As vacinas contra a COVID salvaram milhões de vidas. Ainda assim, alguns meses após o início da campanha de vacinação, um número pequeno de pessoas começou a apresentar coágulos sanguíneos perigosos em regiões incomuns do corpo.
Esses eventos foram observados apenas depois da aplicação de vacinas que usam um adenovírus modificado como “veículo” para entregar seu conteúdo, como a vacina da AstraZeneca. Por muito tempo, o motivo de esses coágulos se formarem foi um enigma - até agora.
A condição recebeu o nome de trombocitopenia e trombose imunes induzidas por vacina, ou VITT. Ela ocorre quando o sistema imune, por engano, passa a atacar uma proteína do próprio organismo chamada fator plaquetário 4.
Anticorpos que reconhecem o fator plaquetário 4 fazem parte de respostas imunes normais. Porém, na VITT, os anticorpos que surgem têm uma característica incomum: são “grudentos” demais. Eles se fixam ao fator plaquetário 4 e acabam juntando muitas moléculas, formando grandes aglomerados de proteínas chamados “complexos imunes”, o que leva à formação de coágulos perigosos.
Nos últimos anos, temos estudado a biologia da VITT, com foco principalmente em como esses anticorpos ativam as plaquetas. Mesmo assim, um dos maiores mistérios da doença era entender de que maneira a vacinação fazia esses anticorpos aparecerem.
Agora, uma equipe internacional de cientistas na Austrália, no Canadá e na Alemanha trouxe uma resposta. Em uma série elegante de experimentos, eles demonstraram que praticamente todos os pacientes com VITT compartilham um padrão característico nos seus anticorpos.
Para isso, os pesquisadores analisaram 100 pacientes com VITT de várias partes do mundo. Por coincidência, dois desses pacientes haviam doado sangue no passado, o que significa que amostras coletadas antes da vacinação foram armazenadas em freezers do serviço de hemoterapia alemão. Essas amostras acabaram sendo a peça que permitiu resolver o quebra-cabeça.
A equipe conseguiu mostrar que os anticorpos envolvidos na VITT começam como anticorpos que reconhecem uma proteína adenoviral chamada proteína VII. Esses anticorpos provavelmente vêm da “memória” do sistema imune de infecções anteriores por adenovírus - comuns na infância e associadas a sintomas leves parecidos com os de um resfriado.
Durante respostas imunes normais a infecções e a vacinas, acontecem pequenas alterações genéticas aleatórias nas células que produzem anticorpos. Isso é esperado: essas mudanças ajudam o sistema imune a refinar os anticorpos para combater infecções com mais eficiência.
Em todos os pacientes com VITT, os pesquisadores encontraram a mesma alteração. Ao modificar apenas uma pequena parte do anticorpo, ele passou, de repente, a se ligar ao fator plaquetário 4 com muita força.
Trabalhos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que a maioria dos pacientes com VITT carrega uma variante específica de um gene do sistema imune, que influencia a estrutura dos anticorpos produzidos.
O novo estudo ajuda a entender por que isso é relevante. A mutação identificada pelos pesquisadores só aparece em anticorpos “montados” sobre esse pano de fundo genético, permitindo que eles se prendam ao fator plaquetário 4 de forma extremamente firme.
Essa descoberta também esclarece por que a VITT é tão rara: dois eventos improváveis precisam acontecer ao mesmo tempo.
Primeiro, a pessoa precisa herdar a variante específica do gene do sistema imune. Segundo, uma mutação rara precisa surgir em uma das células produtoras de anticorpos que estão respondendo ao adenovírus. Somente quando as duas coisas ocorrem juntas é que o sistema imune começa a mirar o fator plaquetário 4.
Por que precisamos compreender a VITT e o fator plaquetário 4?
Você pode se perguntar por que isso ainda importa. A pandemia acabou, e então a VITT não teria deixado de acontecer?
Mas as vacinas baseadas em adenovírus continuam sendo uma ferramenta importante. Elas são versáteis, baratas e fáceis de implementar no mundo todo. Quando a próxima pandemia chegar, vacinas feitas com essa abordagem podem voltar a salvar milhões de vidas.
Além disso, ocasionalmente vemos pacientes com síndromes que são exatamente iguais à VITT, mas sem qualquer ligação com vacinação. Em alguns casos, esses quadros podem ser desencadeados por infecções virais, incluindo adenovírus e citomegalovírus.
Um processo semelhante também foi associado a pessoas com coágulos recorrentes ao longo de muitos anos, abortos espontâneos repetidos e AVC em um bebê recém-nascido causado por anticorpos da mãe que atacam o fator plaquetário 4.
Compreender com precisão como a VITT acontece significa que os cientistas talvez agora consigam ajustar vacinas futuras para evitar que essa reação imune rara seja disparada.
Richard Buka, médico residente em Hematologia e pesquisador clínico (Clinical Research Fellow), University of Birmingham, e Samantha Montague, pesquisadora de pós-doutorado, Institute of Cardiovascular Sciences, University of Birmingham
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário