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Medicamento para diabetes tipo 2 reduz risco de demência em pacientes em 35%.

Paciente idosa discutindo controle de diabetes com médica em consultório, com frutas e remédios na mesa.

Um estudo sul-coreano divulgado recentemente indica que pessoas com diabetes tipo 2 que recebem prescrição de uma classe específica de medicamento podem ter um risco significativamente menor de desenvolver demência.

Para investigar isso, os cientistas compararam os desfechos de saúde de mais de 110.000 pessoas com diabetes tipo 2, com idades entre 40 e 69 anos, que usavam um tipo de fármaco chamado inibidores de SGLT-2, com os de outras 110.000 pessoas que tomavam outra classe, os inibidores de DPP-4. Os participantes foram acompanhados por, em média, 670 dias.

Após ajustar a análise para possíveis fatores de confusão, os pesquisadores observaram que quem utilizava um inibidor de SGLT-2 tinha 35% menos probabilidade de receber um diagnóstico de demência.

Como o diabetes é reconhecido como fator de risco para demência, faz sentido pensar que controlar a doença possa reduzir esse risco. O ponto que chama a atenção é: por que um medicamento reduziria mais do que outro? E, afinal, qual é a ligação entre diabetes e demência?

Diabetes e demência

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas. Sua função é transportar a glicose (açúcar) do sangue para dentro das células, onde ela é usada como fonte de energia. O diabetes tipo 2 surge quando o pâncreas não produz insulina em quantidade suficiente ou quando as células passam a responder menos à insulina (resistência à insulina).

Demência é um termo que abrange diferentes condições resultantes de alterações no cérebro e que afetam memória, raciocínio, humor e a capacidade de realizar atividades do dia a dia.

Há muito tempo, o diabetes é considerado um fator de risco tanto para a doença de Alzheimer quanto para a demência vascular - as duas formas mais comuns de demência. Ambas envolvem declínio cognitivo associado a problemas nos vasos sanguíneos do cérebro.

Ainda não está totalmente claro por que diabetes e demência se conectam dessa maneira, mas existem algumas hipóteses plausíveis.

Uma delas é que o diabetes aumenta o risco de doença cardíaca e de AVC, que prejudicam o coração e os vasos sanguíneos. Quando os vasos do cérebro sofrem danos, isso pode contribuir para a piora cognitiva.

Outra possibilidade é que níveis elevados de açúcar no sangue favorecem a inflamação, o que pode lesar células cerebrais e ajudar a impulsionar o desenvolvimento de demência.

Tratar o diabetes pode reduzir o risco aumentado de demência em pessoas com diabetes tipo 2

Um controle mais eficiente da glicose no diabetes ajuda a preservar os vasos sanguíneos e diminui processos inflamatórios no cérebro.

No início, o diabetes pode ser manejado com mudanças no estilo de vida, como alimentação e atividade física, mas o tratamento também pode incluir medicamentos - como os usados pelos participantes do estudo sul-coreano.

Os pacientes que tomavam qualquer uma das duas classes de remédios apresentavam controle glicêmico semelhante. Então, por que um grupo mostrou menor risco de demência do que o outro?

Os inibidores de SGLT-2 (sigla de sodium-glucose transport protein 2) reduzem a glicose no sangue ao aumentar a eliminação de glicose pelos rins.

Além disso, esses fármacos são conhecidos por trazer benefícios em outros aspectos, como melhorar a pressão arterial, favorecer a perda de peso e reduzir inflamação e estresse oxidativo (um tipo de dano às células).

Como obesidade e pressão alta também são fatores de risco para demência vascular e para demência do tipo Alzheimer, é possível que esses efeitos dos inibidores de SGLT-2 diminuam o risco de demência mais do que seria esperado apenas por um melhor controle da glicemia.

Prevenção versus tratamento

É importante reforçar que um medicamento diminuir a probabilidade de uma doença surgir é algo diferente de dizer que ele serve para tratar essa doença quando ela já está instalada.

A forma mais eficaz de reduzir o risco de câncer de pulmão, por exemplo, é parar de fumar. Porém, depois que a pessoa já tem câncer de pulmão, deixar o cigarro, por si só, não é suficiente para tratá-lo.

Ainda assim, como existe evidência ligando diabetes e demência, alguns medicamentos para diabetes já foram testados anteriormente como possíveis tratamentos para a doença de Alzheimer - e foi observado que eles oferecem algum grau de benefício cognitivo.

A semaglutida, mais conhecida pelo nome comercial Ozempic, pertence a outra classe de remédios para diabetes (os agonistas do receptor de GLP-1).

Atualmente, a semaglutida está sendo avaliada como tratamento para Alzheimer em fase inicial em dois ensaios clínicos que, juntos, envolvem mais de 3.500 pacientes.

Esses estudos foram motivados por observações feitas em testes clínicos com semaglutida para pessoas com diabetes: neles, as taxas de demência foram menores entre quem tomou o medicamento do que entre quem recebeu um placebo.

Assim como os fármacos SGLT-2, os medicamentos da classe GLP-1 também são conhecidos por reduzir a inflamação no cérebro. Além disso, os GLP-1 parecem diminuir reações químicas que levam a uma forma anormal da proteína Tau - um dos marcadores patológicos característicos da doença de Alzheimer.

E agora?

À medida que o entendimento sobre os mecanismos por trás do Alzheimer e de outras demências avança, também tendem a surgir novas possibilidades de tratamento.

É improvável que um único medicamento, sozinho, seja a solução para o Alzheimer. O tratamento do câncer evoluiu a um ponto em que o uso de “coquetéis de medicamentos”, ou combinações de fármacos, se tornou prática comum.

Uma perspectiva possível para esses medicamentos do diabetes é que eles venham a integrar um conjunto de terapias para enfrentar os efeitos devastadores da demência - ou até ajudar a preveni-la, inclusive em pessoas sem diabetes. Mas é necessário mais estudo antes de chegar a esse estágio.

Steve Macfarlane, Head of Clinical Services, Dementia Support Australia, & Associate Professor of Psychiatry, Monash University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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