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Uma professora de Harvard explica por que isso pode acontecer

Mulher e homem discutindo em uma cafeteria com livro e celular na mesa, ambiente iluminado e árvores ao fundo.

Todos nós já passamos por conversas assim: você conta rapidamente como foi o seu dia e, em menos de três segundos, o foco já mudou para a outra pessoa. Segundo uma especialista da elite Harvard, por trás disso costuma haver um padrão bem identificável - e hoje ele já tem nome: “boomerasking”.

O que está por trás do comportamento egocêntrico

Entende-se por egocentrismo a tendência de colocar o próprio ponto de vista e os próprios interesses no centro o tempo todo. Quem age assim tem dificuldade para se colocar de forma genuína no lugar dos outros. Cada situação passa por um filtro silencioso: “O que isso significa para mim?”

Exemplos típicos do cotidiano:

  • Está chovendo? A atenção vai imediatamente para a própria calça molhada.
  • A colega está doente? A resposta vem pronta: “Eu também não estou me sentindo muito bem.”
  • O parceiro fala das próprias preocupações? Em vez de ouvir, a pessoa emenda logo suas próprias dificuldades.

Não se trata de dizer que essas pessoas sejam “más”. Em geral, elas estão simplesmente tão voltadas para si mesmas que outras perspectivas perdem espaço. E isso aparece com muita clareza na maneira como conduzem as conversas.

Egoísmo e egocentrismo: uma diferença importante

A professora de Harvard Alison Wood Brooks faz uma distinção clara entre egoísmo e egocentrismo. Os dois termos parecem próximos, mas descrevem padrões diferentes.

Pessoas egoístas priorizam principalmente as próprias necessidades. Pessoas egocêntricas giram sem parar em torno de si mesmas - mas dependem da presença dos outros como plateia.

Quem age sobretudo por egoísmo costuma pensar de forma pragmática: o que me favorece, o que eu quero, o que vou ganhar? O ambiente ao redor ocupa um papel secundário.

Já pessoas egocêntricas mantêm forte foco no seu círculo social. Elas querem ser queridas, admiradas e necessárias. Até investem em relações, mas com uma condição escondida: a própria posição precisa continuar central. Preservam a imagem que passam, querem parecer insubstituíveis e muitas vezes se enxergam como figuras-chave na vida alheia.

O padrão de comunicação que entrega tudo: boomerasking

Na avaliação de Alison Wood Brooks, muita gente egocêntrica se denuncia por um padrão específico de fala. Ela usa o termo “boomerasking”, formado por “boomerang” e “asking”.

Boomerasking significa isto: alguém faz uma pergunta - não por interesse real, mas para trazer o palco da conversa de volta para si imediatamente.

A pergunta é lançada como um bumerangue e retorna, quase no mesmo instante, para quem a fez. Algumas cenas comuns do dia a dia:

  • “O que você vai almoçar hoje? Vou pegar sushi, aquele restaurante novo é incrível.”
  • “Como foram suas férias? As minhas foram incríveis, olha essas fotos!”
  • “Vai fazer algo com a família na Páscoa? Eu vou ficar sozinho em casa, é uma longa história…”

À primeira vista, isso parece apenas conversa informal. Mas, no boomerasking, a resposta da outra pessoa importa pouco. A pergunta funciona só como trampolim para a própria história, o próprio estado emocional e a própria performance.

Três objetivos escondidos por trás do boomerasking

Segundo a pesquisadora de Harvard, o boomerasking normalmente serve a um de três objetivos. Em alguns casos, eles aparecem combinados.

Objetivo Do que se trata Exemplo típico
Se promover Destacar a própria realização, o próprio gosto ou o próprio status. “Como está seu trabalho? O meu está decolando agora, tenho projetos demais.”
Receber pena Buscar validação e consolo. “Você está estressado? Eu estou no meu limite, ninguém me entende.”
Contar a própria história Despejar uma anedota pessoal, mesmo que ela não combine. “Você já foi à Espanha? Uma vez tive uma viagem completamente maluca lá…”

A estratégia funciona porque, na superfície, parece educada. Fazer perguntas é visto como gentileza, e demonstrar curiosidade soa como competência social. É justamente isso que torna o boomerasking tão difícil de perceber - e tão cansativo quando você convive com pessoas assim com frequência.

Como reconhecer egocêntricos numa conversa

O boomerasking é apenas um dos sinais. Outros indícios que costumam aparecer junto com ele:

  • A pessoa só escuta até encontrar uma brecha para falar de si.
  • Os seus assuntos são rapidamente deixados de lado ou usados apenas como ponto de partida para histórias próprias.
  • Elogios e devolutivas quase sempre correm em uma única direção - para ela.
  • Críticas ou limites costumam gerar incompreensão ou serem vistos como ataque.
  • Ela reforça com frequência o quanto é “importante”, “sobrecarregada” ou “indispensável”.

Depois de conversar com esse tipo de pessoa, muitas vezes fica uma sensação estranha: você esteve ali, mas de alguma forma não esteve de verdade. Quem vivencia isso com frequência provavelmente está diante de um egocentrismo bem acentuado.

É preciso evitar esse tipo de pessoa?

O egocentrismo faz fronteira com o narcisismo, mas não cai automaticamente no campo da manipulação tóxica. Muitas pessoas afetadas não agem por cálculo; agem por hábito e insegurança. Simplesmente não percebem o pouco espaço que deixam para os outros.

Nem todo egocêntrico é um manipulador - mas lidar com ele ainda assim pode ser desgastante.

Pode ser útil criar distância se você sai repetidamente esgotado de encontros ou se suas necessidades quase nunca aparecem. Em muitos casos, porém, basta conduzir a conversa com mais intenção:

  • Fale claramente quando quiser terminar um raciocínio.
  • Traga o assunto de volta de propósito: “Deixa eu terminar rapidinho.”
  • Reduza o tempo de encontros que o deixam exausto com frequência.
  • Observe quando você mesmo começa a cair em padrões parecidos.

Como evitar o boomerasking em si mesmo

Quase todo mundo escorrega nesse padrão de vez em quando - especialmente quando está nervoso, quer agradar ou acabou de viver algo marcante. A diferença em relação a pessoas muito egocêntricas é que quem reflete consegue corrigir a rota.

Perguntas úteis para fazer a si mesmo durante uma conversa:

  • Eu realmente deixei a outra pessoa terminar?
  • Eu reagi ao que ela respondeu ou já emendei minha própria história?
  • Estou fazendo perguntas cuja resposta me interessa de verdade?
  • Como está o equilíbrio entre o quanto cada um fala?

Uma técnica simples: antes de puxar mais um assunto, resuma por um instante o que a outra pessoa disse (“Então, você está realmente muito sobrecarregado no trabalho, certo?”). Isso mostra escuta real e dá espaço ao outro antes que você compartilhe seu ponto de vista, se for o caso.

Por que a atenção genuína faz tão bem

Pessoas que escutam de verdade costumam transmitir mais calma, maturidade e confiança. Elas processam informações melhor e constroem relações mais estáveis. Em contrapartida, padrões constantes de boomerasking desgastam qualquer vínculo com o tempo: o outro se sente não visto, não levado a sério e pouco importante.

Especialmente em relacionamentos, família e amizades, vale observar com cuidado a dinâmica das conversas. Quem faz perguntas com atenção, sem usar a resposta imediatamente como palco para si, envia uma mensagem clara: “Você é realmente importante para mim - e não apenas como figurante na minha história.”

Assim, as descobertas de Harvard oferecem mais do que uma palavra da moda. Elas funcionam como um espelho para o nosso cotidiano: como falamos uns com os outros - e quem realmente ocupa o centro das nossas conversas?

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