Uma nova modalidade de imunoterapia celular dá sinais de que pode impedir a formação de placas associadas à doença de Alzheimer no cérebro - e, quando aplicada em casos mais avançados, até remover parte delas.
Em experimentos com camundongos, cientistas da Universidade de Washington desenvolveram um vírus especialmente projetado para alterar geneticamente células e transformá-las em “superfaxineiras”, capazes de eliminar proteínas nocivas no cérebro.
CAR-astrócitos e doença de Alzheimer: a ideia por trás da estratégia
A abordagem se inspira em um tipo de tratamento do câncer chamado terapia de células T com receptor quimérico de antígeno (CAR), no qual pesquisadores modificam geneticamente as células T do sistema imune para atacar células tumorais.
Desta vez, porém, o foco foram células cerebrais em forma de estrela conhecidas como astrócitos, que foram programados para rastrear as proteínas beta-amiloide relacionadas ao declínio cognitivo na doença de Alzheimer.
“Este estudo marca a primeira tentativa bem-sucedida de engenheirar astrócitos para mirar especificamente e remover placas de beta-amiloide nos cérebros de camundongos com doença de Alzheimer”, afirma o autor sênior Marco Colonna, patologista da Universidade de Washington, nos EUA.
“Embora ainda seja necessário mais trabalho para otimizar a abordagem e lidar com possíveis efeitos colaterais, esses resultados abrem uma nova e empolgante oportunidade de desenvolver CAR-astrócitos como uma imunoterapia para doenças neurodegenerativas e até tumores cerebrais.”
Como a terapia genética reprograma os astrócitos
Colonna e seus colegas criaram uma forma de recrutar e equipar astrócitos para atuarem como especialistas na caça à amiloide.
O primeiro autor Yun Chen, ex-estudante de pós-graduação no laboratório de Colonna, elaborou uma terapia gênica que mira especificamente os astrócitos. Um gene que codifica o CAR é colocado em um vírus inofensivo, que então é injetado em camundongos. Ao infectar os astrócitos, esse vírus entrega o gene e, na prática, os reprograma.
Normalmente, os astrócitos exercem várias funções essenciais no cérebro, incluindo tarefas de “manutenção”. Com essa técnica, a força coletiva dessas células é direcionada contra as proteínas beta-amiloide.
Ao receberem essa nova função, os astrócitos passaram a se concentrar quase exclusivamente em eliminar placas de beta-amiloide - uma tarefa para a qual se mostraram eficientes.
Resultados em camundongos: prevenção e redução de placas amiloides
Os autores do estudo observaram que uma única injeção da nova terapia gênica pareceu impedir o desenvolvimento de placas amiloides quando administrada antes de elas começarem a se formar.
Mesmo em camundongos que já tinham placas amiloides, uma única aplicação da terapia foi associada, segundo os pesquisadores, a uma redução de aproximadamente 50 por cento das placas.
Para testar isso, a equipe usou camundongos geneticamente predispostos ao acúmulo de beta-amiloide e os dividiu em dois grupos: animais jovens, ainda no período anterior ao surgimento de placas, e animais mais velhos, já com placas amiloides presentes.
Ambos os grupos receberam uma injeção de um vírus que carregava o gene para expressão do CAR, e os pesquisadores reavaliaram os resultados após três meses.
Por volta dos seis meses de idade, camundongos predispostos ao acúmulo de beta-amiloide costumam apresentar altas concentrações dessas placas no cérebro. Já os que receberam o novo tratamento quando jovens não mostraram essas placas ao chegar a essa idade, de acordo com o estudo.
Mesmo nos camundongos mais velhos, cuja condição já estava em andamento, a intervenção se associou a melhora. Animais que receberam a terapia gênica aos seis meses de idade exibiram, aos nove meses, cerca de metade do número de placas em comparação com um grupo controle de mesma faixa etária, que recebeu um vírus sem o gene CAR.
“Assim como ocorre com os tratamentos com fármacos de anticorpos, esta nova imunoterapia com CAR-astrócitos é mais eficaz quando administrada nos estágios iniciais da doença”, diz o coautor David Holtzman, neurocientista da Universidade de Washington.
“Mas o que a diferencia, e onde ela pode fazer diferença no cuidado clínico, é a injeção única que conseguiu reduzir com sucesso a quantidade de proteínas cerebrais nocivas em camundongos.”
Contexto: tratamentos atuais e limitações
Ainda não existe cura para a doença de Alzheimer, mas há medidas que podem desacelerá-la, sobretudo nas fases iniciais. Uma alimentação nutritiva e a prática regular de exercícios podem ajudar, por exemplo, com benefícios potenciais a partir de apenas 5.000 passos por dia.
Medicamentos mais recentes também podem reduzir a velocidade de progressão do Alzheimer - em especial uma classe chamada anticorpos monoclonais, como lecanemabe e donanemabe.
Esses fármacos miram as proteínas beta-amiloide que se acumulam no cérebro de pacientes com Alzheimer. Apesar de capacidades promissoras, eles apresentam limitações importantes, como a necessidade de doses altas, infusões frequentes e o risco de anormalidades de imagem relacionadas à amiloide.
No novo estudo, porém, os pesquisadores descrevem uma forma diferente de imunoterapia celular que poderia aumentar a eficácia e diminuir a frequência de tratamentos antiamiloide.
Os autores destacam que ainda serão necessários mais estudos para refinar a estratégia e garantir sua segurança antes de qualquer teste em humanos, mas o trabalho sugere uma ferramenta poderosa contra o Alzheimer - e uma que talvez também possa ser ajustada para atingir outras ameaças, como tumores cerebrais.
O estudo foi publicado na revista Ciência.
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