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“Tornado” de galáxias é a maior estrutura rotativa já observada.

Homem em escritório analisando imagem colorida de galáxia na tela com antenas parabólicas ao fundo.

Um grupo de astrónomos que analisava como as galáxias se distribuem no espaço relativamente próximo identificou algo fora do comum: um enorme cordão de galáxias, retorcido como se estivesse preso num “tornado cósmico” em câmara lenta.

Com pelo menos 49 milhões de anos-luz de extensão, trata-se do mais comprido filamento em rotação já encontrado no Universo - uma vasta estrutura em forma de vórtice integrada na teia cósmica.

Além de ser uma das maiores formações giratórias já observadas, este achado regista como a teia cósmica molda o Universo e, mais do que isso, como deixa a sua marca nas próprias galáxias que a compõem.

"O que torna esta estrutura excecional não é apenas o seu tamanho, mas a combinação de alinhamento do spin e movimento rotacional", afirma a física Lyla Jung, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

"Você pode compará-la ao brinquedo das xícaras num parque de diversões. Cada galáxia é como uma xícara a girar, mas toda a plataforma - o filamento cósmico - também está a rodar. Esse movimento duplo dá-nos uma visão rara de como as galáxias adquirem o seu spin a partir das estruturas maiores em que vivem."

Teia cósmica, matéria escura e o papel dos filamentos

A teia cósmica funciona, em essência, como a “estrutura invisível” que sustenta o Universo: uma rede gigantesca e complexa, composta por incontáveis filamentos de matéria escura que, pela gravidade, mantêm o cosmos ligado e determinam como as galáxias se distribuem e se deslocam.

Esses filamentos comportam-se como autoestradas cósmicas, ao longo das quais as galáxias se acumulam e viajam. Ao estudá-los, os cientistas conseguem mapear a grande metaestrutura do Universo, reunindo pistas sobre como tudo se encaixa e sobre a forma como o cosmos evoluiu desde os instantes iniciais após a Grande Explosão.

O filamento giratório da teia cósmica: a primeira pista no MEERKat

Sob a liderança de Jung e da co-líder, a física Madalina Tudorache (Oxford e Universidade de Cambridge), a equipa identificou este filamento a partir de observações obtidas com o radiotelescópio MEERKat, na África do Sul, como parte do levantamento do céu MIGHTEE.

A cerca de 440 milhões de anos-luz - uma distância pequena em termos cósmicos - eles notaram 14 galáxias com um comportamento incomum. Pareciam dispostas numa linha estranhamente reta e fina, semelhante a uma agulha, com cerca de 117,000 anos-luz de largura e 5.5 milhões de anos-luz de comprimento. Além disso, havia galáxias demais orientadas na mesma direção para que isso pudesse ser explicado apenas pelo acaso.

Confirmação com Sloan e DESI: mais 283 galáxias no mesmo alinhamento

Diante disso, era inevitável aprofundar a análise. A equipa recorreu, então, a dados do Levantamento Digital do Céu Sloan, que abrange um campo de visão mais amplo no óptico e no infravermelho, e também ao levantamento do Instrumento Espectroscópico de Energia Escura (DESI), que recolhe observações no óptico, infravermelho e ultravioleta.

Com esse conjunto de dados, foram encontradas mais 283 galáxias à mesma distância, seguindo a mesma configuração em linha reta. Para reforçar o padrão, as novas galáxias também exibiam a mesma preferência de orientação do seu eixo ao longo do comprimento do filamento.

No espaço, estruturas tão bem delineadas raramente surgem sem algum fator físico a organizá-las. Neste caso, a hipótese mais direta - e também a mais empolgante - era a presença de um filamento cósmico. Afinal, estruturas em grande escala formadas por matéria escura invisível não são exatamente fáceis de observar nem de delimitar.

O desvio para o vermelho revela a rotação do conjunto

O cenário tornou-se ainda mais intrigante quando os investigadores analisaram o desvio para o vermelho das galáxias. Num dos lados do filamento, a luz das galáxias aparecia deslocada para a porção mais azul do espectro eletromagnético, compatível com o encurtamento do comprimento de onda quando a fonte se aproxima do observador.

Já as galáxias do lado oposto exibiam alongamento da luz para tons mais vermelhos - o que ocorre quando a fonte se afasta.

Esse contraste é um sinal nítido de que toda a estrutura está a rodar. Os investigadores conseguiram inclusive modelar a velocidade: cerca de 110 quilómetros por segundo (aprox. 68 milhas por segundo), valor comparável ao da aproximação entre a Via Láctea e a galáxia Andrómeda.

Teoria do Torque de Maré, gás de hidrogénio e o “combustível” para galáxias

O padrão observado encaixa-se bem em previsões da Teoria do Torque de Maré, um modelo segundo o qual assimetrias no campo gravitacional do Universo primordial transferiram momento angular para os filamentos em formação na teia cósmica - imprimindo-lhes uma rotação significativa.

Ao mesmo tempo, a presença de gás difuso, frio e neutro de hidrogénio no filamento, juntamente com o elevado teor de hidrogénio das galáxias, sugere que filamentos desse tipo podem abastecer as galáxias com o combustível necessário para crescer e formar estrelas.

Além disso, o alinhamento das galáxias ao longo do filamento aponta que os filamentos da teia cósmica conseguem transferir momento angular para as galáxias - um resultado que pode ajudar a completar a explicação de como as galáxias adquirem o seu spin desde o início.

Se observarmos uma imagem de campo profundo do Universo, as galáxias parecem, à primeira vista, espalhadas de forma relativamente aleatória e sem ligação. A deteção deste filamento gigantesco mostra que não só tudo é mais interligado do que aparenta, como também existem estruturas vastas e invisíveis capazes de exercer uma influência poderosa - que só se torna evidente quando olhamos com mais atenção.

"Descobrimos que as galáxias exibem fortes evidências de rotação em torno do eixo do filamento - o que faz desta a estrutura em rotação mais longa já identificada até agora", escrevem os investigadores no artigo.

"Esta estrutura pode revelar-se o ambiente ideal para … estabelecer com precisão a relação entre o gás de baixa densidade na teia cósmica e a forma como as galáxias que se encontram no seu interior crescem usando esse material."

A pesquisa foi publicada nos Boletins Mensais da Sociedade Astronómica Real.

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