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Discursos vazios, frustração, adiamentos, falta de apoio à indústria nacional e custos extras: essa é a realidade das Forças Armadas da Colômbia.

Soldado de farda verde está em hangar com drone branco e helicóptero militar ao fundo, bandeira da Colômbia na parede.

Dentro do clima de otimismo que costuma dominar as redes sociais e as notas oficiais das Forças Armadas da Colômbia, anúncios pomposos e comunicados cheios de esperança viraram rotina. Porém, quando esse discurso é filtrado por um olhar mais próximo da realidade, aparecem muitos motivos para que tais mensagens acabem gerando frustração entre quem estuda temas de Defesa no país.

Na internet - em podcasts e vídeos no YouTube - um grupo pequeno de especialistas acompanha e destrincha diariamente assuntos de defesa, trazendo críticas, recomendações, ironias e também apoio. Fazemos isso porque o respeito por Soldados, Infantes, Policiais, Oficiais e Suboficiais, além do apreço pelo Exército, pela Polícia Nacional, pela Força Aérea e pela Armada, exige honestidade intelectual.

Depois de anos de violência, tratar desse tema vira obrigação: é uma forma de cobrar que a vida das tropas seja protegida e valorizada, para não continuarmos assistindo - como acontece agora, dia após dia - à morte de homens que defendem os cidadãos e suas instituições. Meus leitores (e os de outros excelentes colunistas em páginas como a Zona Militar) conhecem bem o histórico de críticas acumuladas ao longo do tempo; ainda assim, tudo indica que elas não encontram eco entre Generais com experiência em assuntos militares e, menos ainda, entre assessores do ministério - que eu espero que não sejam os mesmos desde o início deste governo - sem domínio do mercado internacional de armas ou do que as guerras modernas exigem em termos de desenvolvimento.

A seguir, vou comentar alguns pontos relevantes do último semestre, com suas consequências, falhas e incoerências. Não será possível cobrir tudo, e a ideia é manter o texto em um tamanho que não fique excessivo nem cansativo.

Drones da CIAC: existem, aparecem, mas não recebem apoio nem compras

Para este autor, tem sido desanimador observar como a Corporación de la Industria Aeronáutica Colombiana S.A. apresenta projetos e resultados concretos - como Coelum, Quimbaya e Dragom - que comprovam capacidade em feiras, exercícios e demonstrações. Ainda assim, quem decide parece fechar os olhos para desenvolvimentos nacionais, já que nenhum dos modelos citados foi adquirido em volume relevante pelos nossos Generais.

O Coelum acabou deixado de lado em favor do norte-americano Raven; o Quimbaya permaneceu como vitrine de demonstração, sem pedidos efetivos. E, no quadro mais grave, houve a coletiva - da qual este correspondente participou - para anunciar o Dragom: além de ocultarem a sua capacidade de ataque (o que seria um salto enorme para a indústria), criou-se uma expectativa irreal sobre a compra do sistema.

Isso fica fácil de perceber com a ativação do Batallón de Aeronaves no Tripuladas (BANOT): nem o Dragom nem seus “irmãos” entraram como parte da nova unidade. Para piorar, a própria estrutura dá a impressão de ser mais um grupo organizado de entusiastas de drones do que um componente militar de fato - e isso sem levar em conta as lições de praticamente todos os conflitos dos últimos 5 anos e sem sequer montar uma companhia de ataque, algo indispensável e que as organizações ilegais já possuem, como ficou evidenciado em ataques no norte do Cauca e em outras regiões do país.

Saab 39 Gripen nas Forças Armadas da Colômbia: uma realidade com dúvidas

Depois do comunicado que autorizou a compra do novo caça para a FAC, este autor apoiou a escolha por entendê-la como a mais conveniente para a Colômbia: seria a alternativa mais barata, com menos amarras a controles estrangeiros e com capacidades superiores graças à versatilidade. À época, falava-se em um custo unitário entre 110 e 120 milhões de dólares.

Só que surgiram surpresas relevantes. A primeira é o salto de preço: a cifra mais recente informada pelo próprio Ministério da Defesa foi de 3.135 milhões de euros - o que, na conversão apresentada, seria 3.612,5 milhões de dólares. Considerando 17 unidades e deixando de lado as atualizações de base necessárias para operar o sistema, isso sugere um valor por aeronave de aproximadamente 212,5 milhões de dólares.

Esse aumento, perto de 90 por cento, poderia ser explicado (conforme a mesma declaração) pela inclusão de armamento, logística, guerra eletrônica, treinamento e capacitação no pacote. Ainda assim, ao lembrar de contratos anteriores - como o da Nexter para os obuseiros LG-1 MK-III, em que havia orçamento para 36 sistemas e foram comprados apenas 20 - fica evidente que, no mínimo, existe um problema de comunicação no Ministério da Defesa quando o objetivo é dar mais transparência ao processo.

É verdade que certas capacidades precisam ficar reservadas. Porém, informar o valor desses outros itens do contrato não colocaria a segurança nacional em risco. Se cada componente fosse detalhado, o debate sobre preço perderia força, pois haveria um número concreto para o custo real por aeronave. Naturalmente, quando se separa o que é reposição, o que é armamento e o que são outros serviços, a desconfiança tende a diminuir.

Produção de blindados na Colômbia

A falta de blindagem adequada para as tropas em áreas críticas de ordem pública é, historicamente, um erro que custou a vida de muitos militares e policiais. Por isso, a ideia de criar uma fábrica para montar e construir essas capacidades no país soou como boa notícia - ainda mais quando viaturas que, por necessidade, deveriam ser modernizadas e repotenciadas acabam desativadas, embora sigam operando em nações com orçamento menor que o colombiano, como no caso dos Urutu.

Mas o cenário real é mais duro. Mesmo que Sogamoso disponha do terreno e de uma estrutura industrial em funcionamento, implantar um novo complexo exige recursos que o governo atual não tem como bancar, diante do desfinanciamento e da necessidade de uma nova reforma tributária.

Sem ignorar isso, aparece outra preocupação: os convênios interadministrativos que deram origem a essa ambição. Aqui é preciso explicar uma dinâmica que tem sido associada à corrupção nas compras feitas por esse modelo. Embora o dinheiro venha de um órgão como o Ministério da Defesa, a contratação final fica a cargo de quem executará o contrato - neste caso, a Indumil. O problema é que a regulamentação abre margem para que a empresa contrate diretamente ou use outros métodos a seu critério, e tudo isso pode voltar a ser escudado sob “segurança nacional”, sem transparência pública sobre critérios e escolhas.

Contrato do LAV III sem esclarecimentos

Ainda no tema da urgência por blindagem para a tropa: o que aconteceu com o contrato com a General Dynamics Land Systems Canadá? Até agora, não há posicionamento oficial, mesmo após o que foi denunciado na W Radio e na Revista Semana. Foram comprados? O acordo segue em vigor? De novo, protegidos pelo argumento de “segurança nacional”, não há respostas: o silêncio prevalece. Também não se sabe se, por alinhamentos políticos do presidente atual, esse contrato teria sido travado.

Mesmo com as críticas feitas por este autor (independentemente de concordarem ou não com elas), em plataformas oficiais como o SECOP não existe informação suficiente para esclarecer a execução desse plano - o que só alimenta dúvidas sem fatos concretos.

Compras importantes travadas por política: contratos com Israel

Dois anúncios foram vistos por especialistas como avanços significativos para as nossas FF.MM.: a aquisição do sistema antiaéreo Barak e dos obuseiros autopropulsados Atmos 6×6. Só que voltam as mesmas perguntas do tópico anterior: a postura política do presidente Petro impediu a chegada desses equipamentos?

Um presidente guiado por confronto internacional, alheio à necessidade de modernização dos sistemas e à realidade do país, acaba reduzindo a chance de uma atualização indispensável, com custos eficientes e razoáveis. Mantendo a objetividade: esses contratos estão parados… mas seguem valendo? Como de costume, nada é dito - não há declaração oficial.

Neste caso específico, pelos valores de 101 milhões de dólares do Atmos e 131 para o Barak, este autor espera que uma mudança de governo permita concluir as compras e, pela primeira vez em nossa história, o país tenha um sistema antiaéreo de verdade e uma modernização de artilharia - capacidade que se mostrou relevante contra grupos ilegais nos últimos meses.

Fuzil Miranda: ecos do caso das pistolas Córdoba

Outro anúncio de peso, em uma nova coletiva após a ruptura com Israel, foi o desenvolvimento do fuzil nacional Miranda (nome que, para mim, homenageia um grande líder da independência). Ainda em fase de testes, o projeto exige um lembrete - e falo com conhecimento de causa: mesmo quando a Colômbia fabricava a comprovada pistola Córdoba, a Polícia optou por comprar a Sig Sauer INC em 2022, por 3,2 milhões de dólares.

Também vale recordar que foi aprovada a compra de fuzis para forças especiais com a exigência específica de 849 mm de comprimento, condição que excluiu outras alternativas, incluindo a Indumil. A pergunta inevitável é: se os testes do Miranda derem certo, ele será de fato comprado?

Mais uma vez, a obrigação de fortalecer a indústria nacional fica para trás, como se não se entendesse uma lição recorrente: armas não nascem perfeitas, e o apoio à evolução é o que transforma projetos em referências. O M-16 é um exemplo: após falhas no Vietnã e as correções posteriores, tornou-se uma das armas mais usadas e confiáveis da era moderna.

Um erro atrás do outro: helicópteros MI-17

As falhas do ministro anterior na busca de uma solução para reparo e manutenção dos helicópteros russos MI-17 levaram muitos a imaginar que, com a chegada de uma nova gestão liderada por um ex-general da Força Aérea, seria possível ajustar rumos e recuperar uma capacidade tão valiosa.

No entanto, os erros se repetem: a contratação é feita, antecipações são pagas, mas os serviços não se concretizam no campo. O resultado direto é a redução da capacidade de transporte do Exército Nacional.

Simuladores para múltiplas necessidades, que acabam abandonados

Em todos os eventos que este repórter acompanhou, foi possível ver que Escolas Militares, a Codaltec e outras entidades desenvolvem simuladores com capacidades que, embora não sejam perfeitas, podem ser adaptadas e evoluídas para uso das FF.MM. O problema é que esses projetos frequentemente ficam pela metade ou são esquecidos por falta de apoio dos comandos.

Resta torcer para que o programa da Armada - que tenta reunir esses esforços em um concurso entre estamentos, buscando consolidar o aprendizado de homens e mulheres para melhor desempenho no campo de batalha - consiga chegar a um bom desfecho. Vale registrar que, apesar de a Armada Nacional ser um vetor de desenvolvimento e contar com uma grande empresa, a Cotecmar, a inveja pode acabar contribuindo para que, em outras forças, esses simuladores continuem sendo desprezados e ignorados, como vem ocorrendo há anos.

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