulsos” esporádicos de carga radioativa - como pequenas exalações do reator enferrujado.

As liberações se concentram principalmente em dois pontos:

  • um antigo duto de ventilação ou exaustão no casco
  • a área imediata do compartimento do reator

Ali, na água, os pesquisadores detectaram valores claramente elevados de diferentes isótopos radioativos: estrôncio, césio, urânio e plutônio. Strôncio e césio chamaram atenção em especial, com leituras que chegaram a ficar até centenas de milhares de vezes acima dos níveis de fundo normais do Mar da Noruega.

O que exatamente sai do casco do Komsomolets

Por trás dos termos técnicos discretos existem substâncias com riscos bem distintos. Na água ao redor do casco, surgiram, entre outros, estes isótopos:

Substância Característica Por que é relevante?
Isótopos de estrôncio se acumulam nos ossos podem aumentar o risco de câncer no longo prazo
Isótopos de césio se dispersam facilmente na água entram com facilidade nas cadeias alimentares
Urânio metal pesado, de baixa radioatividade faz parte do combustível do reator
Plutônio altamente tóxico, de longa duração pode vir do combustível ou de armas

Os pesquisadores enfatizam que os valores extremos de estrôncio e césio dizem respeito a amostras de água coletadas diretamente no ponto de saída. Nesse local, os isótopos quase não se misturam com a água do mar limpa, o que explica as cifras tão altas. Bastam alguns metros de distância para que as concentrações caiam de forma acentuada.

Por que os especialistas ainda mantêm cautela sobre o reator do submarino

Quem lê números como “400.000 a 800.000 vezes maior” tende a imaginar uma catástrofe ambiental imediata. No entanto, é isso que os pesquisadores noruegueses não veem até agora no local. O quadro que eles desenham é mais nuançado.

As substâncias radioativas saem em pulsos concentrados, mas se diluem com muita rapidez na água profunda e gelada do Mar da Noruega.

Nas amostras de esponjas, corais de águas frias e anêmonas-do-mar que crescem diretamente sobre o casco, as equipes encontraram valores levemente elevados de césio radioativo. Ainda assim, não apareceram danos visíveis nesses organismos. Os sedimentos na vizinhança imediata também mostram apenas traços pequenos de acúmulo prolongado.

A explicação dos especialistas é que a forte mistura da água em profundidade e o enorme volume de água funcionam como uma máquina de diluição. Enquanto na área do vazamento surgem concentrações altas por pouco tempo, os valores já caem para uma faixa que, segundo o conhecimento atual, dificilmente provocaria efeitos biológicos relevantes.

Submarino nuclear Komsomolets: sem motivo para tranquilidade permanente

Apesar dos dados relativamente tranquilizadores no momento, os pesquisadores não falam em alívio definitivo. A razão está no estado do casco: aço, vedações e soldas estão há mais de três décadas expostos à água salgada, em grande profundidade e sob pressão intensa. A corrosão avança ano após ano.

Com isso, aumenta a chance de que fissuras já existentes se alarguem ou de que surjam novas aberturas no circuito do reator e nos tubos de torpedo. No longo prazo, isso pode levar a liberações muito mais intensas e frequentes.

  • O reator envelhece sem controle.
  • A estrutura do casco perde resistência a cada ano.
  • As ogivas nucleares a bordo também podem acabar danificadas um dia.

Por isso, autoridades norueguesas tratam o local como uma “fonte latente de contaminação radioativa”, que não pode ser esquecida. O monitoramento com navios de pesquisa e robôs submarinos deve continuar, em alguns casos com intervalos anuais.

É possível içar o casco do submarino?

Volta e meia surge a pergunta: por que não levantar simplesmente o submarino e levá-lo para uma baía portuária segura? Tecnicamente, o projeto é extremamente complexo. O “Komsomolets” está quase a 1,7 quilômetro de profundidade - muito além da maioria das operações de salvamento já feitas com destroços de navios.

Uma operação de içamento traria vários riscos:

  • na elevação, peças do reator ou torpedos podem ser danificadas;
  • estruturas corroídas podem se romper e liberar material radioativo de forma brusca;
  • correntes fortes e a pressão nessa profundidade tornam qualquer intervenção mais difícil.

Há ainda a dimensão política: o casco vem da era soviética. As responsabilidades entre a Rússia e os países vizinhos são delicadas, e os acordos e custos envolvidos são complexos. Por enquanto, a Noruega prefere apostar na vigilância contínua em vez de arriscar uma grande operação.

O que a radiação do submarino Komsomolets significa para peixe, caranguejo e pessoas

Para a população da Noruega e dos países vizinhos, a principal dúvida é óbvia: há motivo para preocupação com peixe, caranguejos e outros frutos do mar da região? Os dados atuais apontam mais para um problema limitado.

Os valores mais altos aparecem de forma muito localizada e em grande profundidade. Grande parte da pesca comercial ocorre em águas mais rasas e bem distante do casco. Amostras já coletadas de peixes em áreas mais amplas não mostraram contaminação fora do comum, além do fundo normal que também pode vir de antigos testes nucleares ou acidentes com reatores.

Mesmo assim, existe um risco residual: substâncias radioativas podem avançar pelas cadeias alimentares. Ainda que a concentração na água permaneça baixa, certas espécies - como moluscos ou alguns peixes de águas profundas - podem acumular isótopos no organismo. É justamente aí que entram os programas de monitoramento, que analisam com regularidade animais retirados da área do casco.

O que está por trás de nomes como estrôncio-90 e césio-137

Muitos leitores conhecem essas designações sobretudo por reportagens sobre Chernobyl ou Fukushima. Dois isótopos também têm papel importante no submarino soviético:

Estrôncio-90 se liga quimicamente ao cálcio de forma parecida e se fixa em ossos e dentes. Quando entra no corpo de pessoas ou animais, permanece ali por muito tempo e pode danificar células. Sua meia-vida é de quase 29 anos - um período em que a quantidade cai pela metade, mas continua detectável por gerações.

Césio-137 se comporta de modo mais parecido com o potássio e, por isso, se distribui pelo corpo inteiro. Ele é produzido em grandes quantidades em reatores e em explosões nucleares. Sua meia-vida é de cerca de 30 anos. Em ecossistemas marinhos, pode aparecer em peixes, plâncton e plantas, embora as correntes costumem espalhá-lo por áreas relativamente amplas.

Os dois elementos são perigosos em doses altas, mas, nas concentrações atualmente medidas ao redor do “Komsomolets”, a pesquisa norueguesa ainda não vê motivo para alarme máximo. A preocupação real está no futuro - no que pode acontecer com o reator fortemente corroído daqui a 10, 20 ou 30 anos.

Um marco de como a tecnologia nuclear continua a deixar marcas

O submarino afundado diante da Noruega mostra, de forma muito concreta, o tamanho da sombra deixada por programas nucleares militares. Um incêndio que durou poucas horas criou um risco capaz de ocupar várias gerações. Mesmo sob controle relativo, o reator segue sendo um elemento de perturbação em uma área marinha sensível.

Para a pesquisa, o casco também funciona como um laboratório de campo involuntário: especialistas podem observar como substâncias radioativas se comportam em grande profundidade, como os ecossistemas reagem e onde o material se acumula. Esses dados alimentam conceitos de segurança para outros passivos ambientais - de barris de lixo nuclear afundados a outros destroços militares com tecnologia nuclear no fundo do mar.

Uma coisa é certa: o “Komsomolets” continuará sendo um problema que não desaparece só porque está a quase 1.700 metros de profundidade. Quanto mais o casco se desmancha, mais o naufrágio volta às manchetes - como uma lembrança discreta, mas persistente, de uma era cujos resíduos ainda estão longe de terminar.

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