NOVA YORK (AP) - Humanos modernos e neandertais se aproximaram e tiveram filhos ocasionalmente quando ocuparam as mesmas regiões, há dezenas de milhares de anos. Ainda assim, sabemos pouco sobre quem se relacionava com quem - e o que motivava esses encontros.
Uma nova análise genética traz um tipo de “fofoca” antiga: as uniões teriam ocorrido mais frequentemente entre mulheres humanas e homens neandertais.
Neandertais e humanos: como esses encontros aconteceram?
O modo exato como isso se desenrolou segue sendo um grande ponto de interrogação. Teriam mulheres humanas entrado em grupos de neandertais, ou homens neandertais é que se aproximavam de comunidades humanas maiores? Esses contatos foram pacíficos, confusos, discretos, secretos - ou até violentos?
“Eu não sei se algum dia teremos uma resposta definitiva sobre como isso aconteceu, já que não podemos voltar no tempo”, disse o especialista em genética de populações Xinjun Zhang, da Universidade de Michigan, ao comentar a nova análise.
O estudo, publicado na quinta-feira na revista Science, mostra “que, sempre que neandertais e humanos modernos se reproduziram, houve uma preferência por homens neandertais e mulheres humanas modernas, e não o contrário”, afirmou o autor Alexander Platt, pesquisador de genética na Universidade da Pensilvânia.
Por que sabemos que houve cruzamento: o DNA neandertal em humanos atuais
Cientistas já sabem que neandertais e humanos tiveram descendentes em comum porque uma pequena, porém importante, parcela de DNA neandertal aparece na maioria dos humanos atuais - incluindo genes que podem nos ajudar a combater algumas doenças e, ao mesmo tempo, nos tornar mais suscetíveis a outras.
Também era conhecido que esse DNA neandertal não aparece distribuído de forma uniforme ao longo do genoma humano.
Em especial, chama atenção a escassez surpreendente de DNA neandertal no cromossomo X humano - um dos conjuntos de genes presentes em cada célula conhecidos como cromossomos sexuais - quando comparada à quantidade de DNA neandertal nos demais cromossomos, que não são sexuais.
As hipóteses anteriores: seleção natural ou padrão de convivência
Uma explicação levantada por cientistas era que, nesses trechos, os genes de origem neandertal simplesmente não seriam vantajosos - ou poderiam até ser prejudiciais. Talvez pessoas com esses padrões genéticos tivessem menor chance de sobreviver, e assim esses genes teriam sido eliminados ao longo do tempo pela evolução.
Outra possibilidade considerada era que a diferença se explicasse pelo modo como as duas espécies se misturaram.
Para tentar desvendar o enigma, Platt e colegas voltaram o olhar para o genoma neandertal e para o DNA humano que se espalhou por ele durante um “evento de acasalamento” ocorrido há 250.000 anos.
Ao comparar esses genes, os pesquisadores encontraram uma presença maior de “marca” humana no cromossomo X neandertal - o mesmo cromossomo que, em humanos, tem menos DNA neandertal do que seria esperado.
O papel dos cromossomos sexuais no padrão encontrado
A explicação mais provável para esse padrão em “imagem espelhada” seria o comportamento reprodutivo. Isso está ligado à forma como os cromossomos sexuais são transmitidos de pais para filhos, explicou Platt.
Como fêmeas genéticas têm dois cromossomos X e machos genéticos têm um X e um Y, em média dois de cada três cromossomos X em uma população são herdados das mães.
Assim, se ao longo de milhares de anos mais fêmeas humanas tiveram filhos com machos neandertais do que o inverso, o esperado seria exatamente o que a equipe observou: mais DNA humano nos cromossomos X de neandertais e menos DNA neandertal nos cromossomos X de humanos.
“Eu acho que eles deram passos realmente importantes para preencher peças que faltavam nesse quebra-cabeça”, disse Joshua Akey, que estuda genômica evolutiva na Universidade de Princeton e não participou do novo estudo.
O que o estudo não elimina - e o que ele sugere
A pesquisa não descarta completamente outras explicações. Zhang observou, por exemplo, que é possível que a prole de homens humanos com fêmeas neandertais simplesmente não tenha sobrevivido tão bem.
Mesmo assim, o trabalho conclui que a explicação mais simples e mais provável é também a mais intrigante: “Não é o resultado de uma sobrevivência do mais apto estritamente darwiniana”, disse Platt. “É realmente o resultado de como nós interagimos uns com os outros, e de como são nossa cultura, nossa sociedade e nosso comportamento.”
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