O novo Nissan Micra é 100% elétrico e nem tenta disfarçar suas raízes francesas - mas traz soluções e detalhes próprios.
O Micra ocupa um lugar especial na história da Nissan. A primeira geração estreou em 1983 e, dez anos depois, a segunda virou um fenômeno mundial. Foi justamente essa geração que se tornou o primeiro carro japonês a ganhar o prêmio de Carro do Ano na Europa.
Passadas mais de quatro décadas e com mais de seis milhões de unidades vendidas desde o primeiro Micra, a sexta geração está pronta para chegar ao mercado. Agora, ele passa a ser exclusivamente elétrico e nasce diretamente a partir do novo Renault 5 E‑Tech. Ainda assim, o visual externo do Micra (desenvolvido no centro de design da Nissan em Londres) se afasta bastante do modelo francês.
Para a Nissan, usar a base técnica do Renault 5 E‑Tech e fabricar o carro na mesma planta francesa foi a forma de colocar rapidamente um modelo do segmento B nas ruas, com custos de desenvolvimento menores, aproveitando as sinergias com a parceira de aliança, a Renault.
Com 3,97 m de comprimento (5 cm a mais que o Renault 5, mantendo a mesma largura e altura), o novo modelo resgata referências da terceira geração do Micra, lançada em 2003 e marcada pelos faróis dianteiros ovalados. Na traseira, a ideia se repete com lanternas circulares - bem diferentes das peças quadradas e verticais do francês.
Interior copiado do “primo” francês
Por dentro, ele realmente "cheira" a Renault 5: o painel, os diversos comandos e também o conjunto de instrumentos e a tela central - ambos com 10,1” - são exatamente os mesmos vistos no carro francês.
Em compensação, há alguns revestimentos com toque macio que não aparecem no Renault. O destaque, porém, fica principalmente para o ótimo sistema Android - com tela na horizontal, ao contrário dos Renault mais novos, onde ela é vertical - integrado à navegação e a outras funções.
O sistema traz um planejador de rotas bem prático, que considera a evolução dos dados do carro (consumo e autonomia), a localização dos carregadores (com potência e, em muitos casos, nível de ocupação) e a temperatura externa (para estimar variações de alcance).
No Nissan Micra elétrico, o motorista também consegue definir o nível mínimo e máximo de carga em cada parada ou destino. E ainda dá para antecipar o resfriamento da bateria alguns quilômetros antes do "reabastecimento", com a ideia de otimizar o carregamento.
Como o ecossistema é o do Google, tanto os menus quanto várias das aplicações se parecem bastante com o que a maioria das pessoas já conhece nos celulares atuais - o que ajuda muito na usabilidade por ser mais intuitivo.
Mesmo assim, o novo Nissan Micra guarda detalhes que remetem à simplicidade da filosofia japonesa, como a imagem do Monte Fuji gravada no fundo do plástico do console central e também na moldura do porta-malas.
Atrás, só dois adultos “à justa” no Nissan Micra elétrico
Quanto ao espaço na segunda fileira, a avaliação é exatamente a mesma que fizemos no Renault 5. Quatro adultos de 1,80 m cabem "à justa" - sobra pouca folga entre a cabeça e o teto, e também entre os joelhos e o encosto dos bancos dianteiros -, mas não dá para esperar mais do que isso.
Se for levar um terceiro passageiro no banco traseiro, ele precisará ser bem magro e de menor estatura para evitar desconforto. O assoalho traseiro é plano, o que ajuda a movimentação de pés e pernas, mas não faz milagre.
Duas opções de conjunto mecânico
As duas configurações de propulsão repetem o que já conhecemos no R5 - lembrando que o Renault ainda oferece uma terceira versão de entrada, menos potente.
No Nissan Micra, a variante básica usa uma bateria de 40 kWh, com autonomia de 310 km (WLTP). Nessa configuração, o motor entrega 90 kW (122 cv) e 225 Nm de torque. Já a versão mais forte - que tivemos a oportunidade de dirigir na Inglaterra - vem com bateria de 52 kWh (408 km de autonomia) e motor de 110 kW (150 cv) e 245 Nm.
Pela experiência que já temos com o Renault, essas autonomias oficiais da homologação tendem a ser um pouco otimistas. O mais realista é esperar, com carga completa, algo entre 220 km e 250 km na versão de 40 kWh e entre 300 km e 340 km na de 52 kWhe. E, claro, isso depende muito do tipo de trajeto - para a autonomia, quanto menos rodovia, melhor.
Na opção mais potente, a aceleração de 0 a 100 km/h é feita em oito segundos; na menos forte, some-se mais um segundo. A velocidade máxima é limitada a 150 km/h nas duas.
As borboletas atrás do volante são um acerto
O que não aparece no carro da Renault, mas foi incluído no Nissan Micra, são as borboletas atrás do volante para ajustar a intensidade da regeneração de energia do sistema elétrico.
A borboleta da esquerda aumenta a desaceleração regenerativa e a da direita reduz esse efeito, quase chegando ao ponto de deixar o carro em roda livre. No total, existem quatro níveis, incluindo a função "one pedal drive" (dirigir só com o pedal do acelerador).
Essas borboletas também ajudam a diminuir o uso do pedal de freio, que tem a vantagem de ser eletrônico (sem ligação mecânica entre pedal e pinças). Na prática, isso deixa a resposta de frenagem bem forte (assim que se pisa) e também bastante linear.
Existem quatro modos de condução. O Sport se destaca por deixar o acelerador um pouco mais sensível no começo do curso, enquanto o Eco reduz a potência do sistema para menos da metade (50 kW ou 68 cv). Ainda assim, quando necessário, a função de kick-down continua disponível, devolvendo o comportamento normal ao acelerar com o pedal no fundo.
Amigo das curvas
Assim como no Renault 5, o Nissan Micra se sente à vontade em curvas fechadas: aponta rápido na entrada e nas mudanças de direção, mantém a trajetória de modo progressivo e tem vontade de "comunicar" o que está acontecendo entre pneus e asfalto.
Mesmo sem chegarmos à velocidade máxima declarada nas pistas sinuosas do tradicional centro de testes dinâmicos da UTAC em Millbrook, no Reino Unido, deu para adotar um ritmo suficiente para confirmar a grande competência dinâmica do Micra. Ele vira, ao lado do “primo” Renault 5, um dos elétricos mais divertidos de guiar neste segmento.
A calibragem da suspensão é firme sem ser dura demais; em curvas, a carroceria quase não inclina, e o peso das baterias aparece, ajudando a “assentar” o carro no chão. Além disso, nesta versão, há também a contribuição das rodas de 18”, instaladas em um carro com apenas quatro metros de comprimento.
Ao passar por trechos de asfalto mais irregular, a suspensão traseira independente (algo raro nesta categoria) colabora para melhorar o conforto ao rodar. Um conjunto tão equilibrado chega a fazer a gente desejar uma direção um pouco mais pesada (ou, ao menos, que ela ficasse assim no modo mais esportivo), embora essa leveza seja uma vantagem evidente no uso urbano.
No asfalto seco e com boa aderência do centro de testes de Millbrook, não percebemos perda de tração. Ainda assim, pela vivência com o Renault 5, vale lembrar que em piso molhado e com menos aderência o comportamento pode mudar bastante, com alguns desequilíbrios mais bruscos do eixo traseiro.
Por outro lado, o nível de competência do chassi dá margem para pensar se não faria sentido existir um Nissan Micra mais potente assinado pela Nismo. Algo que os representantes da Nissan presentes no evento não descartaram totalmente - afinal, o Alpine A290, também derivado do R5, chega aos 218 cv…
Em sintonia no visual e no preço
A nova geração do Nissan Micra já deu as caras em Portugal, mas a marca ainda não fechou os preços finais. A previsão de chegada é para o fim deste ano.
Mesmo assim, é bem provável que o Nissan Micra elétrico fique com valores muito próximos aos do Renault. Com isso, faz sentido estimar um preço de entrada por volta de 27 mil euros e cerca de 33 mil euros para a versão mais forte, como a que testamos.
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