Uma ação coletiva quer fazer os gigantes das autoestradas na França pagarem a conta.
Para os advogados do escritório Leguevaques, especializado em ações coletivas e ouvidos pelo Le Parisien, as concessionárias de autoestradas “devoram o dinheiro dos utilizadores, ilegalmente”. Foi por isso que o dossiê aberto contra essas empresas recebeu o apelido de Gargantua - uma alusão ao gigante insaciável criado pelo escritor Rabelais.
Depois de anos de críticas de motoristas e de responsáveis políticos dirigidas a essas companhias, o escritório diz estar pronto para partir para a ofensiva nos tribunais. Por meio da plataforma MyLeo, os participantes poderão contestar as tarifas aplicadas pelas concessionárias perante o Conselho de Estado (França).
Prazo para aderir à ação coletiva Gargantua vai até 30 de junho
Na prática, trata-se de uma “ação coletiva de interesse geral”. Questionado pelo jornal, o advogado Christophe Leguevaques destaca o seguinte:
Várias instituições oficiais apontaram uma diferença preocupante entre o preço pago pelos utilizadores e o serviço prestado.
A publicação cita, em particular, dois relatórios oficiais: um do Senado, de 2020, que fala em “uma rentabilidade fora do padrão”, e outro de 2021, da Inspeção Geral de Finanças (IGF), que denuncia “uma rentabilidade muito superior ao esperado”. Apesar desses alertas formais, o Estado nunca contestou os contratos de gestão das autoestradas assinados em 2006, nem sequer tentou renegociá-los.
É isso que surpreende Maud Perdriel-Vaissière, uma das advogadas do escritório, que afirma ao Le Parisien: “Nós oferecemos ao poder público - que não quer! - uma oportunidade de reequilibrar as coisas...”
Segundo as contas feitas pelo escritório, a diferença entre o valor cobrado e o serviço entregue pode chegar a várias centenas de euros por ano para alguns utilizadores - e a dezenas de milhares de euros no caso de empresas que colocam vários veículos em circulação.
Com isso, tanto cidadãos quanto profissionais podem aderir a essa ação judicial coletiva, aberta até 30 de junho de 2026. A organização pede uma participação nos custos de 36 euros para pessoa física e 720 euros para empresa. De acordo com o jornal, o escritório calcula que os autores da ação poderiam obter um reembolso de 30 a 58% das quantias pagas nos últimos cinco anos.
Há, porém, uma condição: as partes precisam ser assinantes de telepedágio, para que haja dados consistentes. Como a França tem 12 milhões de assinantes, isso representa 12 milhões de pessoas com acesso ao histórico dos seus trajetos e às transações efetuadas.
50 cêntimos para percorrer 1,2 km
Duramente criticadas, as concessionárias de autoestradas reagiram. Um dirigente apresentado como o número 1 de uma delas respondeu assim:
A suposta opacidade dos nossos custos é um velho fantasma, mas as nossas regras tarifárias são rigorosas e transparentes. Trata-se de um procedimento completamente fantasioso, conduzido por um advogado que procura visibilidade e negócios.
O caso ainda está no começo, e a controvérsia dificilmente vai perder força tão cedo. Em algumas regiões francesas, situações simbólicas acabaram ganhando destaque. Um exemplo está em L’Union, perto de Toulouse, onde o presidente da câmara municipal, Marc Péré (centro-esquerda), reeleito recentemente, acompanha o tema de perto há anos.
Ele relembra um episódio emblemático - e, para muitos, difícil de justificar - de concessão rodoviária:
L’Union abriga um trecho da autoestrada A68 que permite chegar ao anel viário de Toulouse. Esse itinerário de desvio, de facto, ajuda a poupar tempo em relação às duas vias metropolitanas, mas é cobrado muito caro: 50 cêntimos para percorrer 1,2 km em via rápida, ou seja, mais de 41 cêntimos por quilómetro! Para alguns moradores, isso dá 1 euro por dia, 20 euros por mês, um valor significativo.
Diante disso, ele decidiu atuar como ponte com a população da sua comuna, incentivando os moradores a entrarem na ação coletiva. E o autarca conclui: “Precisamos denunciar o escândalo atual e tentar travar a renovação das concessões.”
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