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Insetos estão desaparecendo até mesmo em locais remotos sem presença humana.

Pessoa observando armadilha para insetos amarela pendurada em árvore em ambiente natural com caderno de anotações.

Da mesma forma que borboletas e gafanhotos, inúmeros seres minúsculos e frágeis que sustentam o funcionamento do planeta estão em apuros. E não apenas em lugares onde a ação humana altera claramente a paisagem: um estudo recente mostra que até áreas afastadas, praticamente sem presença humana, também registram quedas expressivas.

Durante anos, a redução de insetos em regiões-chave do globo foi associada sobretudo à eliminação deliberada de habitats ricos em biodiversidade e a mudanças no clima local. Agora, fica cada vez mais evidente que essas pressões ultrapassam - e muito - as fronteiras do que consideramos nossa influência imediata.

Insetos em regiões remotas e a crise de biodiversidade: a queda dos insetos voadores

Em locais pouco afetados por atividades humanas diretas, o biólogo Keith Sockman, da Universidade da Carolina do Norte, documentou uma redução dramática de mais de 70% na quantidade de insetos voadores em apenas 20 anos.

Sockman estimou a densidade de insetos ao longo dos verões entre 2004 e 2024, numa pradaria remota no Colorado. Ao comparar os registros, observou que verões mais quentes - conforme medidos pela estação meteorológica do próprio ponto de amostragem - estavam ligados a uma menor abundância de insetos no ano seguinte.

Em entrevista à jornalista Alana Wise, da rádio pública norte-americana NPR, Sockman descreveu o local como “muito remoto, muito preservado” e, ainda assim, com um declínio substancial de insetos. Para ele, esse cenário deixa poucas alternativas explicativas além das mudanças climáticas.

Mudanças climáticas e insetos: evidências que se acumulam

Os resultados de Sockman não são um caso isolado. Outros trabalhos recentes também apontam que as mudanças climáticas estão afetando insetos de diferentes grupos e regiões.

Nos trópicos, populações de borboletas, besouros e outros insetos tropicais têm sido duramente impactadas pela alteração do ciclo do El Niño. Até mesmo moscas - frequentemente vistas como resistentes - estão vulneráveis às condições do planeta, que se transformam rapidamente.

Embora exista debate sobre o tamanho exato do declínio em determinadas áreas, essa discordância muitas vezes nasce da escassez de dados de longo prazo e de interpretações simplificadas diante de um problema complexo.

Com mais de 5 milhões de espécies de insetos, é inevitável que algumas se beneficiem das mesmas mudanças ambientais que prejudicam outras. Porém, esses “vencedores” dificilmente assumem de forma organizada os papéis ecológicos deixados pelos “perdedores”. O resultado provável é uma cadeia de novos desequilíbrios nas redes delicadas de interações que mantêm estáveis os ecossistemas dos quais dependemos para viver.

Evidências históricas: o caso das formigas em Fiji

Também cresce o volume de evidências históricas sobre a contração de populações de insetos - o que ajuda a preencher parte das lacunas de monitoramento do passado. Um exemplo recente reconstrói o declínio de formigas em Fiji desde a chegada dos seres humanos ao arquipélago, há cerca de 3 mil anos.

O biólogo evolutivo Evan Economo, da Universidade de Maryland, ressalta que estimar mudanças históricas em populações de insetos é difícil porque, salvo raras exceções, não houve monitoramento direto e contínuo ao longo do tempo. Para contornar isso, sua equipe adotou uma estratégia diferente: analisou, em paralelo, os genomas de muitas espécies a partir de espécimes de museu coletados recentemente.

Segundo Economo, os genomas preservam sinais de populações em expansão ou em retração, permitindo reconstituir mudanças em escala de comunidade. O grupo concluiu que 79% das espécies de formigas nativas de Fiji passaram por declínio populacional, enquanto espécies introduzidas estão crescendo rapidamente.

Efeitos em cascata na teia da vida

O efeito dominó dessa redistribuição na biomassa do planeta já aparece também em dados sobre números de aves - e o mesmo padrão é observado em lagartos e sapos. Quando insetos diminuem, toda a base alimentar e as funções ecológicas (como polinização, decomposição e controle de pragas) ficam comprometidas, com impactos que se propagam por múltiplos níveis do ecossistema.

Um desafio adicional é que regiões remotas costumam ter menos séries históricas consistentes de coleta, justamente por serem de acesso difícil. Isso torna ainda mais valiosos os estudos de longo prazo em áreas preservadas, pois ajudam a separar o que é efeito direto do uso do solo do que é pressão climática mais ampla.

Na prática, ampliar redes de monitoramento - combinando ciência acadêmica, coleções de museus e iniciativas de ciência cidadã - é uma das formas mais eficazes de reduzir incertezas e detectar tendências cedo. Paralelamente, ações locais como reduzir o uso de pesticidas, conservar vegetação nativa e manter corredores ecológicos podem fortalecer a resiliência das populações de insetos frente ao aquecimento e a extremos climáticos.

Consenso científico: uma crise global, inclusive longe das cidades

Entomólogos lembram que já existem centenas de estudos revisados por pares indicando declínios sustentados em muitas populações de insetos ao redor do mundo.

Em um artigo recente que responde ao negacionismo do tema, o ecólogo Manu Saunders, da Universidade da Nova Inglaterra, e colegas afirmaram que há consenso entre especialistas: vivemos uma crise de biodiversidade de insetos.

O trabalho de Sockman reforça um ponto especialmente preocupante: a crise não se limita a paisagens transformadas por agricultura, urbanização ou desmatamento - ela também está ocorrendo em regiões remotas.

A zoóloga Jessica Ware, do Museu Americano de História Natural, resumiu o tamanho do risco em entrevista à jornalista Madeline Bodin, da revista Smithsonian: sem insetos, tudo morre - mamíferos, répteis, aves e até seres humanos. Para Ware, quem deseja conservar qualquer um desses grupos (inclusive nós) precisa querer conservar os insetos.

O estudo sobre insetos em área remota foi publicado no periódico científico Ecologia.

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