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Parcopresis limita onde as pessoas conseguem evacuar. Veja por que isso é um problema.

Mulher sentada no vaso sanitário aparentando desconforto e segurando o rosto com as mãos.

Ansiedade para evacuar, intestino envergonhado, síndrome do intestino tímido: todos esses nomes descrevem o que, na medicina, é chamado de parcoprese - ou seja, a dificuldade de fazer cocó quando você não está em casa. Na Alemanha, esse quadro até ganhou um termo próprio: Heimscheißer (pronuncia-se “haim-sháisser”), que pode ser entendido como “quem só consegue evacuar em casa”.

Quem convive com isso pode sentir angústia e ansiedade só de imaginar precisar usar um vaso sanitário na escola, no trabalho ou em qualquer banheiro público. Há pessoas que, inclusive, têm dificuldade de evacuar até durante as férias.

Quando não há alternativa e é preciso usar um banheiro fora de casa, podem surgir sintomas como batimentos acelerados, suor excessivo, náusea, tremores e dificuldade para eliminar as fezes.

Em alguns casos, a pessoa com ansiedade para evacuar passa a comer menos - ou até evita certas situações sociais - para reduzir a chance de precisar usar um banheiro público.

O quão comum é a ansiedade para evacuar?

A ansiedade para evacuar parece ser bastante frequente. Em um estudo com 714 universitários australianos, pouco mais de 14% disseram evitar banheiros públicos por preocupações ligadas à ansiedade. Outros 3% relataram evitar banheiros públicos por medo de contaminação.

Muitas vezes, o gatilho está em um medo intenso de se sentir observado e avaliado. Em uma pesquisa com 316 universitários australianos, o motivo mais comum associado à ansiedade para evacuar foi o receio de que outras pessoas tivessem uma percepção negativa sobre suas evacuações.

Por exemplo, alguns temiam que os outros pensassem que eles demoravam demais para evacuar, ou ficavam preocupados com os sons e os odores produzidos no processo.

Para psicólogos, a ansiedade para evacuar se enquadra como um tipo de transtorno de ansiedade social. Estudos indicam que os afetados tendem a cultivar pensamentos autodepreciativos, como: "If I fail at my work, then I am a failure as a person".

No fundo, quem sofre de ansiedade para evacuar carrega, principalmente, o medo de ser julgado.

Quais são os perigos da ansiedade para evacuar?

Segurar o cocó pode fazer com que ele fique mais duro e seco no cólon, porque o intestino absorve mais água do conteúdo. Isso pode favorecer quadros de constipação crónica.

A constipação crónica, por sua vez, eleva a probabilidade de problemas como:

  • sangramento por hemorroidas
  • dor causada por fissura anal (pequenas rupturas no revestimento do ânus)
  • prolapso retal (quando uma parte do intestino desliza para fora através do ânus)

Com o passar do tempo, isso pode evoluir para incontinência fecal.

No Reino Unido, foi descrito um caso marcante de uma adolescente que, segundo relatos, tinha uma fobia tão intensa de usar o vaso sanitário que frequentemente retinha as fezes por até dois meses.

O resultado foi um cólon extremamente dilatado e cheio de fezes, que acabou comprimindo a cavidade torácica. Isso provocou um ataque cardíaco e, infelizmente, a morte aos 16 anos.

Educação sobre hábitos adequados de ir ao banheiro

Parte do tratamento da ansiedade para evacuar envolve orientar a pessoa sobre comportamentos saudáveis ao usar o banheiro.

Um exemplo é o tempo de permanência no vaso. Um estudo turco identificou que ficar mais de cinco minutos sentado no vaso esteve associado a hemorroidas e fissuras anais.

Como pessoas com ansiedade para evacuar têm maior propensão a desenvolver complicações relacionadas à constipação, esses problemas podem retroalimentar o quadro e intensificar ainda mais a ansiedade.

A ingestão adequada de fibra alimentar também é essencial, porque ajuda a deixar as fezes mais macias e fáceis de eliminar. Isso tende a reduzir a tensão em torno do ato de evacuar.

Na Austrália, a recomendação mínima diária de fibra para homens adultos é de 30 gramas por dia, e para mulheres adultas, de 25 gramas por dia.

Uma prática útil para manter evacuações regulares e mais saudáveis - e que eu costumo recomendar a pacientes - é a técnica "SEN":

  • no máximo seis minutos sentado no vaso
  • fibra suficiente (comer mais frutas e verduras, além de priorizar grãos integrais)
  • não fazer força ao evacuar (idealmente, deve “sair” com relativa facilidade)

Também ajuda manter uma boa hidratação e prestar atenção em medicamentos como opioides, que podem agravar a constipação.

Ter consciência de hábitos adequados no banheiro é importante para quem sofre de ansiedade para evacuar, porque essas pessoas podem ficar excessivamente fixadas nas próprias evacuações. Com isso, correm o risco de não adoptar medidas simples de estilo de vida que, na prática, tornam o processo mais fácil de maneira geral.

Tratamento psicológico para ansiedade para evacuar

A terapia cognitivo-comportamental é indicada como primeira linha de tratamento para quem tem ansiedade para evacuar, pois ajuda a reconhecer e modificar padrões de pensamento negativos.

Com frequência, utiliza-se uma estratégia de exposição gradual. Trata-se de um plano estruturado, passo a passo, em que a pessoa enfrenta situações cada vez mais desafiadoras envolvendo banheiros públicos, com o objetivo de reduzir a ansiedade e ganhar confiança.

O ponto mais importante para superar a ansiedade para evacuar é procurar a orientação de um profissional de saúde qualificado.

Comece conversando com seu médico, que pode avaliar se os sintomas são compatíveis com ansiedade para evacuar ou se podem estar ligados a outro problema digestivo relevante. Esse profissional também pode prescrever medicamentos que auxiliem no controlo da constipação.

O clínico geral (médico de família) ainda pode encaminhar você a um psicólogo, que poderá organizar um plano de terapia cognitivo-comportamental para ajudar a transformar padrões de pensamento negativos.

Reter fezes de forma rotineira não faz bem. Se você anda se sentindo tenso para evacuar no trabalho, na escola ou durante viagens, vale a pena dedicar um tempo para entender as razões e enfrentar o problema.

Vincent Ho, Professor Associado e Gastroenterologista Académico Clínico, Universidade de Sydney Ocidental

Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença Commons Criativa. Leia o artigo original.

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