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Uma das maiores esperanças para o tratamento do Alzheimer parece não funcionar.

Médico explica exame cerebral para duas idosas em consulta, com cérebro digital projetado entre eles.

Por décadas, cientistas miraram os aglomerados pegajosos de proteínas que se acumulam no cérebro de pessoas com Alzheimer como uma possível via de tratamento - mas talvez o alvo não fosse exatamente esse.

Um estudo recente indica que remover os depósitos de beta-amiloide não parece recuperar funções cerebrais essenciais.

Alzheimer: o sistema glinfático não volta ao normal ao limpar placas de beta-amiloide

Em especial, a limpeza não restabelece o mecanismo do cérebro responsável por eliminar resíduos, conhecido como sistema glinfático. Sabe-se que esse sistema fica comprometido em pessoas com Alzheimer e, em condições normais, ajudaria a remover o excesso de placas de beta-amiloide por meio de ondas de líquido cefalorraquidiano (LCR).

A investigação foi conduzida por pesquisadores da Universidade Metropolitana de Osaka, no Japão, que avaliaram o novo medicamento para Alzheimer lecanemabe em 13 pessoas com a doença. Para observar o que acontecia no cérebro, eles recorreram a exames de ressonância magnética (RM).

"Mesmo quando o beta-amiloide é reduzido pelo lecanemabe, o comprometimento do sistema glinfático pode não se recuperar no curto prazo", afirma o pesquisador médico Tatsushi Oura, da Universidade Metropolitana de Osaka.

O trabalho reforça, mais uma vez, como o Alzheimer é multifacetado: está associado a um amplo conjunto de possíveis causas, fatores de risco e sintomas. Ainda não se sabe com precisão como a doença tem início, mas é provável que diferentes gatilhos atuem em conjunto.

Quando se fala no acúmulo de beta-amiloide e de outra proteína cerebral chamada tau, esses são marcadores característicos do Alzheimer - e, ainda assim, cientistas continuam tentando esclarecer se eles provocam a doença, se são gerados por ela, ou se as duas coisas ocorrem simultaneamente.

Neste estudo, o lecanemabe teve efeito no sentido de diminuir os níveis de beta-amiloide no cérebro, porém os indicadores de funcionamento do sistema glinfático não apresentaram melhora após três meses. Em outras palavras, a medicação não parece desfazer os danos do Alzheimer - ao menos no que diz respeito à “reciclagem” de resíduos no cérebro.

"A terapia modificadora da doença pode reduzir a carga de placas e desacelerar o agravamento cognitivo adicional, mas não restaura a função perdida, provavelmente refletindo o fato de que o dano neuronal e os déficits do sistema de depuração já estão bem estabelecidos", escrevem os pesquisadores no artigo publicado.

O estudo adiciona nuances a um quadro cada vez mais complexo sobre o Alzheimer e sobre como enfrentá-lo. Não é a primeira pesquisa a concluir que retirar placas não melhora de forma substancial o Alzheimer, por isso alguns pesquisadores agora suspeitam que as placas sejam consequência da doença, e não a causa.

Ensaios anteriores já mostraram que o lecanemabe consegue, sim, desacelerar a progressão contínua do Alzheimer, mas o medicamento funciona melhor quando aplicado nas fases iniciais. Por isso, pesquisadores têm priorizado a detecção dos sinais de demência o mais cedo possível.

Como se trata de um estudo curto e com poucas pessoas, a equipe quer ampliar essas condições - avaliando como o lecanemabe influencia o Alzheimer em diferentes estágios da doença ou quando administrado por períodos mais longos.

"No futuro, queremos avaliar fatores como idade, o estágio da doença e o grau de lesões na substância branca para entender melhor a relação entre as mudanças no sistema glinfático devido ao tratamento com lecanemabe e o desfecho do tratamento", diz Oura.

"Isso ajudará a entender a melhor forma de administrar o tratamento aos pacientes."

A pesquisa foi publicada na Revista de Imagem por Ressonância Magnética.

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