Uma crise de enxaqueca não é apenas uma "dor de cabeça terrível".
A enxaqueca é uma condição neurológica incapacitante que, além de dor de cabeça intensa, pode provocar náusea, vómitos e sensibilidade à luz ou ao som.
A enxaqueca atinge cerca de cinco milhões de australianos, mas poucas pessoas conhecem as diferentes etapas de uma crise de enxaqueca.
Entender as quatro fases bem definidas ajuda a identificar sinais e a lidar melhor com a dor em cada momento.
Fase 1: "premonitória" (ou "pródromo") da enxaqueca
A primeira etapa do desenvolvimento da enxaqueca é a fase "premonitória", também chamada de "pródromo". Ela funciona como um período de alerta que pode começar de 24 a 48 horas antes de a crise se instalar por completo.
Essa fase está fortemente relacionada ao hipotálamo - a região do cérebro responsável por regular funções essenciais como temperatura corporal, apetite, humor e sono.
Durante uma crise de enxaqueca, o hipotálamo pode ficar ativado de forma anormal. Como ele se liga a outras áreas cerebrais com funções diferentes, essa ativação atípica também pode alterar o funcionamento dessas outras regiões.
Com isso, podem surgir sintomas como dificuldade de concentração, desejo por certos alimentos, irritabilidade e insónia. Ao perceber esses indícios precoces, aumenta a probabilidade de identificar o início da crise e conseguir tratá-la logo no começo.
Fase 2: "aura"
A segunda fase de uma crise de enxaqueca recebe o nome de "aura". A aura engloba diversos sintomas neurológicos que podem interferir na visão, na fala ou na capacidade de perceber sensações. As auras visuais - que afetam principalmente a visão - são as mais comuns.
Entre os sinais de aura visual, é possível notar luzes a piscar, formas em espiral ou áreas sem visão (pontos cegos). Já a aura sensorial pode causar dormência ou formigueiro no rosto ou nos membros. Em situações mais intensas, algumas pessoas chegam a ter dificuldade para falar.
Estudos indicam que um mecanismo chamado depressão cortical alastrante contribui para os sintomas de aura. Nesse processo, uma onda de atividade elétrica se espalha muito lentamente pelo cérebro e pode interferir no funcionamento de determinadas regiões cerebrais.
Apenas 30% das pessoas têm enxaqueca com aura.
Fase 3: dor de cabeça
A terceira etapa da crise é a dor de cabeça. É quando, em geral, a pessoa sente uma dor pulsátil ou latejante, acompanhada de outros sintomas como náusea e sensibilidade à luz e ao som.
Sem tratamento, essa fase costuma durar entre quatro e 72 horas.
Como diferentes redes do cérebro podem ser ativadas durante a crise, outros sinais podem aparecer além da dor.
Quando a medula - ou o "centro do vómito" do cérebro - é ativada de maneira anormal, podem surgir náusea e vómitos.
O nervo trigêmeo, que permite sentir sensações na face, também pode entrar num estado de ativação anormal. Isso leva à libertação de substâncias químicas que o cérebro pode interpretar como dor.
Uma dessas substâncias é uma proteína chamada peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Alguns medicamentos injetáveis para enxaqueca bloqueiam essa proteína para aliviar a dor.
Fase 4: "pósdromo"
A quarta e última fase é o "pósdromo". Ela também é conhecida como "ressaca de enxaqueca".
Nesse período de recuperação, o cérebro trabalha intensamente para voltar ao funcionamento habitual. Por isso, depois da crise, você pode ficar ainda mais exausto ou ter mais dificuldade para se concentrar.
Então, como posso lidar com uma crise de enxaqueca?
Conhecer os sintomas e as etapas do desenvolvimento da enxaqueca faz diferença.
Se os seus sinais forem previsíveis - especialmente durante a fase premonitória -, o ideal é andar com analgésicos ou comprimidos contra náusea. Assim, você consegue tratar os primeiros sintomas assim que aparecem. Isso também pode ser um aviso para descansar, de preferência antes de a fase de dor de cabeça começar.
Na fase de aura, o uso de medicamentos específicos para enxaqueca, como triptanos, aspirina ou anti-inflamatórios para dor, pode impedir que a fase de dor de cabeça se inicie.
Se você tem mais de quatro crises de enxaqueca por mês, também pode considerar o uso de medicamentos preventivos. Em geral, são comprimidos diários que ajudam a controlar o nível basal de dor de cabeça. Também existem opções injetáveis.
Por fim, não negligencie o pósdromo. Se você se exigir demais durante a recuperação, pode ter crises sobrepostas. Isso acontece quando uma nova crise começa antes de a anterior ter terminado completamente. Crises de enxaqueca sobrepostas são muito mais difíceis de tratar.
Você também pode sentir outros sintomas associados à crise de enxaqueca, como tontura, dor no pescoço ou zumbido nos ouvidos. Se algum desses sinais adicionais aparecer, procure o seu neurologista para confirmar que não se trata de uma condição subjacente mais séria.
E, se você é uma mulher que tem enxaqueca com aura, converse com o seu médico antes de iniciar contracepção hormonal. Isso porque você pode precisar de um cuidado diferente de quem não apresenta sintomas de aura.
Ao compreender as diferentes fases e os sintomas da enxaqueca, você estará mais preparado para enfrentar futuras crises quando elas surgirem.
Lakshini Gunasekera, doutoranda em Neurologia, Monash University
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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