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Mistérios das listras nas encostas de Marte podem estar perto de solução

Cientista com jaleco usando tablet e apontando para tela com relevo de terreno marciano em escritório.

Faixas que se formam nas encostas de Marte, também conhecidas como linhas recorrentes em encostas (RSL), são um elemento comum na paisagem marciana. Essas marcas escuras e sazonais podem ser resultado tanto de água salobra (salmoura) que escorre à medida que os gelos sazonais descongelam em pontos específicos quanto do deslocamento de areia seca.

Embora a origem exata ainda seja incerta, estudos recentes seguem trazendo pistas sobre esse fenómeno visualmente marcante. Um exemplo disso: o Orbitador de Gases Traço ExoMars (TGO), da Agência Espacial Europeia (ESA), registou recentemente imagens de faixas geradas por uma avalanche de poeira nas encostas do Monte Apolinário (Apollinaris Mons), na noite de 24 de dezembro de 2023.

A imagem foi obtida pelo Sistema de Imagem de Superfície em Cor e Estéreo (CaSSIS), a bordo do TGO, e revela um conjunto discreto de crateras de impacto, além das faixas escuras concentradas na parte inferior da vertente.

Essas faixas foram analisadas no artigo científico “Poeira, areia e vento impulsionam faixas em encostas em Marte”, publicado recentemente na revista Comunicações da Natureza.

Segundo o autor Valentin Tertius Bickel, investigador de pós-doutoramento do Centro para Espaço e Habitabilidade (CSH) da Universidade de Berna, evidências geostatísticas recentes indicam que as RSL também podem ser provocadas por fatores “secos”, ou seja, não sazonais.

Ainda assim, ele argumenta que hoje faltam medições diretas e quantitativas tanto da velocidade com que essas faixas escuras se formam quanto da frequência com que aparecem quando associadas a causas específicas.

Com esse objetivo, ele examinou a faixa registada pelo TGO, que, segundo os cientistas, foi desencadeada por impactos de meteoritos ocorridos em algum momento entre 2013 e 2017.

Para ampliar a análise, Bickel recorreu a aprendizagem de máquina para estudar mais de dois milhões de faixas captadas pelo Orbitador de Reconhecimento de Marte (MRO), da NASA, entre 2006 e 2024. Esses registos estavam provavelmente ligados a agentes secos e não sazonais, incluindo impactos de meteoroides, sismos marcianos e ventos.

A partir daí, ele conseguiu criar um “censo de faixas”, mostrando que a maioria dessas estruturas apareceu em cinco pontos de concentração bem definidos ao longo dos dezenove anos considerados. Ele também concluiu que cerca de 0,1% da população formada a cada ano pode ser atribuída diretamente a acontecimentos como impactos de meteoroides e sismos marcianos.

“Poeira, vento e dinâmica da areia parecem ser os principais motores sazonais da formação de faixas em encostas”, afirmou Bickel num comunicado à imprensa da ESA.

“Impactos de meteoroides e sismos parecem ser motores localmente distintos, mas, em escala global, relativamente pouco significativos.”

Os resultados oferecem evidências importantes que podem ajudar a resolver o debate sobre o que leva à formação dessas faixas escuras em Marte. Além disso, fornecem pistas sobre os tipos de forças dinâmicas que moldam o clima marciano, tanto em ciclos sazonais quanto em processos não sazonais.

“Essas observações podem levar a uma compreensão melhor do que acontece em Marte hoje”, diz Colin Wilson, cientista do projeto da ESA para o Orbitador de Gases Traço ExoMars. “Obter observações de longo prazo, contínuas e em escala global que revelem um Marte dinâmico é um objetivo central dos orbitadores atuais e futuros.”

Em especial, compreender a dinâmica do ambiente do planeta pode ajudar a responder às questões mais fundamentais que os cientistas têm sobre Marte.

Entre elas estão: como e quando a água superficial desapareceu, para onde ela foi e se a vida poderia ter prosperado ali em algum momento.

Investigar essas questões é o objetivo principal das nove missões, conduzidas por cinco agências espaciais, que atualmente exploram Marte. Novas missões robóticas já estão planeadas, e missões tripuladas também são previstas antes da metade do século.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Universo Hoje. Leia o artigo original.

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