Um programa de vacinação contra herpes-zóster iniciado no País de Gales em 2013 trouxe duas pistas que renovam a esperança de avanços no tratamento da demência: a vacina parece diminuir o risco de comprometimento cognitivo leve e, além disso, pode desacelerar a progressão da demência em pessoas que já receberam o diagnóstico.
Em uma análise anterior, já havíamos noticiado a descoberta de que a vacina poderia ajudar a evitar a demência, após a divulgação de resultados na revista Natureza.
Agora, em um novo estudo de acompanhamento com os mesmos dados, essa mesma vacina foi associada a menos mortes atribuídas à demência entre pacientes que já conviviam com o diagnóstico.
O trabalho mais recente, conduzido por uma equipe internacional de cientistas, reforça um conjunto crescente de evidências de que bloquear vírus que afetam o sistema nervoso - como o vírus varicela-zóster, responsável pelo herpes-zóster - também pode contribuir para proteger contra a demência.
"Como a vacina é segura, acessível e já está amplamente disponível, esse achado pode ter grandes implicações para a saúde pública", afirma o epidemiologista Haroon Ahmed, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido.
"Mais pesquisas são necessárias para testar nosso trabalho e entender melhor o possível efeito protetor que a vacina oferece contra a demência, em especial como e por que isso acontece."
Como o programa de vacinação contra herpes-zóster permitiu comparar grupos quase idênticos
O programa galês, implementado há mais de uma década pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, deu aos pesquisadores uma oportunidade rara: analisar algo muito parecido com um ensaio clínico randomizado, sem precisar conduzi-lo de fato. Para racionar as doses, pessoas com 79 anos podiam ser vacinadas, enquanto as com 80 anos não podiam.
Essa particularidade permitiu observar o efeito da vacina em dois grupos extremamente semelhantes, separados por apenas um ano de idade. Isso reduz bastante a influência de outros fatores que interferem no risco de demência, como nível de escolaridade ou outras condições médicas.
Menos mortes por demência e progresso mais lento após a vacinação
Entre as 14,350 pessoas com diagnóstico de demência antes do início do programa de vacinação, cerca de metade morreu por causa da condição ao longo de nove anos. Segundo a análise, ter sido vacinado contra herpes-zóster tornou esse desfecho quase 30 por cento menos provável, o que indica um grau relevante de proteção.
Os pesquisadores também observaram que participantes vacinados tinham menor probabilidade - ou demoravam mais - para desenvolver comprometimento cognitivo leve, que frequentemente antecede a demência. Somados aos achados anteriores de que a vacina reduzia o risco de a demência sequer se instalar, os resultados são animadores.
"A parte mais empolgante é que isso realmente sugere que a vacina contra herpes-zóster não oferece apenas benefícios preventivos e de atraso para a demência, mas também potencial terapêutico para quem já tem demência", diz o cientista biomédico Pascal Geldsetzer, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
Apesar do desenho oportuno do programa de vacinação galês, os dados ainda não são suficientes para demonstrar causa e efeito de forma direta - porém apontam uma ligação significativa que merece investigação mais aprofundada.
Próximos passos: entender os mecanismos e avaliar versões mais recentes da vacina
Um dos desafios seguintes será esclarecer por que a vacina contra herpes-zóster poderia estar influenciando o desenvolvimento e a evolução da demência. É possível que mecanismos do sistema nervoso ou do sistema imunológico estejam envolvidos - por exemplo, em modelos animais, vírus que afetam o sistema nervoso já foram associados ao acúmulo de proteínas tóxicas observado no Alzheimer.
Estudos futuros podem examinar grupos maiores, abrangendo faixas etárias mais amplas, e também avaliar a vacina mais recente contra herpes-zóster: o imunizante usado no País de Gales em 2013 foi posteriormente descontinuado e substituído por uma versão nova e aprimorada.
"Ao menos direcionar uma parte dos nossos recursos para investigar esses caminhos pode levar a avanços em termos de tratamento e prevenção", afirma Geldsetzer.
A pesquisa foi publicada na revista Célula.
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